Agroindústria de Goiás encolhe 6,6% com gargalos logísticos e de crédito
Com retração no processamento de matéria-prima e queda no setor de insumos, indústria aponta déficit histórico de energia e crédito como travas
A industrialização da produção rural em Goiás enfrenta desafios logísticos, energéticos e tributários que limitam a capacidade do Estado de agregar valor à sua própria matéria-prima. Um levantamento divulgado pelo Instituto Mauro Borges de Pesquisa e Política Econômica (IMB) expôs um descompasso estrutural na economia goiana.
Embora a riqueza total gerada pelo agronegócio tenha atingido a marca histórica de R$ 135,6 bilhões em 2023, o parque agroindustrial local registrou uma retração de 6,6% em seu volume de produção no último ano da série histórica analisada. A etapa industrial passou de 18,8% de representatividade para 16,8%, gerando R$ 20,8 bilhões em valor adicionado em 2023.
A redução também atingiu os agrosserviços, que englobam as operações essenciais de transporte, processamento primário, armazenamento e comercialização da safra. Esse grupo perdeu 4,7 pontos percentuais de espaço na cadeia produtiva ao longo da última década. Os números indicam que a infraestrutura logística não acompanhou o mesmo ritmo de expansão contínua registrado nas lavouras e pastagens, que hoje representam 41,1% do valor do setor.
Na base da cadeia produtiva, o cenário é de alta dependência externa. O segmento produtor de insumos, focado em fertilizantes e defensivos, acumulou recuos severos de 14,5% em 2022 e 13,1% em 2023, representando apenas 3,7% de todo o valor adicionado.
Industrialização
O presidente do Conselho Temático da Agroindústria da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Marduk Duarte, aponta que o Estado enfrentou um déficit de atratividade para grandes plantas industriais. Segundo o presidente do conselho, o acesso ao crédito atua como um dos principais limitadores. As taxas e as condições do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) aplicadas ao produtor rural são diferentes e mais vantajosas do que aquelas exigidas da indústria, inibindo investimentos de alto custo, como a construção de grandes armazéns privados.
A falta de infraestrutura básica também forma um gargalo crítico para a atração de novas fábricas. “Tivemos, nos últimos 10 anos, operadoras que não entregaram a demanda energética necessária para a atração de grandes indústrias aqui para o Estado”, avalia Duarte.
O representante da Fieg ressalta que esse déficit funcionou como uma trava histórica, agravada pelos custos de escoamento. “O transporte é um gargalo, é um frete muito caro. A gente realmente está na região central, mas o deslocamento é muito alto”, explica.
Política estadual
A necessidade de uma política estadual de atração agroindustrial ganha novos contornos com a aprovação da reforma tributária nacional. Com a transição para o novo modelo de impostos sobre o consumo, os tradicionais benefícios fiscais concedidos por Goiás praticamente deixarão de existir. Isso ameaça, segundo Marduk Duarte, a permanência de fábricas de outros segmentos, como o setor automobilístico, que poderão optar por migrar para os grandes centros consumidores, como São Paulo e Rio de Janeiro.
“O nosso agro continua aqui, o grão não vai embora, o gado não vai embora, a floresta não vai embora. Nós precisamos entender isso e trazer essas indústrias para cá, aumentar a nossa bacia leiteira, aumentar a produtividade de grãos e aumentar a área de floresta plantada”, ressalta o presidente do conselho temático.
Apesar dos obstáculos vigentes, o setor produtivo projeta uma virada impulsionada por novas frentes sustentáveis, como o etanol de milho e a silvicultura. O governo estadual lançou recentemente o Plano Diretor Florestal, visando suprir a falta de biomassa no Estado e atrair indústrias de celulose, espelhando o modelo de sucesso do vizinho Mato Grosso do Sul.
“O etanol de milho, que hoje é uma tendência nacional, já está começando a se tornar realidade aqui no Estado. Esse tipo de ação é muito importante do governo, encampar esses projetos a médio e longo prazo para trazer e industrializar o nosso agro”, destaca Duarte.
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