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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Despesa com juros quase dobra em sete anos e supera “gastos sociais”

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 18 de fevereiro de 2026

Numa avaliação limitada a seus impactos fiscais, a conta de juros tem imposto um custo elevado aos governos em geral, gerando déficits e agravando o endividamento do setor público

As distorções geradas pela política tresloucada de juros superelevados não se esgotam no agravamento das condições de vida a que submetem o País e o povão de forma mais específica, com avanço de desigualdades e iniquidades historicamente presentes ao longo de trajetória nacional, desde seus primeiros momentos. Numa avaliação limitada a seus impactos fiscais, a conta de juros tem imposto um custo elevado aos governos em geral, gerando déficits e agravando o endividamento do setor público, além de impor sérias limitações ao investimento público.

As séries de dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), mostram que o governo central – Tesouro, Previdência Social e Banco Central (BC) – elevou os gastos com juros em 97,24% acima da inflação decorrida entre 2018 e 2025, escalando de R$ 457,536 bilhões para R$ 902,457 bilhões a valores atualizados até dezembro do ano passado com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A despesa com juros chegou a superar todos os gastos sociais em 23,04% no ano passado.

A ofensiva permanente da “esquadrilha austericida” não apenas menospreza os efeitos da política de juros sobre as contas públicas, como sustenta que o ajuste fiscal deveria se concentrar no lado das despesas, atingindo espacialmente políticas que buscam, ainda de forma tímida, compensar os impactos concentradores da renda das políticas monetárias e tributária (O Hoje, 17.02.2026). Num exemplo, as estatísticas do Banco Central (BC) mostram que a conta dos juros respondeu por 95,84% do déficit nominal acumulado pelo setor público brasileiro, incluindo nessa contabilidade o governo central, Estados, prefeituras e estatais, entre 2021 e 2025.

Cegueira austericida
Naqueles cinco anos, o BC registrou um déficit nominal somado de R$ 3,872 trilhões, ao redor de 7,10% do Produto Interno Bruto (PIB) quando considerada a média mensal. Daquele total, perto de R$ 3,711 trilhões foram causados pelo pagamento de juros, equivalentes a 6,80% do PIB médio do período. O resultado primário, quer dizer, a diferença entre receitas e despesas, sem incluir gastos com juros, atingiu R$ 160,977 bilhões e correspondeu a apenas 0,30% do PIB. Vale dizer, o déficit primário foi responsável por meros 4,16% do rombo nominal. Mas os ataques da “brigada austericida” concentram-se, sobretudo, sobre as contas primárias, que pode definição não contemplam o gasto exorbitante com juros.

Balanço
Na visão dos austericidas de plantão, os desequilíbrios na conta primária do setor público estariam por trás de todo o aumento da dívida do governo geral (União, Estados e municípios). Ainda que as estatísticas do BC contem uma história diferente. Recorrendo mais uma vez aos números oficiais rotineiramente divulgados pela autoridade monetária, a dívida bruta do governo geral, no conceito adotado pelo BC, de fato aumentou 51,43% entre dezembro de 2020 e o mesmo mês do ano passado, subindo de R$ 6,616 trilhões para R$ 10,018 trilhões, num acréscimo de R$ 3,402 trilhões.

Entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025, o governo recomprou (ou liquidou) perto de R$ 675,203 bilhões, em torno de 1,24% do PIB anual médio do período. Mas se o governo foi ao mercado para recomprar parcela de sua dívida, o que explica seu crescimento? Precisamente o pagamento de R$ 4,095 trilhões em juros, perto de 7,51% do PIB.

A “criminalização” dos gastos sociais ou relacionados a políticas de apoio a famílias de renda mais baixa, idosos e deficientes tenta esconder o problema real gerado pela política de juros altos, como se cortes de um lado pudessem compensar o estrago gerado pelas despesas de caráter financeiro, exacerbadas pela política monetária ditada pelo rentismo nacional e seguida pelo BC.

Quando somadas as despesas com seguro desemprego e abono salarial, benefícios de prestação continuada definidos pela Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), a exemplo da renda mensal vitalícia paga a idosos e deficientes, Bolsa Família, gastos com saúde e educação e com o Minha Casa Minha Vida (MCMV), os desembolsos atingiram R$ 733,446 bilhões no ano passado, a valores já atualizados com base no IPCA.

Os dados dizem respeito às contas do governo central, que gastou com juros ao redor de R$ 169,010 bilhões a mais do que todos os gastos sociais no ano passado, numa diferença de 23,04% conforme anotado mais acima, já que os juros exigiram uma despesa de R$ 902,457 bilhões, praticamente R$ 444,920 bilhões a mais quando considerados os valores destinados ao pagamento de juros em 2018 (ao redor de R$ 457,536 bilhões).

Em 2018, o governo central destinou R$ 443,182 bilhões para gastos sociais, em torno de 3,13% abaixo dos valores imobilizados no pagamento de juros. Desde lá, as despesas sociais aumentaram 65,50% em termos reais, muito abaixo da escalada registrada para os gastos com juros.

Em todo o período analisado, entre 2018 e 2025, enquanto os gastos sociais somaram R$ 4,282 trilhões, num diferença a menos de R$ 574,434 bilhões na comparação com R$ 4,856 trilhões desperdiçados com juros.

Excluídos os anos de pandemia e tomados a valores nominais, os gastos sociais atingiram em 2025 seu percentual mais elevado em relação ao PIB na série da STN, avançando de 5,68% em 2024 para 5,76% – o que se compara com 4,27% em 2019. Sob pressão da “esquadrilha austericida”, no entanto, os investimentos do governo central foram penalizados, recuando de 0,74% do PIB em 2023, percentual já bastante “magro”, para 0,66% no ano passado – mas acima dos níveis registrados em 2022, quando o investimento havia desabado para 0,45% e atingido seu menor percentual em relação ao PIB desde o começo da série estatística mais recente da STN, iniciada em 2008. (Especial para O HOJE)

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