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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
atenção à saúde mental

Depressão em idosos segue subdiagnosticada no Brasil

Estudo indica que maioria dos idosos com sintomas depressivos não recebeu diagnóstico médico, expondo falhas na atenção à saúde mental

Luana Avelarpor Luana Avelar em 19 de janeiro de 2026
Depressão
Foto: iStock

Sentimentos persistentes de tristeza, solidão e perda de interesse pela rotina ainda permanecem subdiagnosticados entre idosos no Brasil. Dados analisados por pesquisadores da Unisul e da University College London revelam que, embora 15,9% das pessoas com mais de 60 anos relatem sintomas compatíveis com depressão, apenas 37,3% desse grupo receberam diagnóstico médico formal. Em termos práticos, pouco mais de quatro em cada dez casos são reconhecidos pelos serviços de saúde.

A análise utilizou informações da segunda onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros, que ouviu 6.872 participantes em todo o país entre 2019 e 2021. O levantamento evidencia um descompasso persistente entre o sofrimento emocional percebido pelos próprios idosos e sua validação clínica, lacuna que compromete o acesso ao cuidado adequado e aprofunda impactos sobre a qualidade de vida.

Entre os fatores associados à maior prevalência de depressão estão gênero, escolaridade e estilo de vida. Mulheres apresentam risco mais elevado, assim como pessoas com até oito anos de estudo e indivíduos sedentários. O dado relacionado à escolaridade chama atenção porque idosos com nível intermediário de instrução apresentaram prevalência maior do que aqueles sem escolarização formal, o que sugere frustrações ligadas a expectativas sociais e oportunidades não realizadas ao longo da vida.

A situação conjugal não mostrou relevância estatística, contrariando a ideia de que vínculos matrimoniais funcionariam, por si só, como fator protetivo. O resultado reforça a complexidade do adoecimento psíquico na velhice e indica que a presença de pessoas ao redor nem sempre se traduz em escuta, afeto ou pertencimento.

Os dados também apontam para uma tendência recorrente de naturalização do sofrimento emocional nessa faixa etária. Sintomas como fadiga constante, irritabilidade, alterações de memória e desânimo são frequentemente interpretados como efeitos inevitáveis do envelhecimento, o que contribui para a invisibilidade da depressão e para a demora na busca por ajuda especializada.

A atenção primária à saúde surge como espaço decisivo para enfrentar esse cenário, já que idosos tendem a relatar com mais facilidade dores físicas do que angústias emocionais. A combinação entre escuta qualificada, acompanhamento contínuo e instrumentos objetivos de avaliação é apontada como caminho para reduzir o subdiagnóstico e ampliar o cuidado integral.

Para além da esfera médica, o estudo traz um problema social mais amplo. O isolamento progressivo, a perda de redes de convivência e a sensação de inutilidade após a aposentadoria ou a viuvez ampliam o risco de sofrimento psíquico. Em um cotidiano marcado pela repetição e pela ausência de estímulos, a vida pode se tornar silenciosa e monótona, enquanto o entorno segue em ritmo acelerado.

Nesse contexto, a presença ativa de familiares, amigos e da comunidade assume papel central. Conversar, convidar para atividades fora de casa, incluir o idoso em programas culturais ou encontros informais são atitudes que ajudam a romper a solidão cotidiana. O cuidado emocional passa, necessariamente, pela convivência e pelo reconhecimento.

O acesso à psicoterapia também ganha relevância. Para uma geração que cresceu em um período em que saúde mental era tabu, oferecer espaços de escuta representa não apenas tratamento, mas reparação histórica. Falar sobre perdas, mudanças sociais e transformações tecnológicas permite elaborar sentimentos que, por décadas, permaneceram silenciados.

Em uma sociedade marcada por rápidas mudanças, acolher o envelhecimento com diálogo, presença e cuidado psicológico deixa de ser gesto individual e se afirma como responsabilidade coletiva.

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