Novela do Centro POP revela desprezo da gestão Mabel e expõe pessoas em situação de rua ao abandono
ransferências forçadas, resistência de moradores, pressão empresarial e intervenções policiais passaram a marcar a política municipal para a população em situação de rua
Em janeiro deste ano, um abrigo emergencial destinado à população em situação de rua foi transferido do Setor Aeroporto para o Conjunto Residencial Aruanã 3, após pressão de representantes empresariais. No novo endereço, a recepção foi marcada por hostilidade, com moradores organizando protestos e alegando temor quanto ao aumento da criminalidade e à desvalorização dos imóveis.
Dois dias depois, o grupo atendido foi retirado novamente, em meio à chuva, e encaminhado para comunidades terapêuticas distantes da área urbana, o que interrompeu vínculos e rotinas de atendimento.
A gestão urbana em Goiânia atravessa um período de forte tensão entre a revitalização de espaços públicos e a garantia de direitos da população em situação de rua. Enquanto a prefeitura promove a entrega de praças reformadas e ações de ordenamento, movimentos sociais e especialistas alertam para a consolidação de uma política de viés higienista, que prioriza o deslocamento territorial dessa população em vez de sua integração social efetiva.
Nesse cenário, o Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (Centro POP) tornou‑se um dos principais pontos de disputa simbólica e material na Capital.
O Centro POP, principal equipamento público de assistência social voltado à população em situação de rua em Goiânia, funcionava na Alameda Botafogo, no Centro, e foi posteriormente transferido para a Rua Francisca Costa Cunha, no Setor Aeroporto.
A mudança é apresentada pela gestão municipal como um avanço estrutural e operacional. De acordo com a prefeitura, o novo prédio possui área cerca de cinco vezes maior que a sede anterior e permite a ampliação dos serviços ofertados, como alimentação (café da manhã, almoço e lanche), higiene pessoal, lavanderia, guarda de pertences, emissão de documentos e atendimento psicossocial.
A secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos, Eerizania Freitas, sustenta que o antigo imóvel era inadequado, com acesso restrito por escadas e ausência de espaço apropriado para refeições, o que obrigava usuários a se alimentarem na calçada. Para a gestão, a transferência representaria um passo na direção da chamada “humanização do atendimento”.
Segundo a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos, Eerizania Freitas, as normas que orientam o funcionamento do Centro POP indicam que o serviço deve estar localizado em área central, para facilitar o acesso da população atendida. Ela afirma que, em cidades onde o equipamento é instalado fora do centro, há queda significativa na procura e no acompanhamento dos usuários. A gestora informa ainda que a unidade atende diariamente entre 100 e 120 pessoas, oferecendo orientações, encaminhamento para documentação e acesso a outros serviços socioassistenciais.
A secretária acrescenta que o município mantém casas de acolhida com permanência temporária, abrigos emergenciais em períodos de frio e chuvas, além de programas de qualificação profissional, encaminhamento para vagas de trabalho e fornecimento de passagens para pessoas que desejam retornar ao município de origem. De acordo com ela, as ações fazem parte de um compromisso da gestão de ampliar o atendimento, reduzir a estigmatização e garantir direitos à população em situação de rua.
A instalação do equipamento no Setor Aeroporto, porém, enfrentou resistência imediata de moradores, comerciantes e entidades empresariais, como a Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás (Acieg).
Parte da comunidade local argumenta que o funcionamento do Centro POP pode comprometer a segurança e a rotina de instituições vizinhas, como a Associação dos Idosos do Brasil (AIB), além de impactar a valorização imobiliária da região.
O prefeito Sandro Mabel afirma que sua gestão não adota práticas higienistas, mas uma política de “humanização”, voltada a retirar pessoas das ruas e encaminhá‑las para locais considerados mais adequados. Na prática, contudo, as ações implementadas têm alimentado críticas de movimentos sociais, pesquisadores e entidades de direitos humanos.
Intervenções em áreas centrais, como as praças Joaquim Lúcio e Dr. Carlos de Freitas, resultaram na retirada de pessoas em situação de rua, em alguns casos sem tempo hábil para recolher pertences antes da entrada de equipes de limpeza e maquinário urbano.
Em maio de 2025, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) impediram voluntários do projeto “Banho Solidário” de oferecerem banho, comida e roupas na Praça Joaquim Lúcio. Na ocasião, vereadores da base governista chegaram a sugerir publicamente que quem quisesse ajudar “levasse o morador para casa”.
Paralelamente, o prefeito passou a se referir à GCM como a “polícia de Goiânia” e defendeu a utilização de QR codes em tornozeleiras eletrônicas para monitorar pessoas em situação de rua com pendências judiciais, proposta que gerou reações negativas de juristas e defensores de direitos fundamentais.
Para o Movimento Nacional da População de Rua em Goiás (MNPR‑GO), o conjunto dessas medidas revela uma política simplificadora e excludente, que trata a condição de rua como um problema de paisagem urbana e não como resultado de desigualdades estruturais, rompimentos familiares, desemprego, dependência química e ausência de políticas habitacionais consistentes.
Para a socióloga Camila Nascimento, a transferência do Centro POP revela uma política com forte viés higienista, ainda que apresentada oficialmente como ação de assistência social. Segundo ela, quando a prioridade é retirar pessoas em situação de rua dos espaços centrais, tratando sua presença como incômodo urbano ou problema estético, a política pública passa a operar sob a lógica da chamada “limpeza urbana”, e não da inclusão social.
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Nomadismo urbano de pessoas em situação de rua expõe limites da política de “ordenamento”
A retirada sistemática da população em situação de rua das áreas centrais não eliminou o fenômeno, mas produziu um processo de “nomadismo urbano”. Pessoas que antes ocupavam locais como a Rua 10 ou a Praça Carlos Freitas passaram a circular por regiões mais isoladas e perigosas, incluindo áreas sob pontes da Marginal Botafogo e casarões abandonados — conhecidos popularmente como “mocós”.
Dentro da política municipal de “ordenamento urbano”, a prefeitura promoveu, ao longo de 2025, a demolição de 34 dessas estruturas, sob o argumento de impedir novas ocupações. Paralelamente, o programa “Recomeço” passou a oferecer passagens para que indivíduos retornassem a seus Estados de origem. Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) avaliam que a medida tem efeito limitado. Para eles, o deslocamento territorial não enfrenta as causas da exclusão social e apenas transfere o problema de lugar, sem garantir inserção produtiva, acesso à moradia ou continuidade do acompanhamento psicossocial.
O episódio reforçou a percepção, entre entidades sociais, de que as soluções oferecidas são provisórias, fragmentadas e territorialmente instáveis, incapazes de garantir proteção continuada.
A prefeitura afirma que o número de pessoas em situação de rua em Goiânia caiu de cerca de quatro mil para aproximadamente mil, segundo dados oficiais recentes, informação que tem sido utilizada pela administração municipal para sustentar o discurso de maior eficiência das políticas adotadas na área social e de ordenamento urbano.
No cotidiano, entretanto, relatos de trabalhadores sociais e organizações independentes indicam que parte significativa dessa população apenas se tornou menos visível, adotando rotas móveis e horários alternativos para evitar abordagens policiais e remoções.
Ainda de acordo com a pesquisadora, o chamado “nomadismo urbano” vai além de um simples deslocamento territorial. Ela avalia que o processo amplia vulnerabilidades, enfraquece redes de apoio e redefine simbolicamente quem é considerado legítimo para ocupar as áreas centrais da cidade.
Camila também afirma que, ao serem empurradas para regiões periféricas, essas pessoas passam a ser vistas como “corpos fora do lugar”, sem pertencimento real aos espaços urbanos e sem participação nas decisões sobre o planejamento da cidade. Para ela, cria‑se uma sensação artificial de ordem, que na prática corresponde a um processo de segregação espacial e reprodução contínua da exclusão social.