Sobretaxas dos EUA ao Irã ligam alerta no setor do agro em Goiás
Goiás é o terceiro maior produtor de milho do Brasil e pode sentir impactos diretos com restrições indiretas ao comércio com um dos principais compradores do grão
Na última segunda-feira (12), o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, afirmou que pretende impor sobretaxas aos países que mantêm relações comerciais com o Irã. Pela sinalização do governo norte-americano, nações que realizarem exportações para o país do Oriente Médio poderão ser penalizadas com tarifas adicionais ao negociar com os EUA, medida que amplia o risco de tensões comerciais em escala global.
A iniciativa faz parte de uma estratégia de pressão sobre o governo iraniano, em meio a uma crise política e social que se intensificou desde dezembro do ano passado. Desde então, milhares de pessoas têm ido às ruas em diferentes cidades do Irã para protestar contra o regime liderado pelo aiatolá Ali Khamenei. As manifestações têm sido reprimidas pelas forças de segurança, resultando em um cenário de instabilidade interna e crescente isolamento internacional do país.
Os Estados Unidos já interferiu em outras questões do Irã. Em 2024, o governo americano realizou um ataque ao país, após conflitos entre Israel e Irã. Agora, analisa a possibilidade de conter o programa nuclear iraniano.
Os protestos pelo país árabe já deixaram mais de 600 mortos e mais de 10 mil pessoas foram até a última segunda-feira. O governo também cortou a internet do Irã.
Caso as sobretaxas anunciadas pelo governo dos Estados Unidos sejam efetivamente implementadas, o agronegócio brasileiro tende a ser um dos setores mais afetados. O Irã é um dos principais destinos das exportações brasileiras de grãos, especialmente milho e soja, segundo dados do Comexstat, sistema do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
A imposição de barreiras indiretas pode dificultar ou encarecer essas operações, reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros.
Em 2025, a balança comercial entre o Brasil e o Irã apresentou superávit positivo para o Brasil de cerca de US$ 2,8 bilhões, exportando um pouco mais de US$ 2,9 bilhões e importando algo em torno de US$ 84,6 milhões. Os iranianos, são os principais importadores do milho brasileiro, com 23% do produto sendo direcionado para eles, segundo o Comexstat.
Impacto em Goiás
Atualmente, o Estado de Goiás ocupa o terceiro lugar no ranking de maiores produtores de milho do Brasil, com uma produção no valor de R$ 9.833.823, em 2024, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com essas taxações, Goiás e o Brasil perdem um importante parceiro comercial do agronegócio.
A gerente de Inteligência de Mercado da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás (Seapa), Christiane Amorim, explica que o Irã é o terceiro principal parceiro comercial do Estado, correspondendo a 3,5% de participação nas exportações totais do agronegócio. Também sendo o maior comprador do milho de Goiás, com 29,4% de participação nas exportações do setor em 2025.
Além do impacto na exportação, os produtores podem sentir impactos na importação de adubos e fertilizantes. Em 2025, o Brasil importou cerca de US$ 66 milhões de produtos desse grupo, porém o Irã não é o maior exportador de adubos e fertilizantes.
Rússia, China e Canadá ocupam o topo do ranking, respectivamente, com um total de mais de US$ 8 bilhões de importações para o Brasil. Outros produtos importados pelo Brasil do país no Golfo Pérsico são uvas secas, nozes, frutas e pistaches.
Nas relações entre Goiás e os EUA, Amorim informa que os principais setores afetados seriam o comércio de carne bovina, complexo sucroalcooleiro, couro bovino e café. Por isso, em sua visão, é preciso ter cautela nas negociações das taxas e neste momento de instabilidade.
Christiane relata também que a saída para caso essas taxações sejam realizadas será a diversificação dos mercados. “A carne bovina, por exemplo, poderia ser destinada ao México, Chile e Rússia, Países que elevaram o volume de aquisições de Goiás em 2025”, finaliza.
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