Indústria volta a derrapar e avança apenas 0,6% em 2025
Nos últimos quatro meses do ano passado, a produção industrial andou para trás, acumulando perdas de 1,9% na comparação entre dezembro e agosto já descontados fatores e eventos sazonais, que se repetem na mesma época todos os anos. Nessa sequência mensal, a indústria apresentou recuo de 0,5% na saída de agosto para setembro, enfrentou estagnação momentânea em outubro, com literalmente zero de crescimento, seguida de baixas de 0,2% e de 1,2% em novembro e dezembro. A redução observada no último mês de 2025 foi a mais intensa desde julho de 2024, quando a produção havia sofrido queda de 1,5% em relação a junho, segundo anota o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Não se trata de uma tendência recente, como mostram as séries de estatísticas dessazonalizadas do instituto, que permitem mostrar a evolução do setor mês a mês. Ao longo dos últimos 24 meses, a indústria não cresceu ou apresentou queda nos volumes produzidos em 17 deles, variando positivamente em apenas sete meses. Na comparação com igual período de 2024, a produção vinha relativamente bem até março, com altas de 1,3% em janeiro, de 1,2% em fevereiro e de 3,5% em março, acumulando variação de 2,0% na comparação entre o primeiro trimestre do ano passado e os mesmos três meses de 2024.
Nos nove meses seguintes, o desempenho foi positivo em maio, com alta de 3,4%, em julho, numa variação modesta da 0,3%, em setembro, num avanço de 2,0% e finalmente 0,4% em dezembro, depois de dois meses de perdas. O resultado de dezembro não chegou propriamente a compensar os números mais negativos registrados em novembro e outubro, já que a produção havia recuado, respectivamente, 0,5% e 1,4% diante dos mesmos meses de 2024. Nessa “virada”, a indústria encerrou o ano no vermelho, com redução de 0,5% no quarto trimestre, o que ajudou a derrubar a taxa de crescimento nos 12 meses de 2025 para 0,6% quando comparada à alta de 3,1% acumulada em 2024, “quando, pela primeira vez na última década, houve uma alta com certo vigor sem ajuda de uma base de comparação muito deprimida”, conforme anota o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
Ambiente hostil
A perda de fôlego reflete em grande medida um ambiente macroeconômico hostil gerado pela política desvairada de juros altos e, em alguma medida, pela queda do dólar, que barateou as importações de bens industriais. No ano passado, as compras externas realizadas pela indústria de transformação foram recordes desde que a estatística começou a ser medida, atingindo US$ 259,799 bilhões, num incremento de 8,64% em relação a 2024, com altas de 3,80% em volume e de 4,67% nos preços médios em dólar. Pouco menos de um quarto daquela variação veio do aumento das importações de plataformas de petróleo, mas uma fatia importante deveu-se a maiores compras de caldeiras, máquinas e aparelhos mecânicos, com destaque para turbinas a gás. De toda forma, o impulso assegurado pelo aumento do emprego para níveis históricos, queda igualmente recorde do desemprego e crescimento da renda das famílias não foi suficiente para movimentar a produção industrial.
Balanço
- O freio no último trimestre de 2025 deveu-se principalmente às quedas de 5,0% na produção de bens de capital e de 3,0% no segmento de bens duráveis e ao recuo de 0,7% na indústria de bens intermediários. No primeiro setor, a pesquisa do IBGE identificou baixas de 12,9% e de 5,8% na produção de bens de capital para os setores de transporte e de energia, seguindo a mesma ordem.
- Para comparar, no primeiro trimestre do ano passado, a produção de bens de capital havia avançado 4,5%, apresentando ganhos de 12,3% na fabricação de máquinas para o setor agrícola, de 8,6% no segmento de bens de capital voltado para a indústria e de 10,6% na indústria associada à área da construção. No quarto trimestre, foram anotados recuos de 0,2% e de 1,8% no total de bens de capital destinado à indústria em geral e à construção, enquanto a taxa de crescimento no setor agrícola baixou para 7,2%.
- Na indústria de bens duráveis, a produção de automóveis caiu 2,9%, com queda de 1,8% para a produção de eletrodomésticos e tombo de 7,9% na produção de móveis. A produção de bens intermediários foi influenciada negativamente pelo tombo de 8,6% na produção de derivados de petróleo e de 11,4% na produção de defensivos para a agricultura. Além disso, houve baixas de 4,3% na produção de insumos para a construção civil e de 3,3% na entrega de insumos para montadoras de automóveis.
- “Embora esta inflexão já seja decepcionante para um setor que está 13% abaixo do nível de produção de 2013 (isto é, antes da crise 2014-2016), não resume todas as más notícias”, comenta o Iedi. Entre outros motivos porque a variação já modesta de 0,6% foi impulsionada quase inteiramente pela indústria extrativa, que cresceu 4,9% nos 12 meses do ano passado, sob influência da produção de petróleo bruto e gás natural.
- A indústria de transformação, ao contrário, encerrou o ano com recuo de 0,2% na comparação com 2024, quando havia acumulado ganho de 3,7% diante de 2023.
- Adicionalmente, o Iedi lembra ainda que o “desempenho total do ano esconde uma trajetória de rápida perda de dinamismo”. O ano iniciou-se com alta de 2,0% para todo o setor industrial, considerando os dados do primeiro trimestre, perdendo intensidade desde então e fechando os seis primeiros meses do ano passado com variação de 1,2% (o que se compara com a alta de 2,6% registrada na primeira metade de 2024).
- Nos seis meses finais do ano, a elevação de 0,5% observada no terceiro trimestre foi anulada pelo recuo também de 0,5% no trimestre final de 2025, zerando a taxa de crescimento na segunda metade do ano. “Novamente, na indústria de transformação o freio foi mais intenso”, acrescenta o Iedi, considerando o recuo de 1,9% anotado no trimestre final do ano passado em comparação com o avanço de 2,6% que havia sido anotado pelo IBGE no primeiro trimestre.
- O Iedi espera um ritmo ainda morno para a atividade no setor industrial ao longo deste ano, diante da expectativa de uma taxa básica de juros ainda muito elevada, com o relatório Focus do Banco Central (BC) projetando algo em torno de 12,5% (supondo corte total de 2,5 pontos percentuais até o final do ano). De toda forma, o instituto sugere que alguns fatores poderão “mitigar” o cenário, como “investimentos em infraestrutura já contratados nas concessões e o quadro de emprego e renda, além de ações pontuais, a exemplo do programa Move Brasil, para renovação da frota de caminhões”.