Kanye West publica carta de perdão por falas nazistas; “Perdi o contato com a realidade”
Cantor afirma não ser antissemita, diz amar o povo judeu e pede paciência durante processo de tratamento
O cantor e produtor musical Kanye West, que desde 2021 utiliza o nome Ye, divulgou nesta segunda-feira (26) uma carta aberta pedindo desculpas por declarações e atitudes antissemitas feitas nos últimos anos. A retratação foi publicada na contracapa do The Wall Street Journal e ocorre após uma sequência de episódios que provocaram críticas, rompimentos comerciais e restrições em plataformas digitais.
No texto, Ye direciona o pedido de desculpas às pessoas que afirma ter magoado. Além disso, tenta explicar o comportamento adotado em momentos de grande exposição pública. Segundo o artista, explosões verbais, falas extremas e decisões controversas ocorreram em períodos de instabilidade mental. Essas atitudes levaram fãs, críticos e entidades a classificarem suas falas como antissemitas.

Acidente, diagnóstico tardio e transtorno bipolar
Ao longo da declaração, Kanye West relembra um acidente de carro sofrido em 2002, que resultou em fratura na mandíbula e, conforme relata, em uma lesão no lobo frontal direito do cérebro. De acordo com o cantor, à época não foram realizados exames neurológicos aprofundados. O diagnóstico adequado, segundo ele, só ocorreu em 2023.
Ainda na carta, Ye afirma que a ausência de acompanhamento médico contribuiu para o agravamento de sua saúde mental e para o diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1. O artista descreve que episódios de mania afetam diretamente a percepção da realidade. Segundo ele, nesses períodos há negação da doença, sensação de clareza excessiva e perda de controle sobre decisões e comportamentos.

Kanye West também relata que, durante esses episódios, tratou de forma inadequada pessoas próximas e se afastou de sua própria identidade. Ele reconhece o impacto emocional causado a familiares, amigos e comunidades que acompanharam sua trajetória artística e pública.
Leia também: Mara Maravilha quer se candidatar ao Senado pela direita
Polêmicas públicas e pedido direto às comunidades afetadas
O cantor menciona episódios que marcaram negativamente sua carreira. Entre eles, estão declarações elogiando Adolf Hitler, a negação do Holocausto e a divulgação de símbolos nazistas em redes sociais. Essas ações resultaram na suspensão temporária de suas contas digitais e no rompimento de contratos. Em 2025, ele lançou de forma independente uma música com referências ao nazismo, posteriormente banida na Alemanha.
Na carta, Ye afirma que perdeu o contato com a realidade e reconhece o alcance global de suas palavras como figura pública. Ele pede desculpas diretamente à comunidade judaica e declara que não é nazista nem antissemita. Além disso, direciona um pedido de perdão à comunidade negra, que descreve como parte central de sua formação pessoal e artística.

O artista encerra a declaração afirmando que está em tratamento, com acompanhamento médico, terapia e uso de medicação. Segundo ele, o objetivo é retomar o equilíbrio e direcionar sua energia para produções artísticas e projetos que não causem danos. Kanye West afirma que não pede impunidade e solicita apenas paciência durante o processo de reconstrução pessoal.
A seguir, a declaração completa publicada por Kanye West no The Wall Street Journal:
“Àqueles a quem magoei:
Vinte e cinco anos atrás, sofri um acidente de carro que fraturou minha mandíbula e causou uma lesão no lobo frontal direito do meu cérebro. Na época, o foco estava nos danos visíveis — a fratura, o inchaço e o trauma físico imediato. A lesão mais profunda, aquela dentro do meu crânio, passou despercebida.
Não foram realizados exames abrangentes, os exames neurológicos foram limitados e a possibilidade de uma lesão no lobo frontal nunca foi levantada. O diagnóstico correto só veio em 2023. Essa negligência médica causou sérios danos à minha saúde mental e levou ao meu diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1.
O transtorno bipolar vem com seu próprio sistema de defesa: a negação. Quando você está em mania, não acha que está doente. Acha que todos os outros estão exagerando. Sente que está enxergando o mundo com mais clareza do que nunca, quando na realidade está perdendo completamente o controle da situação.
Quando as pessoas te rotulam de “louco”, você sente como se não pudesse contribuir com nada de significativo para o mundo. É fácil para as pessoas fazerem piadas e rirem disso, quando na verdade esta é uma doença debilitante muito séria que pode ser fatal. De acordo com a Organização Mundial da Saúde e a Universidade de Cambridge, pessoas com transtorno bipolar têm uma expectativa de vida reduzida em dez a quinze anos, em média, e uma taxa de mortalidade por todas as causas de duas a três vezes maior do que a população em geral.
O mais assustador nesse transtorno é o quão persuasivo ele é quando diz: você não precisa de ajuda. Ele te cega, mas te convence de que você tem discernimento. Você se sente poderoso, seguro de si, imparável.
Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais eu ignorava o problema. Disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Tratei algumas das pessoas que mais amo da pior maneira possível. Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e a exaustão de tentar conviver com alguém que, às vezes, era irreconhecível. Olhando para trás, percebo que me distanciei de mim mesmo.
Naquele estado de choque, me vi atraído pelo símbolo mais destrutivo que consegui encontrar, a suástica, e cheguei a vender camisetas com ela estampada. Me arrependo profundamente e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações naquele estado. Não sou nazista nem antissemita. Amo o povo judeu.
À comunidade negra, que me apoiou nos momentos bons e ruins, sinto muito por tê-los decepcionado. Amo vocês.
No início de 2025, entrei em um episódio maníaco de quatro meses, caracterizado por comportamento psicótico, paranoico e impulsivo, que destruiu minha vida. Chegando ao fundo do poço, minha esposa me incentivou a buscar ajuda.
Hoje, com tratamento adequado, terapia e acompanhamento médico, busco reconstruir minha vida e direcionar minha energia para trabalhos positivos e significativos. Não peço impunidade. Peço paciência e compreensão enquanto encontro o caminho de volta.
Com amor,
Vós.”