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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Juros drenaram um terço de todas as riquezas geradas pelo País em 2025

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 17 de fevereiro de 2026

Apenas no ano passado, as despesas com pagamento de juros em toda a economia teriam drenado algo como 33,59% do Produto Interno Bruto (PIB).

O rentismo que passou a imperar no Brasil a partir dos anos 1980 continua gerando danos até aqui insanáveis à economia, diante da teimosia e falta de visão estratégica de governos que têm se submetido, década após década, aos ditames do setor financeiro nacional. A predominância da agenda neoliberal, que escolheu uma agenda de políticas construídas especialmente para favorecer os donos do dinheiro no País, a começar pela política destrutiva de juros superelevados, tem drenado recursos do lado real da economia, direcionando-os para a parcela mais rica da população, o que ajuda a explicar porque a fatia de 1,0% entre os mais ricos concentraram 37,3% da renda total e recebem rendimentos anuais 40 vezes mais elevados do que a renda média dos 40% mais pobres.

Apenas no ano passado, as despesas com pagamento de juros em toda a economia teriam drenado algo como 33,59% do Produto Interno Bruto (PIB), ao alcançar qualquer coisa muito próxima de R$ 4,278 trilhões, numa estimativa elaborada pela coluna com base em dados do Banco Central (BC).

A enorme iniquidade é agravada pela baixa tributação dos rendimentos dos muito ricos, já que uma parcela relevante daqueles ganhos é isenta de impostos, o que faz a alíquota efetiva do Imposto de Renda limitar-se a 4,67% para aquela fatia da população posicionada entre o 0,01% de maior renda, algo como R$ 2,57 milhões por mês, enquanto trabalhadores com ganhos de R$ 7,35 mil mensais estarão sujeitos neste ano a uma alíquota próxima de 11,55%. Embora aqueles muito ricos ganhem 350 vezes mais, pagam 60% menos IR, proporcionalmente.

É evidente que a concentração excessiva da renda cria dificuldades para que a economia cresça de forma equilibrada, mais justa e autônoma, com investimentos mais relevantes em todos os níveis. Mas as políticas tributária e monetária (que determina o tamanho dos juros no País) não podem ser vistas como uma “distorção”, no sentido de que, na verdade, correspondem a um projeto executado pelo governo, mas engendrado nas entranhas do sistema rentista em vigor.

Endividamento recorde
Ao longo do ano passado, a manutenção persistente da taxa básica de juros em 15% ano manteve os custos financeiros impostos às famílias e empresas e ainda ao setor público em geral em níveis históricos, drenando recursos do lado real da economia, inibindo investimentos e causando um novo ciclo de endividamento, especialmente para as famílias. As estatísticas mais recentes do BC mostram que o crédito ampliado contratado pelas famílias atingiu no ano passado seu nível mais elevado na série iniciada em 2013, passando a corresponder a 37,52% do PIB, diante de 36,24% em 2024.

Balanço
No setor corporativo, o crédito ampliado recuou levemente de 56,95% para 55,11%, mantendo-se ainda em níveis historicamente elevados. O setor público como um todo gastou o equivalente a 8,37% do PIB apenas para fazer frente aos juros sobre suas dívidas, saindo de 7,91% em 2024 e alcançando a maior relação desde 2015, quando as despesas com juros haviam representado 8,37% do total de riquezas.

Em valores correntes, as dívidas das famílias, incluindo operações de crédito contratadas ao setor financeiro nacional e outras formas de empréstimo, títulos de dívida e crédito tomado no exterior, saíram de R$ 3,789 trilhões para quase R$ 4,270 trilhões entre 2024 e 2025, crescendo 11,90%. O crédito amplo para as famílias tem avançado a taxas de dois dígitos desde 2019, acumulando alta de 140,10% em relação a 2018, quando havia somado alguma coisa abaixo de R$ 1,990 trilhão, aproximando-se de 28,41% do PIB.

As empresas levantaram no mercado, considerando praticamente o mesmo conceito, créditos ao redor de R$ 7,018 trilhões no ano passado, numa variação de 4,61% frente a R$ 6,708 trilhões em 2024. Na comparação com R$ 3,221 trilhões contratados em 2018, registrou-se um salto nominal de 117,86%. Naquele ano, o crédito amplo destinado ao setor corporativo correspondeu a 45,99% do PIB.

Com base naqueles dados e considerando a taxa de juros anual média paga pelas empresas e pessoas físicas ao sistema financeiro como uma aproximação do custo financeiro o crédito ampliado, seria possível estimar o tamanho do constrangimento imposto àqueles dois setores pelos juros extorsivos cobrados no Brasil. Para completar a conta, as estatísticas fiscais do BC informam o tamanho dos gastos com juros realizados pelo setor público como um todo, incluindo as contas dos governos estaduais, municipais e federal, além de suas estatais.

No caso das famílias, as despesas estimadas com juros teriam avançado de R$ 569,12 bilhões em 2018, perto de 8,12% do PIB, para R$ 1,796 trilhão no ano passado, correspondendo a 14,11% do produto estimado para aquele ano pelo BC. Nessa comparação, registrou-se um salto de 215,65%, com elevação ainda de 27,12% frente a 2024, saindo de R$ 1,413 trilhão. Os juros consumiram R$ 1,474 trilhão no ano passado, aproximadamente 11,57% do PIB e em torno de 15,63% mais do que a despesa de R$ 1,275 trilhão realizada e 2024 (qualquer coisa ao redor de 10,82% do produto). Desde 2018, quando haviam somado R$ 479,983 bilhões (6,85% do PIB), os juros pagos pelas empresas subiram 207,05%.

No setor público, os gastos com juros cresceram 6,01%, saindo de R$ 950,423 bilhões para R$ 1,008 trilhão, mas recuando de 8,07% para 7,91% do PIB. Comparado aos R$ 379,184 bilhões gastos em 2018, perto de 5,41% do produto, esse tipo de despesa aumentou 165,70%.

Na soma dos três setores, os juros saíram de R$ 1,428 trilhão em 2018 para R$ 4,278 trilhões, saltando de 20,39% para 33,59% do PIB, o que correspondeu a um incremento nominal de 199,50% (em torno de R$ 2,849 trilhões a mais). Em relação aos gastos de R$ 1,275 trilhão registrados em 2024 (equivalentes a 10,82% do PIB), houve um avanço de 17,58%.

Numa comparação adicional, o valor nominal do PIB experimentou elevação de 81,80% entre 2018 e 2025, passando de R$ 7,004 trilhões para R$ 12,734 trilhões. No período, a economia gerou uma riqueza adicional de R$ 5,729 trilhões. O aumento nos gastos com juros em toda a economia, portanto, correspondeu a 49,73% do ganho acumulado pelo PIB. As despesas com juros consideradas aqui correspondem aos valores brutos desembolsados, sem descontar receitas financeiras originadas por aplicações em títulos públicos e privados e outros rendimentos de caráter igualmente financeiro, no caso de empresas e das famílias. (Especial para O HOJE)

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