Doze anos após prisão, caso do serial killer de Goiânia ainda revela bastidores da investigação
Detido em 14 de outubro de 2014, Tiago Henrique Gomes da Rocha foi alvo de uma força-tarefa com cerca de 200 policiais
Doze anos após a prisão de Tiago Henrique Gomes da Rocha, conhecido como o serial killer de Goiânia, os bastidores da investigação e dos julgamentos ajudam a dimensionar um dos casos criminais de maior repercussão na história recente da capital. Os assassinatos atribuídos ao detento ocorreram entre 2011 e 2014 e tiveram como vítimas mulheres jovens, pessoas em situação de rua, homossexuais e profissionais do sexo.
A sequência de mortes provocou medo entre moradores e mobilizou a Polícia Civil, que precisou relacionar ocorrências inicialmente investigadas de forma separada. Entre as vítimas estava Ana Lídia Gomes, de 14 anos, morta em 2 de agosto de 2014 enquanto esperava um ônibus no Setor Cidade Jardim.
Tiago foi preso em 14 de outubro de 2014, após uma força-tarefa que reuniu cerca de 200 policiais. A localização do suspeito ocorreu durante uma operação em que um agente precisou retornar à Secretaria de Segurança Pública para buscar a carteira que havia esquecido. No caminho, ele avistou uma motocicleta com características semelhantes às procuradas pelos investigadores. A abordagem levou à detenção do então vigilante, que posteriormente confessou dezenas de assassinatos.
Ao longo dos anos, ele respondeu a diversos processos e foi condenado em julgamentos separados. Doze anos depois, os relatos de integrantes da investigação e do Judiciário ajudam a reconstruir como as pistas foram reunidas e como as provas sustentaram as condenações.
Multas de trânsito ajudaram a localizar suspeito
Em entrevista ao O HOJE, o delegado Douglas Pedrosa, que participou da força-tarefa, relatou que a investigação avançou quando os policiais começaram a relacionar características semelhantes nos crimes e concentraram esforços na identificação de um homem que circulava em uma motocicleta. A equipe analisou imagens de câmeras de segurança e procurou registros que pudessem revelar a placa ou outras características do veículo.
Uma das frentes de apuração foi a análise de fotografias vinculadas a multas de trânsito. Segundo Pedrosa, os investigadores solicitaram acesso a mais de 100 mil imagens de motocicletas registradas em Goiânia. A equipe também examinou cerca de 150 mil registros de multas de fora da capital e da Região Metropolitana, na tentativa de encontrar imagens úteis para identificar o suspeito.
A ideia de consultar esses registros surgiu depois que Pedrosa recebeu uma multa acompanhada de uma fotografia de seu próprio carro. Ele percebeu que os equipamentos de fiscalização poderiam ter registrado a motocicleta usada nos crimes. A partir disso, os policiais passaram a buscar imagens que permitissem comparar o veículo e identificar possíveis características do condutor.
A operação de prisão foi preparada com a distribuição de aproximadamente 200 agentes por diferentes pontos da cidade. Cerca de três horas após o início da mobilização, um policial avistou uma motocicleta semelhante à procurada na Avenida Castelo Branco. O agente havia retornado à Secretaria de Segurança Pública porque esquecera a carteira. O encontro levou à abordagem de Tiago, que foi conduzido à unidade policial.
Juiz presidiu 20 dos 32 julgamentos
A prisão foi apenas uma etapa do caso. A Justiça precisou analisar diferentes processos e verificar as provas relacionadas a cada homicídio. O juiz Jesseir Coelho de Alcântara, que presidiu 20 dos 32 julgamentos de Tiago, afirmou ao O HOJE que um dos principais desafios foi cumprir a agenda de júris designados para o réu.
“Os principais desafios foram cumprir todos os julgamentos designados para Tiago Henrique Gomes da Rocha. Eu presidi 20, no total de 32”, relatou.
Segundo o magistrado, o trabalho realizado pela Polícia Civil foi fundamental para sustentar as acusações. Ele destacou a condução dos inquéritos e a reunião de provas que, posteriormente, foram apresentadas aos jurados durante os julgamentos.
“A Polícia Civil fez um trabalho muito bom na condução dos inquéritos e na investigação de todos os casos. As provas apresentadas foram muito importantes para que houvesse o convencimento dos jurados, a partir da manifestação do Ministério Público”, afirmou Jesseir.
O juiz também avaliou que as semelhanças na forma de agir contribuíram para relacionar os crimes ao mesmo autor. Conforme o relato, a maneira como as vítimas eram atacadas e algumas características identificadas durante a apuração ajudaram a orientar os investigadores. Apesar disso, cada processo precisava apresentar elementos que comprovassem a participação do acusado no crime analisado.
Condenações do serial killer somam 619 anos

Foto: Reprodução
De acordo com Jesseir, as penas impostas a Tiago somam 619 anos de prisão, considerando os diferentes processos. O magistrado afirmou que o condenado permanece sob custódia e explicou que, à época dos crimes, a legislação estabelecia em 30 anos o limite máximo de cumprimento de pena privativa de liberdade.
A soma das condenações, portanto, não corresponde automaticamente ao tempo efetivo de prisão. A execução penal depende das regras aplicáveis ao período dos crimes e da situação jurídica do condenado. A previsão de cumprimento até 2044 deve ser confirmada com as autoridades responsáveis pela execução penal antes da publicação.
Ao avaliar o legado do caso, Jesseir destacou a importância de uma investigação detalhada e da realização dos julgamentos. Para ele, o processo demonstrou como a apuração policial e a resposta judicial são fundamentais diante de crimes praticados em série.
“A grande lição que foi deixada foi o trabalho meticuloso de investigação por parte da Polícia Civil e o julgamento rápido de Tiago nesses crimes em série praticados aqui em Goiânia”, afirmou. Segundo o juiz, a investigação bem conduzida e a análise das provas permitem que a sociedade receba uma resposta da Justiça.
Pressão marcou trabalho policial
Além da análise técnica das ocorrências, a investigação foi marcada pela pressão enfrentada pelos policiais diante da sequência de assassinatos. Pedrosa contou que, quando a equipe percebeu a possibilidade de um único autor por trás de diferentes mortes, aumentou a cobrança por resultados. O delegado relatou que a rotina intensa afetou sua vida pessoal e que chegou a ganhar peso durante o período, em razão da alimentação desregulada e das longas jornadas de trabalho.
Segundo ele, a equipe também mantinha contato frequente com familiares das vítimas, especialmente os parentes de Ana Lídia, para compartilhar informações sobre o andamento das apurações. O trabalho envolveu análise de imagens, cruzamento de registros, verificação de relatos e acompanhamento de diferentes inquéritos.
Leia mais:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.