Alice Lanes relata no Manda Vê anos iniciais na música
Entrevista reúne relatos sobre formação musical e adaptação em Goiânia
Aos 18 anos, Alice Lanes fala com uma serenidade que contrasta com a idade. Convidada do podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse e com participação de Isadora Carvalho como co-host, a cantora e compositora revisitou episódios centrais de sua vida, marcados por decisões precoces, deslocamentos geográficos e uma relação direta com o trabalho autoral.
Criada em uma casa onde o sertanejo fazia parte da rotina, Alice começou a cantar aos seis anos. Ainda criança, imitava artistas, inventava letras e simulava cantar em outros idiomas. O interesse não vinha de metas profissionais, mas da convivência com a música. Aos sete anos, iniciou aulas de canto. Aos dez, escreveu a primeira composição. A escrita passou a funcionar como forma de organizar sentimentos e observações, algo que ela mantém até hoje.
Em 2021, aos 14 anos, gravou o primeiro projeto profissional. A proposta inicial era registrar uma única música, mas o processo se estendeu e resultou no EP Ao Vivo em Goiânia, com sete faixas autorais. O trabalho teve produção de Blener Maycom e contou com participações de Naiara Azevedo em duas canções. Para isso, Alice passou cerca de três meses em Goiânia, frequentando estúdios, ensaiando repertório e ajustando o que queria comunicar em letra e interpretação. Segundo ela, foi um período de aprendizado intenso, marcado por tentativa, erro e escuta.
Durante o podcast, a cantora relembrou também momentos de frustração. A participação na seletiva do The Voice Kids terminou com uma resposta negativa que demorou meses para chegar. A espera prolongada e o resultado desfavorável tiveram efeito direto sobre sua relação com o canto. Alice contou que ficou um longo período sem cantar, desanimada, até decidir que precisava redefinir o caminho. O retorno veio quando optou por defender canções autorais e encontrou um produtor disposto a construir esse projeto junto com ela.
A música “Lei da Atração”, escolhida como faixa de trabalho, marcou esse momento. A canção ampliou sua visibilidade e apresentou uma artista que alterna temas sentimentais com faixas de andamento mais direto, pensadas para o palco. O repertório evita fórmulas fáceis e aposta em escolhas alinhadas ao que a cantora acredita ser possível sustentar ao vivo.
Em 2022, aos 15 anos, Alice tomou uma decisão que mudou sua rotina. Deixou São José do Rio Preto e se mudou para Goiânia com o objetivo de viver de música. A permanência na cidade começou de forma provisória, com revezamento de familiares. Com o tempo, passou a ficar sozinha. A rotina se dividia entre escola pela manhã e estúdio à tarde. A adaptação não foi simples. A saudade da família, o isolamento e a necessidade de autonomia marcaram o período inicial.
No podcast, Alice contou que muitas vezes saía mais cedo da escola para chorar sozinha, sem dividir as dificuldades com os pais, por receio de ser convencida a voltar. Ainda assim, insistiu. O cotidiano passou a ser feito de deslocamentos, horários rígidos e longas tardes de gravação. A música deixou de ser apenas desejo e passou a ocupar o espaço de obrigação diária.
Foi nesse contexto que conheceu Isadora Carvalho. A aproximação começou após um episódio de acolhimento no colégio, quando colegas perceberam sua tristeza e decidiram se aproximar. A amizade se consolidou fora da sala de aula e se estendeu a eventos, apresentações e à vida cultural da cidade.
Ao longo da conversa, a cantora falou também sobre suas referências musicais. Disse ouvir estilos variados, com exceção do rock, e afirmou estudar diferentes canções como forma de ampliar repertório e linguagem. Para ela, compor exige método, observação e escuta constante. A criação, segundo explicou, não surge apenas da inspiração, mas do contato diário com músicas, histórias e experiências.
No encerramento do episódio, Alice apresentou o que chama de “teoria do sol”. A metáfora parte da ideia de que, todos os dias, o sol nasce novamente, oferecendo a chance de tentar outra vez. A cantora falou sobre gratidão, propósito e a importância da gentileza, mesmo diante de falhas e frustrações. A mensagem final foi direta e sem ornamentos: não desistir.
No Manda Vê, Alice evita discursos grandiosos e promessas fáceis. O que se ouve é um relato ancorado em escolhas concretas, rotina de trabalho e permanência. Goiânia aparece menos como símbolo e mais como espaço prático, onde estudo, estúdio e vida cotidiana se misturam. A música surge como ofício, sustentado por repetição, disciplina e paciência.
O conteúdo completo da conversa está disponível no YouTube, no canal do podcast Manda Vê.
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