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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
COMPORTAMENTO

Cães aprendem palavras como bebês, diz estudo

Pesquisa indica que alguns cães conseguem associar nomes a objetos apenas ao ouvir conversas humanas, habilidade comparável à de crianças de 18 meses

Luana Avelarpor Luana Avelar em 19 de fevereiro de 2026
Cães
Foto: iStock

Quem convive com crianças pequenas está habituado a testemunhar um fenômeno curioso: por volta dos 16 aos 18 meses, elas passam a compreender palavras novas apenas ao ouvir adultos conversando. Antes mesmo de dominar a fala, já estabelecem conexões entre sons e objetos, incorporando vocabulário de modo silencioso. Um estudo recente sugere que, em certas circunstâncias, cães podem desenvolver habilidades semelhantes.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, na Áustria, e partiu de uma pergunta central: seria possível que cães aprendessem palavras não apenas por treino direto, mas também por exposição indireta à linguagem humana? Para testar essa hipótese, os pesquisadores observaram animais capazes de identificar brinquedos ou objetos específicos pelo nome, avaliando se o aprendizado poderia ocorrer apenas pela escuta de diálogos entre pessoas.

Os resultados indicaram que alguns cães, descritos como excepcionalmente talentosos para a aprendizagem verbal, conseguiram reconhecer novos objetos após ouvirem seus nomes em conversas cotidianas. Em outras palavras, não houve necessariamente um treinamento estruturado para cada palavra. A associação ocorreu por exposição auditiva e posterior reconhecimento, um mecanismo comparável ao observado em crianças de aproximadamente 18 meses.

O achado dialoga com pesquisas anteriores sobre cognição canina. Estudos conduzidos pelo cientista Brian Hare, da Duke University, já haviam sugerido que, em determinados aspectos da comunicação social, a capacidade cognitiva de cães pode se aproximar da de uma criança de até quatro anos. A comparação não implica equivalência global de inteligência, mas aponta convergências específicas na leitura de intenções humanas, cooperação e interpretação de sinais emocionais.

Aquisição de palavras em cães

O estudo austríaco acrescenta um elemento relevante a esse debate: a possibilidade de aquisição lexical por escuta indireta. Ainda que a habilidade não seja universal, sua existência amplia a compreensão sobre como os cães processam informações verbais dentro do ambiente doméstico. A linguagem humana, nesse contexto, deixa de ser apenas um conjunto de comandos e passa a integrar um repertório de estímulos mais complexo.

Importa destacar que o desempenho não foi homogêneo entre os animais avaliados. Cães considerados comuns de família, inclusive pertencentes a raças reconhecidas por alta capacidade de aprendizado, não apresentaram o mesmo padrão de acerto. Em muitos casos, a escolha de objetos ocorreu de forma semelhante ao acaso. Isso sugere que a aptidão para aprender palavras apenas pela escuta não se distribui de maneira uniforme, variando conforme características individuais e contexto de vida.

Cães
Interação verbal constante pode ampliar a capacidade de associação entre palavras e objetos no ambiente doméstico. Foto: iStock

A ausência de uniformidade, contudo, não significa limitação absoluta. Todos os cães demonstram competência consistente em outro domínio: a leitura de comportamento humano. Ao longo do processo de domesticação, desenvolveram sensibilidade refinada à postura corporal, ao tom de voz, à sequência de ações e aos hábitos diários de seus cuidadores. Muitas vezes, antecipam eventos antes que qualquer palavra seja pronunciada, reagindo a sinais sutis que passam despercebidos para a própria pessoa.

Essa combinação de sensibilidade comportamental e eventual capacidade de associação verbal reforça a importância do ambiente linguístico na convivência com animais domésticos. Conversas naturais, repetição de nomes de objetos e interações positivas podem criar um cenário propício para o aprendizado, sobretudo quando acompanhadas de associação clara entre palavra e item concreto. Estratégias inspiradas na forma como adultos falam com crianças pequenas, como repetição contextualizada e reforço afetivo, tendem a favorecer a fixação de significados.

O estudo não redefine o estatuto cognitivo dos cães, mas contribui para afastar uma visão simplista que os reduz a receptores mecânicos de comandos. Ao demonstrar que alguns indivíduos conseguem aprender palavras por mera exposição auditiva, a pesquisa amplia a fronteira do que se entende por comunicação interespecífica. Em vez de um diálogo unilateral baseado em ordens, emerge a possibilidade de um intercâmbio mais sofisticado, no qual o cão também capta nuances do discurso cotidiano.

Para famílias que incluem o animal na rotina doméstica, o achado oferece uma perspectiva prática. Falar com o cão, nomear objetos durante brincadeiras e manter interação verbal consistente pode não ser apenas um gesto afetivo. Em determinados casos, pode representar um estímulo real ao desenvolvimento cognitivo. Ainda que nem todos alcancem o mesmo desempenho, a evidência reforça que a comunicação clara e o convívio atento constituem elementos centrais na relação entre humanos e seus cães.

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