Tarifa da China ameaça exportações de carne e acende alerta na pecuária goiana
Analista do Ifag destaca dependência do mercado chinês e diz que equilíbrio entre produção e novos mercados será decisivo para Goiás
A pecuária segue como um dos pilares da economia goiana, movimentando bilhões de reais por ano e garantindo milhares de empregos diretos e indiretos em toda a cadeia produtiva através do abate e da exportação de carne bovina. No entanto, além dos desafios internos como variações climáticas, seca prolongada e aumento no custo dos insumos, o setor agora enfrenta um novo fator de pressão internacional.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) identificou risco de colapso de preços e impacto no emprego diante das salvaguardas impostas pela China às importações de carne bovina.
A preocupação do governo federal se baseia na decisão do Ministério do Comércio da China de aplicar tarifa adicional de 55% sobre o volume de carne que ultrapassar a cota anual estabelecida para cada país exportador. No caso do Brasil, o limite previsto para 2026 é de cerca de 1,1 milhão de toneladas. O que exceder esse patamar perde competitividade no mercado asiático.
Com base em dados de 2025, o Mapa estima que pode haver redução de aproximadamente 35% na demanda chinesa pela proteína brasileira, o equivalente a cerca de 600 mil toneladas. Em ofício encaminhado à Camex, o ministério alertou que, sem uma resposta coordenada, pode ocorrer “forte desorganização dos fluxos comerciais, com impactos relevantes sobre toda a cadeia produtiva”.
Reflexos diretos em Goiás
O alerta ganha peso em Goiás, que ocupa posição estratégica na exportação de carne bovina. O Estado está entre os três maiores produtores e exportadores do País e tem papel decisivo na balança comercial brasileira.
Segundo o analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Marcelo Penha, a dependência do mercado chinês é significativa. “Goiás exportou em 2025 cerca de 32,7% da carne bovina destinada à China. Foram aproximadamente 687,7 milhões de dólares embarcados”, afirma.
Se a demanda chinesa diminuir, parte desse volume poderá permanecer no mercado interno. Como consequência, a oferta de carne no País tende a aumentar, pressionando o preço da arroba do boi. Isso pode reduzir a margem do produtor, impactar frigoríficos e afetar a geração de empregos em municípios fortemente dependentes da atividade pecuária.
Impacto na economia e no consumo da carne
Do ponto de vista econômico, a queda nas exportações pode refletir diretamente na arrecadação estadual e na circulação de renda no interior. A cadeia da carne envolve não apenas produtores e frigoríficos, mas também transportadoras, comércio de insumos, serviços veterinários e mão de obra especializada.
Por outro lado, o consumidor pode perceber algum efeito positivo no curto prazo. Com maior oferta no mercado interno, os preços da carne podem sofrer acomodação. No entanto, especialistas ponderam que o repasse ao varejo depende de fatores como custo logístico, energia, impostos e dinâmica do comércio.
Apesar das incertezas, o analista do Ifag destaca que o Brasil atravessa fase de alta no ciclo pecuário, marcada pela retenção de fêmeas para reprodução. Esse movimento tende a reduzir a oferta de animais para abate em 2026, o que pode ajudar a equilibrar produção e demanda.
“Estamos no ciclo de alta. A retenção de fêmeas pode diminuir a produção de carne no próximo ano, favorecendo um ajuste natural entre oferta e consumo”, explica Penha.
Além disso, ele lembra que o Brasil ampliou suas exportações entre 2024 e 2025 em cerca de 21,4%, consolidando posição como maior exportador mundial de carne bovina. “Com o status de livre de aftosa sem vacinação, o País tem condições de acessar mercados mais exigentes. Europa e Estados Unidos vêm reduzindo seus rebanhos, o que abre espaço para o Brasil”, acrescenta.
Para minimizar riscos, especialistas defendem a diversificação de mercados. Japão, Coreia do Sul e Indonésia aparecem como potenciais destinos para ampliar as vendas e reduzir a dependência da China.
A própria dinâmica do mercado global também pode limitar os impactos. Segundo Penha, a China enfrenta desaceleração econômica e excesso de oferta interna, o que explica parte das medidas protecionistas. Ainda assim, o país asiático segue como maior comprador mundial da proteína.
“Encontrando equilíbrio entre produção e novos mercados, não vejo um cenário de colapso ou redução generalizada de empregos em Goiás”, avalia. O desafio agora é proteger a renda do produtor, preservar empregos e garantir estabilidade ao consumidor em um cenário de incertezas internacionais.
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