Lula abre espaço para Flávio no último debate antes do 1º turno
Especialistas avaliam que ausência do petista reduz risco de desgaste e abre espaço para adversários construírem discurso; senador terá maior exposição e também deve virar alvo
A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar do debate da TV Globo, marcado para esta quinta-feira (1º), três dias antes do primeiro turno, altera a dinâmica da reta final da disputa presidencial. Sem o petista, Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) estarão no último debate televisivo antes da votação. O encontro será o primeiro e único do primeiro turno com a participação de Flávio e Lula ficará fora de qualquer confronto direto com o senador antes da eleição.
Ao O HOJE, o cientista político e sócio da Metapolítica Consultoria, Jorge Mizael, avalia que Lula e Flávio chegam à reta final com bases eleitorais relativamente consolidadas em uma disputa marcada pela polarização, o que reduz o espaço de “persuasão” dos demais candidatos.
“Estamos falando de uma eleição bastante polarizada, na qual Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final com bases eleitorais relativamente consolidadas. Nesse cenário, o espaço de persuasão é menor do que em uma eleição com eleitorado mais volátil. Ao mesmo tempo, justamente porque a disputa está apertada, uma parcela relativamente pequena de indecisos ou de eleitores ainda pouco convictos pode adquirir uma importância muito maior”, afirma.
Para Mizael, a ausência mostra o viés defensivo da campanha do petista. “Quem está competitivo pode considerar que entrar em um debate a três dias da eleição traz riscos, porque uma frase mal colocada, uma resposta ruim ou um episódio negativo pode dominar as últimas 48 ou 72 horas da campanha. É pouco tempo para corrigir um erro”, explica.
Porém, o cientista ressalta o “custo potencial” da ausência. “Lula abre mão de um espaço de visibilidade exatamente no momento em que parte do eleitorado está tomando sua decisão final. E, sobretudo, deixa o palco livre para que seus adversários construam uma narrativa sobre ele sem que haja a possibilidade de resposta imediata”, diz.
Já o professor aposentado da UFG e cientista político, Pedro Célio, é mais cético em relação à capacidade de um debate realizado na reta final de provocar mudanças no eleitorado.
“Normalmente, os debates ao final da campanha não interferem na decisão do eleitor. Isso por vários motivos. O primeiro é que quem assiste debate já está decidido. Em segundo lugar, a previsibilidade imposta pelas regras dos debates faz com que os candidatos se preparem muito para não derrapar ou cometer alguma asneira que os concorrentes poderiam explorar”, afirma em conversa com a reportagem do O HOJE.
“Só mesmo em casos excepcionalíssimos, quando houver um deslize enorme por parte do candidato, isso pode provocar alteração”, diz. O professor ainda chama atenção para o horário do debate, marcado para às 22h15. “O horário é praticamente proibitivo para a grande massa de eleitores”, afirma.
Flávio no alvo
Para Mizael, a ausência de Lula coloca Flávio no “centro das atenções”. “O Flávio deixa de ter diante de si o adversário que polariza diretamente com ele e passa, naturalmente, a ocupar o centro das atenções. Isso pode significar maior exposição, mas também maior pressão”, avalia.
O cientista político considera plausível que os adversários concentrem questionamentos no senador. “Isso transforma a presença dele em uma situação de risco e oportunidade ao mesmo tempo. Ele terá um palco nacional de enorme audiência sem a presença de Lula”, afirma Mizael.
Já Pedro Célio vê um cenário ainda mais favorável ao senador. Na avaliação do professor aposentado da UFG, Flávio é beneficiado tanto pela ausência de Lula quanto pela ausência do candidato do Missão, Renan Santos, que não foi convidado para o debate. “O Flávio entra no debate com o benefício de origem da ausência de Lula e também da principal fonte de ataques a ele, que é o Renan”, afirma.
O debate também representará a última oportunidade de exposição nacional de Caiado, Zema e Cury, candidatos com chances remotas de 2º turno de acordo com as pesquisas de intenção de voto, antes da votação no próximo domingo (4).
Para Mizael, o que estará em disputa para os presidenciáveis para além de Flávio será “sair do debate maior do que entrou”. “Talvez o principal prêmio em disputa não seja uma improvável vaga no segundo turno, e sim sair do debate politicamente maior do que entrou. Consolidar uma identidade nacional, ampliar seu eleitorado e ocupar espaço na reorganização política que inevitavelmente começa depois da eleição”, avalia.
Sobre a possibilidade de alteração do quadro apontado pelas pesquisas de intenção de voto em razão do desempenho no debate, Pedro Célio ressalta que um eventual erro de Flávio dificilmente terá força para alterar a disputa a poucos dias do primeiro turno. “Só no caso de o Flávio cometer uma grande besteira. Mesmo assim, não creio que seria suficiente para operar migração de votos suficiente a um dos pretendentes”, afirma.
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