quarta-feira, 30 de setembro de 2026
PRAGA

Mudas e ferramentas de poda podem levar pragas a viticultoras de Goiás

Doença foi confirmada em junho no DF, e Goiás, que tem 410 hectares de uva, monitora para evitar a entrada da bactéria

Gabriel Diaspor em
Mudas e ferramentas de poda podem levar pragas a viticultoras de Goiás
Goiás encerrou 2025 com 12 vinícolas registradas, alta de 9,1% sobre 2024. (Foto: Reprodução/Facebook)

A Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) reforçou a vigilância sanitária sobre os vinhedos de Goiás após a confirmação, em junho deste ano, do primeiro caso de cancro bacteriano da videira no Distrito Federal. A doença pode reduzir a produtividade e a qualidade das uvas e preocupa o setor. Goiás tem 116 produtores de uva, 410 hectares cultivados e presença da cultura em 55 municípios, segundo dados da própria Agrodefesa.

Segundo Marcos Gomes da Cunha, professor da Escola de Agronomia da UFG e especialista em fitopatologia, a ampliação da área cultivada e o plantio contínuo favorecem o surgimento de novas doenças em qualquer agroecossistema. Uma das principais vias de entrada é o transporte de mudas e sementes. “O homem é um excelente vetor. Muitas pessoas desconhecem que não se pode transportar material vegetal sem autorização, especialmente mudas e sementes”, afirma.

O cancro bacteriano é causado pela bactéria Xanthomonas citri pv. viticola. A Secretaria de Agricultura do Distrito Federal (Seagri-DF) confirmou a primeira ocorrência em uma propriedade rural do Programa de Assentamento Dirigido (PAD-DF), no Paranoá, com laudo do Laboratório Federal de Defesa Agropecuária em Goiás (LFDA/GO).

Em julho, a secretaria informou que os casos eram dois, o segundo em Brazlândia. A Seagri-DF e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) delimitam a área afetada e investigam a origem da bactéria. A Agrodefesa atua com o Distrito Federal, com base em um acordo de cooperação entre os dois governos, para erradicar e conter o foco.

Produção de uva e vinho cresce em Goiás

Segundo o Anuário do Vinho 2026, primeira publicação do Mapa dedicada à cadeia do vinho, Goiás encerrou 2025 com 12 vinícolas registradas, alta de 9,1% sobre 2024. No mesmo período, o número de vinícolas no país subiu 1,9%, de 948 para 965. Goiás concentra 70,6% das 17 vinícolas do Centro-Oeste e foi o único estado da região com aumento. O estado também tem 161 vinhos registrados no Mapa, o sétimo maior número do país.

No campo, as áreas de cultivo estão principalmente nas regiões Sul, Sudoeste, Centro e Noroeste do estado, em municípios como Goiatuba, Santa Helena de Goiás, Anápolis, Aragoiânia, Bela Vista de Goiás, Hidrolândia e Itaberaí. A uva de mesa ainda predomina sobre a destinada a vinhos e sucos.

A expansão em Goiás está associada aos chamados vinhos de inverno. O sistema usa duas podas por ano para deslocar a colheita para o período entre junho e agosto e é adotado em vinhedos de altitude, entre 600 e 1.200 metros. A Embrapa Uva e Vinho identifica essa produção como uma terceira macrorregião vitivinícola do Brasil.

O Centro de Análises e Pesquisa da Vitivinicultura Brasileira, primeiro laboratório do tipo no Centro-Oeste, foi inaugurado em março, com investimento superior a R$ 12 milhões. O centro realiza análises físico-químicas e cromatográficas, acompanha a maturação das uvas e avalia a segurança dos produtos. Entre as vinícolas que podem ser atendidas estão Casa Moura, de Nazário, Quartetto, de Águas Lindas de Goiás, e Serra das Galés, de Paraúna, associadas à Associação Nacional dos Produtores de Vinho de Inverno (Anprovin).

Como a doença se espalha

Marcos Cunha cita um caso clássico na própria videira. Variedades selvagens americanas, usadas como porta-enxerto, foram levadas para a Europa e trouxeram junto o míldio, que quase acabou com a indústria vinícola da França e passou a ser controlado com fungicidas.

Sobre o cancro bacteriano, o professor diz que a doença está mais concentrada no Nordeste e em Roraima. Depois que a bactéria entra em uma plantação, a chuva pode levá-la de uma planta a outra, porque ela se instala no interior da planta. A poda também transmite a doença. “Você vai podando e a tesoura fica contaminada com a bactéria. Você leva para outra planta”, explica. A bactéria só entra na planta por ferimentos ou aberturas naturais, e o corte da poda cria o ferimento pelo qual ela penetra.

A Agrodefesa também acompanha outras doenças em culturas em expansão. O greening, principal doença dos citros, já foi registrado em Goiás, e a agência monitora a vassoura-de-bruxa da mandioca, concentrada na Região Norte.

No âmbito nacional, o Mapa colocou em consulta pública, pela Portaria SDA nº 1.620, de 8 de maio de 2026, a proposta do Programa Nacional de Prevenção e Controle do Cancro Bacteriano da Videira, que prevê estratégias diferentes conforme a situação fitossanitária de cada unidade da Federação. A Seagri-DF orienta os produtores a comprar mudas apenas de viveiros certificados, não compartilhar equipamentos entre propriedades e desinfetar as ferramentas de poda com solução de hipoclorito de sódio a 10%. (Especial O HOJE)

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