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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Eleições 2026

Bolsonarismo vive impasse e tenta fabricar um novo candidato a presidente

Articulação de Michelle Bolsonaro e do governador paulista pela prisão domiciliar do ex-presidente revela tentativa de reorganizar a direita, enfraquecer Flávio Bolsonaro e recolocar Tarcísio como nome viável contra Lula

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 19 de janeiro de 2026
Bolsonarismo vive impasse e tenta de fabricar um novo candidato a presidente
Publicamente, tanto Michelle quanto Tarcísio negam qualquer interesse eleitoral na articulação. Fotos: Reprodução Instagram, João Valério/Governo do Estado de São Paulo e Fabio Rodrigues-Pozzebom/ABr

Bruno Goulart

A ofensiva de aliados do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pela concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ganhou contornos que extrapolam o debate jurídico ou humanitário. Nos bastidores da direita, o gesto é lido como parte de uma estratégia política mais ampla: reabilitar o ex-presidente no convívio público e, ao mesmo tempo, reposicionar o chefe do Palácio dos Bandeirantes como alternativa competitiva na corrida presidencial.

A transferência de Bolsonaro para o batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a chamada Papudinha, foi comemorada por bolsonaristas como um avanço. Embora longe do objetivo final, o regime domiciliar, o movimento sinalizou para esse campo político uma inflexão no tratamento dado ao ex-presidente. Coincidência ou não, ocorreu poucas horas após Michelle Bolsonaro ser recebida pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo relatos de bastidores, a ex-primeira-dama apresentou um memorial detalhado sobre o estado de saúde do marido e adotou um tom considerado cordial e pragmático. A avaliação de ministros é a de que Michelle levou informações relevantes, sobretudo após a queda sofrida por Bolsonaro enquanto estava sob custódia da Polícia Federal. Ainda que Moraes resista à domiciliar, aliados de Tarcísio apostam na possibilidade de pressão interna no STF para uma solução mais branda.

Interesse eleitoral

Nesse contexto, a defesa da prisão domiciliar passa a cumprir uma dupla função política. De um lado, reforça a imagem de Michelle como principal fiadora emocional e política de Bolsonaro. De outro, cria um ambiente favorável para que o ex-presidente seja persuadido a rever a escolha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como seu herdeiro eleitoral e passe a endossar Tarcísio, nome visto com melhores olhos pelo Centrão e pelo mercado financeiro por ser considerado mais competitivo contra o presidente Lula da Silva (PT).

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Publicamente, tanto Michelle quanto Tarcísio negam qualquer interesse eleitoral na articulação. O discurso oficial insiste na preocupação com a saúde debilitada do ex-presidente. Porém, dentro do bolsonarismo, a neutralidade é vista com ceticismo. Parlamentares lembram que Michelle já deu sinais claros de preferência pelo governador paulista, como ao curtir uma postagem da primeira-dama de São Paulo que sugeria Tarcísio como o “novo CEO” do Brasil. A hipótese de uma chapa com Tarcísio na cabeça e Michelle como vice passou a circular com mais força.

A avaliação do sociólogo Celso Rocha de Barros, publicada na Folha de S.Paulo, ajuda a dimensionar o impasse. Segundo Barros, a mais recente pesquisa Quaest indica que a pré-candidatura de Flávio começa a se consolidar entre eleitores de direita, ainda que seus números sejam inferiores aos de Tarcísio. A rejeição à escolha do senador caiu, o que alimenta a esperança de crescimento, mas continua a ser uma aposta considerada arriscada.

Problema central

Para Barros, o problema central é que Tarcísio segue como sombra permanente. Sinais públicos de articulação com Michelle reforçam a percepção de que o governador de São Paulo não abandonou o projeto presidencial. Ao mesmo tempo, Flávio carrega passivos políticos relevantes, como o caso das rachadinhas e sua relação ambígua com o STF, casos que tendem a ganhar centralidade em uma campanha nacional.

No fim das contas, a disputa revela a dificuldade da direita brasileira em se reorganizar desde a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas em 2022. A defesa da prisão domiciliar para o ex-presidente, nesse tabuleiro, funciona menos como ponto de chegada e mais como instrumento de reposicionamento interno. Entre o herdeiro biológico e o herdeiro político, o bolsonarismo segue dividido, à espera de quem conseguirá se apresentar, mais uma vez, como o “moderado” possível diante de um eleitorado ainda marcado pela vitória de Lula há menos de quatro anos. (Especial para O HOJE)

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