Responsabilidade dos alagamentos em Goiânia é principalmente da gestão pública, aponta especialista
Arquiteta e Urbanista aponta excesso de impermeabilização do solo como um dos principais fatores dos alagamentos na cidade
Goiânia enfrenta, de forma recorrente, episódios de alagamentos e inundações em diferentes regiões da cidade, problema que se repete ano após ano. Com a chegada do período chuvoso, moradores e autoridades passam a conviver com um cenário de atenção redobrada, diante dos riscos associados aos transtornos no trânsito, aos danos materiais e aos perigos enfrentados por quem precisa circular pelas vias urbanas durante as fortes chuvas.
Nas últimas semanas, a Capital goiana enfrentou chuvas intensas, que provocaram transtornos para diversas pessoas, como uma mulher com sua filha de apenas 6 meses que acabaram ficando presas dentro de um veículo, após o carro em que elas estavam parar de funcionar no Setor Crimeia Leste. Do outro lado da cidade, na região Oeste de Goiânia, cerca de 26 famílias foram atingidas pelo transbordamento do Córrego Anicuns, no Jardim Mirabel.
De acordo com o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), Goiânia registrou um volume acumulado de 338 milímetros de chuva até as 12h da última quinta-feira (22). O acúmulo de chuva evidenciou fragilidades na infraestrutura de drenagem urbana da Capital, especialmente em áreas mais suscetíveis a alagamentos e deslizamentos, reforçando a necessidade de investimentos e ações estruturais para reduzir os impactos causados por eventos climáticos intensos.
Diante desse cenário, é preciso compreender onde o problema tem origem e quais caminhos podem ser adotados para buscar soluções efetivas. No caso específico dos alagamentos, a arquiteta e urbanista Maria Ester aponta que um dos principais fatores está relacionado ao excesso de áreas impermeabilizadas, como cimento, asfalto e construções, justamente em espaços que, naturalmente, serviriam como vias de escoamento da água da chuva até seu destino final.
“Se a gente, nas margens dos nossos córregos, não deixar essa água passar, não deixe a água infiltrar, vai causar um alagamento naquele ponto. Então, você vai observar que os pontos de alagamento são geralmente em áreas planas, em regiões mais baixas da cidade, próxima dos cursos d’água”, destaca.
A especialista continua ao falar sobre a relação do entulho e do lixo com os alagamentos e inundações. “O entulho é uma grande causa de inundação, principalmente se ele estiver em locais onde a água da chuva vai, pela força da gravidade, buscar o seu caminho natural”, explica.
Com isso é possível que pensem que a responsabilidade por alagamentos ou inundações esteja em igual proporção entre a população e a gestão pública, porém, a arquiteta e urbanista esclarece que não é dessa forma que se deve pensar.
“O nosso papel como população, eu penso que tem alguma relevância, mas ela é muito menor em se comparada ao que a própria gestão autoriza ou pelo menos não consegue acompanhar da ocupação desses lugares”, acrescenta. Dessa forma, a responsabilidade da população é menor do que o da prefeitura, por exemplo, já que é uma atribuição da administração municipal autorizar a construção nos espaços públicos, que acaba retirando zonas de infiltração do solo e canaliza toda a chuva para córregos.
Mesmo que a responsabilidade da população seja menor, não pode retirar totalmente o peso das ações. Maria Ester explica que as duas partes precisam ter consciência e realizar ações de prevenção e criar áreas para escoamento. Para ela, as pessoas podem pensar em poço para canalizar a água da chuva dentro dos lotes, utilizando calhas dos telhados.
Por outro lado, as ações de prevenção aos alagamentos tomadas pelas autoridades precisam ser melhor pensadas. Segundo a arquiteta, é fundamental compreender que a água da chuva sempre buscará seu próprio caminho. Ela explica que não basta apenas ampliar áreas gramadas, já que, dependendo do tipo de cobertura vegetal utilizada, o efeito na absorção da água pode ser limitado.
Ao se construir ruas asfaltadas, essas vias acabam funcionando como verdadeiros leitos por onde a água escoa com força, sem respeitar obstáculos. Nesses casos, mesmo áreas permeáveis ou gramadas podem ter pouca eficácia, especialmente quando há grande volume e velocidade das chuvas. Por isso, além de pensar na permeabilidade do solo, é necessário compreender a dinâmica do escoamento: para onde a água vai e por quais caminhos ela percorre durante as chuvas.
A especialista finaliza com algumas possibilidades para amenizar os efeitos da chuva em Goiânia. “Nas calçadas da cidade a gente podia usar um instrumento da microdrenagem, como um jardim de chuva ou um pequeno poço de infiltração, também pode usar árvores para criar essas pequenas bacias, ajudando para que a água fique lá”, pontua.
Além disso, diminuir áreas cimentadas pode diminuir o caos gerado por alagamentos. Na questão do resíduo, Maria Ester entende que não há uma política efetiva, por parte da gestão municipal, para conscientizar a população sobre a importância de não fazer o descarte indevido do entulho e do lixo.
Chuvas podem ultrapassar 150 mm em Goiás e mantêm cidades em alerta

Com o aumento da chuva os problemas e transtornos aumentam, por isso é preciso continuar atento às mudanças esperadas para o tempo nas cidades. De acordo com previsão divulgada pelo Cimehgo, os volumes de chuva no Estado podem ultrapassar os 150 milímetros, com destaque para áreas das regiões Norte, Centro e Sudoeste.
Nesta segunda-feira (22), a Capital goiana contará com variação de sol e nebulosidade com pancadas de chuva. A temperatura máxima pode alcançar os 32°C e a umidade relativa do ar oscila entre 50% e 95%.
Goiânia, localizada na região Central de Goiás, pode registrar acumulados de até 150 mm ao longo da semana, permanecendo sob alerta para chuvas intensas em curto intervalo de tempo. Nas regiões Sul e Leste do Estado, a expectativa é de volumes entre 50 e 100 mm no mesmo período.
Já em áreas do Nordeste goiano, os acumulados devem ficar em torno de 50 mm, o que mantém o Estado em atenção para tempestades, especialmente em zonas urbanas mais vulneráveis a impactos das chuvas.
Segundo o Cimehgo, esse padrão de precipitação está relacionado à combinação de calor elevado com altos índices de umidade, cenário que favorece a formação de núcleos convectivos mais organizados e intensos. Diante dessas condições, não está descartada a ocorrência de tempestades isoladas, com possibilidade de rajadas de vento, descargas elétricas e chuva intensa em curto espaço de tempo.
Com a previsão, a recomendação é que moradores de Goiânia e de outros municípios goianos acompanhem os alertas meteorológicos e adotem medidas preventivas, sobretudo em regiões com histórico de alagamentos, enxurradas e quedas de árvores.
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