Setor farmacêutico vive virada digital e pressiona indústria e farmácias
IA, delivery e canais online redefinem estratégias de venda e relacionamento no setor de saúde
O estudo “Visão 360º do mercado de farmácias no Brasil – Um mapeamento das expectativas através dos seus principais agentes”, lançado pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC), traz um retrato detalhado de como a digitalização e a inteligência artificial (IA) estão remodelando uma das maiores cadeias econômicas do país – desde médicos, distribuidores e representantes até varejistas e consumidores digitais. A análise inédita foi coordenada por Edison Tamascia, presidente da Febrafar, com apoio do consultor Rodnei Domingues e reúne percepções estratégicas de todos os elos da cadeia farmacêutica brasileira.
Mercado nacional em expansão e a pressão demográfica
O Brasil figura entre os maiores mercados farmacêuticos do mundo, impulsionado pelo envelhecimento acelerado da população – que deve chegar a 25% de pessoas acima de 60 anos até 2034 – e pela crescente demanda por tratamentos contínuos e custo-efetivos. Com esse cenário, estratégias para ganho de competitividade, eficiência na distribuição e digitalização da experiência do paciente tornam-se ainda mais urgentes.
Dados extraídos de relatórios setoriais mostram que o varejo farmacêutico continua em ritmo de crescimento robusto, com cadeias como a Febrafar crescendo acima da média do setor, ampliando faturamento e alcance nacional. Em 2025, a Febrafar representava mais de 16% do mercado farmacêutico com cerca de 17 mil farmácias associadas em todo o país, superando o crescimento geral do setor.

Médicos trocam visitas presenciais por plataformas digitais
A pesquisa do IFEPEC entrevistou 80 médicos e revelou que a digitalização está reduzindo o espaço para visitas presenciais de representantes farmacêuticos. Médicos mais experientes ainda valorizam contatos presenciais com indústrias de maior credibilidade, mas entre os recém-formados a preferência já está em atualizações via IA e plataformas digitais confiáveis. Parte significativa dos profissionais acredita que as visitas presenciais tendem a desaparecer nos próximos anos, com uso de tecnologia se tornando dominante.
O papel tradicional do representante das farmácias está sendo redefinido. Dados mostram que a digitalização e o acesso a informação em tempo real mudaram a relação com os médicos, exigindo que o profissional evolua de promotor de produto para consultor de valor estratégico, com foco em soluções integradas que requerem interação humana apenas em casos de produtos complexos ou parcerias estruturadas.
Por sua vez, distribuidores enfrentam competição acirrada, margens comprimidas e desafios tributários, enquanto o mercado se consolida em grupos maiores. Ainda assim, cerca de 60% das vendas do setor passam por distribuidores, o que ressalta seu papel essencial na logística nacional.
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Panorama do varejo: lucros, desafios e digitalização nas farmácias
No varejo farmacêutico, o estudo revela um equilíbrio delicado: 54% dos proprietários de farmácias relataram lucros estáveis ou crescentes, enquanto 46% enfrentam queda de rentabilidade devido à intensa concorrência, custos operacionais e queda de margem. Uma lacuna significativa é a falta de planejamento estratégico claro, apesar de 93% dos varejistas pretendem ampliar o uso de canais digitais para compras e gestão.
Este movimento das farmácias segue tendências mais amplas: plataformas de delivery como iFood registraram crescimento de 78% nos pedidos de farmácias em 2024, refletindo a preferência dos consumidores por conveniência e rapidez.

Consumidor digital redefine experiência de compra
O estudo destaca ainda um novo perfil de consumidor digital que prioriza conveniência e atendimento humano. Cerca de 76% das compras online não ocorrem via aplicativos tradicionais — mas sim por canais como WhatsApp, onde a facilidade, a rapidez e o contato direto com o vendedor se sobressaem diante da tecnologia por si só. Aplicativos foram criticados por lentidão, necessidade de instalação e falhas na experiência de usuário.
A convergência entre digitalização e IA não é um modismo em farmácias: análises de mercado apontam que a automação inteligente pode gerar ganhos significativos. Pesquisas internacionais estimam que empresas que automatizarem casos de uso de IA podem dobrar seus lucros operacionais até 2030, destacando grande potencial de ganhos com adoção tecnológica em toda a cadeia farmacêutica.
No Brasil, iniciativas como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 destinaram recursos bilionários para projetos focados em saúde e eficiência de processos – incluindo diagnósticos mais rápidos, telemedicina e sistemas preditivos para doenças complexas – ainda que desafios regulatórios e de interoperabilidade de dados persistam.
Esta transformação em farmácias, impulsionada por mudanças demográficas e comportamentais, coloca o Brasil em um ponto de inflexão: aquele em que eficiência, tecnologia e foco no cliente separaram os líderes daqueles que apenas acompanharão o ritmo do mercado.