sexta-feira, 16 de outubro de 2026
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Setor Leste Vila Nova preserva a memória operária de Goiânia

Formado a partir da ocupação de trabalhadores na década de 1930, bairro reúne histórias de luta por moradia, mobilização popular

Anna Salgadopor em
leste vila nova
Foto: Divulgação/Prefeitura de Goiânia

O Setor Leste Vila Nova começou a se formar na década de 1930, quando trabalhadores envolvidos na construção de Goiânia ocuparam áreas a leste do Córrego Botafogo, fora do perímetro previsto para a expansão imediata da Capital. Inicialmente, as famílias construíam moradias improvisadas para escapar da fiscalização e das demolições. A ocupação antecedeu a regularização do bairro, formalmente aprovado em 1945 e incorporado à Planta Geral de Urbanização de Goiânia em 1947.

A formação do bairro ocorreu em meio às dificuldades de acesso à moradia e aos conflitos entre os moradores e o poder público. Para evitar a fiscalização, que determinava a demolição de construções consideradas irregulares ou antiestéticas, as famílias erguiam barracões durante a madrugada. As habitações eram feitas de barro, paus roliços e outros materiais disponíveis, com a participação de moradores em mutirões que envolviam até crianças no transporte de água.

A ocupação ganhou força com a chegada de trabalhadores e migrantes que não tinham condições de comprar terrenos nas áreas formalmente loteadas. Embora o Setor Leste fosse considerado uma reserva para a expansão futura da Capital, o crescimento populacional levou à consolidação da comunidade antes do previsto no planejamento urbano.

Ocupação e regularização

No projeto urbanístico original de Attílio Corrêa Lima e nas reformulações de Armando de Godoy, a região a leste do Córrego Botafogo não estava destinada à ocupação imediata. A área seria utilizada em uma etapa posterior, caso Goiânia ultrapassasse 50 mil habitantes. A expansão, porém, foi impulsionada pelos fluxos migratórios e pela necessidade de moradia dos trabalhadores.

Em 1939, diante do número crescente de famílias residentes na região, o interventor Pedro Ludovico Teixeira determinou a elaboração de um projeto para urbanizar e regularizar a área entre a Avenida Anhanguera e a Rua 67. O Setor Leste foi formalmente aprovado pelo Decreto-Lei nº 73, de 31 de julho de 1945. Em 1947, passou a integrar a Planta Geral de Urbanização de Goiânia.

No mesmo período, a Lei Estadual nº 39, de dezembro de 1947, autorizou a desapropriação dos terrenos e estabeleceu a preferência dos moradores pioneiros na concessão de títulos de propriedade.

A arquiteta e pesquisadora Adriana Mara Vaz de Oliveira, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), analisa a formação do bairro a partir da relação entre a estrutura urbana e as experiências de seus moradores.

“Uma história de bairro apresenta grande variação de nuances. Se por um lado pode-se construí-la a partir de sua evolução física, por outro, essa materialidade só se completa pela visualização de sua textura social”, explica Adriana.

A pesquisadora afirma que o estudo da Vila Nova permite compreender as memórias e as práticas cotidianas de uma comunidade que construiu o próprio espaço de moradia. “Na Vila Nova, os moradores construíram seu próprio lugar de vida; suas lutas e enfrentamentos estão inscritos no chão da capital de Goiás”, diz.

As dificuldades de acesso à infraestrutura e à moradia também foram registradas pela imprensa. Em 1945, jornais denunciavam que moradores estavam proibidos pela Secretaria de Economia de abrir cisternas ou reformar paredes danificadas, deixando crianças expostas ao frio.

 

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Foto: Reprodução/Facebook

Da origem operária ao futebol: a história do bairro Vila Nova

A formalização da Vila Nova foi acompanhada pela definição de um traçado urbano próprio. A arquiteta e urbanista Elane Ribeiro Peixoto, professora da Universidade de Brasília (UnB), explica que o bairro se organiza a partir de uma praça central, de onde partem oito vias estruturantes até os limites da região, formando quadras ortogonais.

Segundo a pesquisadora, o planejamento priorizou lotes modestos para trabalhadores e reservou poucas áreas institucionais. A denominação “vila” também se relaciona à identidade operária do bairro e à tradição de moradias destinadas à classe trabalhadora.

A urbanização ocorreu em meio a dificuldades de infraestrutura. No início, caminhões-pipa eram utilizados para amenizar a poeira das ruas. Em 1948, cerca de 400 lotes foram destinados à Fundação da Casa Popular (FCP), dando origem às moradias conhecidas como “casas do Getúlio”.

A urbanista Sandra Catharinne Pantaleão, professora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e da Universidade Estadual de Goiás (UEG), destaca que a formação de Goiânia envolveu outros sujeitos sociais além do planejamento oficial.

De acordo com a pesquisadora, o mapeamento dos bairros aprovados a partir de 1947 mostra que a Vila Nova e o Setor Universitário ocuparam áreas pertencentes ao Estado e remanescentes da Fazenda Botafogo. A expansão contribuiu para estruturar o eixo leste-oeste da Capital, acompanhando a Avenida Anhanguera.

Sandra também ressalta que a ocupação no leste ocorreu antes do previsto no planejamento inicial. Segundo a pesquisadora, cerca de 80% dos operários pioneiros, muitos migrantes de Correntina e do oeste baiano, estabeleceram-se na Vila Nova.

Mobilização popular e serviços públicos

A organização comunitária marcou a história da Vila Nova. Em 1948, mulheres do bairro realizaram uma passeata contra a carestia e conquistaram a instalação de armazéns municipais de abastecimento.

A Praça Boaventura Moreira de Andrade tornou-se espaço de convivência, com futebol amador, comícios e atividades comunitárias. Nos anos 1950, também abrigou uma família que criava porcos no centro da praça.

O nome homenageia Boaventura Moreira de Andrade, pedreiro, líder comunitário e vereador por cinco mandatos. Conhecido pelo auxílio a moradores vulneráveis, destinava parte dos vencimentos à compra de remédios e ao pagamento de enterros de operários carentes. Também resgatava pessoas que se afogavam no Rio Meia Ponte. Morreu em 1965, atropelado enquanto andava de bicicleta pela 5ª Avenida para buscar remédios destinados a eleitores.

As obras do Instituto de Educação de Goiás (IEG) começaram em 1950. Durante conflitos políticos, o prédio foi ocupado por cerca de 100 famílias, e a instituição foi inaugurada em 1956.

O comércio local também se consolidou com a abertura do Mercado Popular da Vila Nova, entre 1957 e 1958, em uma área pública. Comerciantes tradicionais, como Jonas Mesquita dos Santos, mantêm boxes no espaço. A feira livre da 9ª Avenida também se firmou como ponto de venda de queijos, farinhas e doces.

Futebol e identidade operária

A organização dos trabalhadores e a convivência comunitária contribuíram para a formação do Vila Nova Futebol Clube. A história da equipe remonta à Associação Mariana, criada em 1938 pelo padre José Balestiere. O clube foi formalizado em 1943 por operários e pelo coronel Francisco Ferraz de Lima, com a bênção de Dona Gercina Borges.

Conhecido como “Tigrão”, o time também utilizou os nomes Operário e Araguaia. A primeira conquista do Campeonato Goiano ocorreu em 1961, consolidando a presença do clube na história esportiva de Goiás.

A transformação urbana, por outro lado, alterou a relação dos moradores com o entorno. A canalização do Córrego Botafogo modificou a ligação da Vila Nova com o Parque Botafogo. O vale foi convertido em pistas expressas, que passaram a separar a área residencial do espaço verde.

 

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