Entenda o que é a pancreatite aguda e os riscos ligados às canetas para emagrecimento
Casos notificados levam agência a apertar regras e reforçar monitoramento
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta para destacar os riscos associados ao uso inadequado de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”. O aviso ocorre após o aumento de notificações de eventos adversos, incluindo casos suspeitos de pancreatite aguda — uma inflamação do pâncreas que pode evoluir para quadros graves.
Entre os medicamentos citados estão dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida. A Anvisa reforça que esses produtos devem ser utilizados exclusivamente conforme as indicações aprovadas em bula, sempre com prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.
Embora o risco já conste nas bulas autorizadas no Brasil, a agência decidiu intensificar as orientações de segurança diante do crescimento das notificações. Segundo o órgão, não houve alteração na relação entre risco e eficácia dessas substâncias, e os benefícios terapêuticos permanecem superiores aos efeitos adversos quando o uso segue as indicações aprovadas.
O que é pancreatite aguda e quais são os riscos
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão essencial para a digestão e para o controle da glicose no organismo. Ela pode se manifestar de forma aguda, com início súbito e potencialmente grave, ou crônica, quando a inflamação se repete ou se mantém ao longo do tempo, podendo causar perda progressiva da função pancreática.
Existe tratamento, e na maioria dos casos a pancreatite aguda é reversível, desde que diagnosticada precocemente e tratada de forma adequada. O cuidado envolve controle da causa, suporte clínico e, em situações mais graves, internação hospitalar. Já a pancreatite crônica não tem cura definitiva, mas pode ser controlada para evitar progressão e complicações.
De acordo com o clínico geral Dr. Leonardo Catizani, da Tivolly, usuários de medicamentos para emagrecimento devem estar atentos aos sinais. “Dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos, pode indicar pancreatite e exige avaliação médica imediata”, afirma.
Dados recentes reforçam a preocupação das autoridades sanitárias. No Reino Unido, a agência reguladora MHRA registrou, entre 2007 e outubro de 2025, 1.296 notificações de pancreatite associadas ao uso desses medicamentos, incluindo 19 óbitos. No Brasil, de 2020 até 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos e seis suspeitas de casos com desfecho de óbito.
Diante desse cenário, a Anvisa determinou que farmácias e drogarias passem a reter a receita desses medicamentos. A prescrição ocorre em duas vias, e a venda só pode ser realizada mediante retenção do documento, com validade de até 90 dias a partir da data de emissão.
A agência informa que a medida busca reduzir o uso fora das indicações aprovadas, prática associada a maior risco de efeitos adversos e dificuldade no diagnóstico precoce de complicações graves.
O que são as canetas emagrecedoras e como atuam
As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e que passaram a ser utilizados no manejo da obesidade. Elas atuam reduzindo o apetite, aumentando a sensação de saciedade e auxiliando no controle metabólico.
Esses fármacos pertencem à classe dos agonistas de GLP-1, que imitam a ação de um hormônio produzido pelo intestino, responsável por regular a saciedade, o apetite e o metabolismo da glicose. Algumas moléculas mais recentes combinam a ação do GLP-1 com outros receptores hormonais, o que amplia os efeitos metabólicos e exige maior cuidado na seleção dos pacientes e no ajuste das doses.
“O uso desses medicamentos requer indicação precisa, avaliação clínica prévia e acompanhamento médico regular. Não se trata de soluções rápidas para emagrecimento”, explica Dr. Leonardo Catizani.

Diferenças entre semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida
Embora pertençam à mesma classe terapêutica, os princípios ativos apresentam diferenças relevantes em mecanismo de ação, potência e indicação clínica. A liraglutida é a mais antiga, de uso diário, com ação mais gradual e menor intensidade na perda de peso. A semaglutida, de aplicação semanal, é mais potente na redução do apetite e do peso corporal, exigindo atenção na progressão de dose.
A dulaglutida, também semanal, tem foco principal no controle do diabetes, com efeito mais discreto sobre o emagrecimento. Já a tirzepatida atua em dois receptores metabólicos (GLP-1 e GIP), o que amplia seus efeitos, mas demanda critérios mais rigorosos de indicação e acompanhamento.
O uso inadequado desses medicamentos, especialmente sem supervisão médica, pode causar náuseas intensas, vômitos, desidratação, hipoglicemia, perda excessiva de massa muscular e deficiências nutricionais. Em pessoas com predisposição, pode ocorrer inflamação pancreática.
A Anvisa orienta que profissionais de saúde interrompam o tratamento ao suspeitar de pancreatite e não retomem o uso caso o diagnóstico seja confirmado. A agência também recomenda a notificação de eventos adversos no sistema VigiMed, que contribui para o monitoramento contínuo da segurança desses medicamentos no país.