Assédio no Carnaval expõe medo e insegurança das mulheres durante a folia
Pesquisas indicam que quase metade das brasileiras já sofreu assédio no período e mais de 70% temem novas ocorrências durante a festa
O Carnaval, tradicionalmente associado à liberdade, música e celebração, também revela uma realidade preocupante: para muitas mulheres, o período é marcado pelo medo. Entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 2026, milhões de pessoas participam de blocos e festas pelo País, mas pesquisas indicam que a folia ainda representa um ambiente de risco.
Levantamento do Instituto Locomotiva aponta que quase metade das brasileiras já sofreu algum tipo de assédio durante o Carnaval e a maioria teme reviver a situação.
Para a advogada especialista em direitos das mulheres, Ana Carolina Fleury, os dados não são surpresa. Segundo ela, o receio generalizado demonstra que a violência é estrutural. “Quando mais de 70% das mulheres têm medo, não é exagero, é experiência coletiva”, afirma.
A consequência é visível no comportamento: muitas deixam de frequentar blocos, mudam roupas, evitam horários ou compartilham localização em tempo real como forma de autoproteção. O problema, segundo a especialista, é que a responsabilidade acaba recaindo sobre a vítima, quando deveria estar na prevenção e punição do agressor.
Assédio na folia ainda é realidade
O ambiente de multidões, associado ao consumo de álcool, favorece episódios de importunação sexual. Beijos forçados, toques sem consentimento, puxões de cabelo e perseguições são algumas das ocorrências mais relatadas. Pela legislação brasileira, qualquer ato libidinoso sem autorização é crime, e a insistência após a negativa configura violência.
Mesmo assim, parte da sociedade ainda relativiza essas atitudes. Pesquisas apontam que uma parcela da população acredita que quem vai sozinho ao Carnaval deseja contato físico ou que a roupa da mulher indicaria consentimento. Para especialistas, essa percepção reforça a cultura de violência e dificulta denúncias.
A orientação para quem sofre assédio é se afastar do agressor imediatamente e procurar apoio. Seguranças do evento, policiais ou outras pessoas próximas podem ajudar. Identificar características do agressor e reunir testemunhas também contribui para a ocorrência.
A vítima deve registrar o caso na delegacia preferencialmente na Delegacia da Mulher e, em situações de violência sexual, buscar atendimento médico o mais rápido possível, mesmo antes de decidir se fará denúncia formal.
Além dos casos mais visíveis, especialistas alertam para situações consideradas “sutis”, mas igualmente violentas, como comentários insistentes, perseguições e tentativas repetidas de contato físico após negativa. Muitas mulheres relatam não denunciar por medo de constrangimento ou por acreditarem que a ocorrência não será levada a sério.
Essa sensação de impunidade reforça o silêncio e contribui para a repetição das agressões. Campanhas educativas têm buscado informar que qualquer contato sem consentimento configura crime, independentemente da intensidade ou duração da abordagem.
O perigo também dentro de casa
O risco não está apenas nas ruas. Pesquisas apontam aumento significativo de feminicídios em finais de semana prolongados e feriados. O maior tempo de convivência com o agressor, aliado ao consumo de álcool e à redução do funcionamento de serviços públicos, cria um cenário propício à violência doméstica.
Especialistas explicam que o feminicídio raramente ocorre de forma repentina; normalmente é o ponto final de uma sequência de agressões psicológicas, morais e físicas. Muitas vítimas não denunciam por medo, dependência financeira ou emocional. Por isso, qualquer sinal de violência deve ser levado a sério.
Mulheres que possuem medida protetiva precisam comunicar imediatamente às autoridades qualquer descumprimento. Também é recomendado manter contatos de emergência acessíveis e informar pessoas de confiança sobre situações de risco. Durante feriados, muitas cidades mantêm plantões policiais e abrigos temporários para proteção das vítimas.
Outro fator que agrava o cenário é o isolamento social durante feriados prolongados. Sem rotina de trabalho ou escola, a vítima permanece por mais tempo no mesmo ambiente que o agressor, o que reduz as oportunidades de pedir ajuda. Em muitos casos, familiares e vizinhos são os primeiros a perceber mudanças de comportamento, como medo, silêncio excessivo ou pedidos indiretos de socorro.
Omissão de testemunhas ainda dificulta combate à violência contra a mulher
Outro desafio é a omissão de testemunhas. Pesquisas indicam que cerca de 40% das pessoas que presenciam agressões não intervêm. Para a advogada, combater a violência exige ação coletiva.
Em locais públicos, a intervenção pode ocorrer ao acionar segurança, aproximar-se da vítima ou chamar atenção de outras pessoas. No ambiente doméstico, ouvir sem julgamento e orientar sobre a rede de apoio já representa um passo importante.
Durante o Carnaval, situações de risco imediato devem ser comunicadas à Polícia Militar pelo 190. O telefone 180 funciona 24 horas para orientação e encaminhamento, inclusive de forma anônima. Em Goiânia, também é possível procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, utilizar o aplicativo Mulher Segura ou entrar em contato com o Batalhão Maria da Penha.
Campanhas educativas têm ampliado a conscientização, mas especialistas defendem ações permanentes, capacitação adequada das equipes de atendimento e responsabilização efetiva dos agressores. A meta é transformar a cultura social para que a mulher não precise escolher entre se divertir e se sentir segura.
Autoridades destacam que a denúncia não prejudica a vítima, mas possibilita a interrupção do ciclo de violência e a proteção de outras mulheres. Mesmo relatos anônimos ajudam a mapear áreas de risco e orientar ações preventivas das forças de segurança.
O compromisso coletivo inclui também respeitar limites, apoiar campanhas educativas e intervir de forma segura quando necessário. Combater a violência contra a mulher passa pela mudança cultural, em que a diversão deixa de ser justificativa para qualquer forma de desrespeito.
Para além das medidas legais, a informação tem papel fundamental na prevenção. Conhecer direitos, reconhecer situações de violência e saber onde buscar ajuda podem evitar que casos se agravem. Grupos de apoio, amigos e familiares também são peças essenciais para acolher vítimas e incentivar a denúncia.
A expectativa é que, com conscientização e atuação conjunta da sociedade e do poder público, o Carnaval deixe de ser um período de alerta e volte a ser apenas um momento de festa.
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