Tragédias no Carnaval expõem alta de violência nas rodovias federais de Goiás
Com aumento de 30% nos acidentes, especialista defende aplicação mais rigorosa das leis e fiscalização permanente para conter imprudência
Um grave acidente envolvendo uma van e um caminhão na BR-020, nas proximidades de Formosa (GO), deixou cinco pessoas mortas e 11 feridas durante o período de Carnaval e acendeu um alerta sobre a violência nas rodovias federais que cortam Goiás.
A colisão ocorreu quando a van, que seguia da Bahia em direção a Brasília, bateu na traseira do caminhão. O impacto destruiu parte do veículo de passageiros e matou cinco ocupantes ainda no local, entre eles, duas mulheres, dois homens e uma criança. As demais vítimas foram socorridas para unidades de saúde em Formosa e no Distrito Federal.
A tragédia, que comoveu a região, simboliza um cenário preocupante revelado pelo balanço da Polícia Rodoviária Federal (PRF) referente à Operação Carnaval 2026. Em Goiás, foram registrados 44 sinistros de trânsito nas rodovias federais durante o feriado prolongado, contra 34 no mesmo período de 2025, o que representa aumento de 30%. O número de mortes também cresceu de três para cinco, alta de 66% na letalidade.
Crescimento de acidentes e mortes expõe cenário crítico durante o Carnaval
Além do acidente na BR-020, outras quatro ocorrências com vítimas fatais foram contabilizadas nas estradas federais goianas. Em Cezarina (BR-060), uma colisão transversal entre carro e motocicleta deixou duas pessoas mortas após desrespeito à faixa de aceleração. Em Rio Verde (BR-452), uma carreta tombou sobre um veículo de passeio ao realizar ultrapassagem em local proibido, resultando em um óbito.
Na BR-153, em Goiânia, uma colisão entre automóvel e motocicleta terminou com uma morte, e o condutor deixou o local sem prestar socorro. Já em Rialma, também na BR-153, um ciclista morreu após ser atropelado por uma ambulância cujo motorista fugiu sem prestar assistência. Todos os casos seguem sob investigação da Polícia Civil, que apura responsabilidades e circunstâncias específicas de cada ocorrência.
A fiscalização da PRF também apontou aumento expressivo no excesso de velocidade. Foram 3.805 registros de radar por veículos acima do limite permitido, 21% a mais do que em 2025. Além disso, 28 pessoas foram presas por crimes diversos, incluindo embriaguez ao volante, uso de documento falso e cumprimento de mandados de prisão. Segundo a corporação, os dados reforçam que comportamentos de risco continuam sendo determinantes para a gravidade dos acidentes.
Imprudência, álcool e falhas na aplicação da lei
Para o especialista em trânsito Marcos Rothen, o crescimento dos índices está diretamente ligado à imprudência dos condutores. “Ultrapassagens em local proibido, excesso de velocidade e direção sob efeito de álcool continuam sendo comportamentos frequentes. Muitos motoristas ainda subestimam o risco”, afirma.
Segundo ele, embora o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) preveja punições severas, como multa de R$ 2.934,70, suspensão da CNH por 12 meses e até prisão para casos de embriaguez ao volante, a efetividade depende da aplicação constante e visível das penalidades. “A fiscalização precisa ser permanente. Quando o motorista percebe que há risco real de punição, ele muda de comportamento”, ressalta.
Rothen defende ainda que o Brasil poderia adotar modelos internacionais em que multas são proporcionais à renda do infrator ou onde a prisão é aplicada com maior frequência em crimes de trânsito com morte.
“Não basta ter uma lei rigorosa no papel. É preciso que ela seja aplicada de maneira uniforme”, pontua. Para ele, a falta de padronização na fiscalização entre os Estados e a sensação de impunidade acabam enfraquecendo o caráter educativo da legislação e contribuindo para a repetição de condutas perigosas nas rodovias.
Lei Seca reduz mortes, mas embriaguez e imprudência ainda desafiam
Desde a implementação da Lei Seca, em 2008, o Brasil registrou redução significativa nas mortes relacionadas ao álcool no trânsito. Dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) indicam queda de 24% na taxa de mortes por acidentes associados ao consumo de bebida alcoólica entre 2010 e 2023. Em Goiânia, por exemplo, a proporção de adultos que admitiram dirigir após beber caiu quase 29% em pouco mais de uma década.
Mesmo assim, durante o Carnaval 2026, mais de 130 motoristas foram autuados por embriaguez em Goiás, e 62 se recusaram a realizar o teste do etilômetro, conduta que também configura infração gravíssima. A legislação prevê detenção de seis meses a três anos para quem dirige com capacidade psicomotora alterada, além de pena de cinco a oito anos em casos de homicídio culposo com ingestão de álcool.
O presidente do Detran-GO, Delegado Waldir, reforça que a mistura entre álcool e direção continua sendo um dos principais fatores de risco. “Cada motorista alcoolizado retirado das ruas é uma vida que pode ser preservada. A fiscalização salva famílias inteiras”, afirma.
Cenário nacional reforça alerta
O aumento da violência nas rodovias federais também foi registrado em nível nacional. Em todo o País, o Carnaval 2026 contabilizou 1.241 acidentes, 130 mortes e 1.481 feridos, números superiores aos do ano anterior. A PRF destacou que houve crescimento de 8,5% nos sinistros graves, mesmo com mais de 326 mil abordagens realizadas e 118 mil testes de alcoolemia aplicados.
Foram ainda 55,5 mil registros de veículos acima da velocidade permitida e mais de 8 mil autos por ultrapassagens proibidas. A maioria das vítimas estava em automóveis e motocicletas.
O acidente na BR-020, próximo a Formosa, evidencia que os números divulgados pelas autoridades representam histórias interrompidas e famílias devastadas. Para especialistas, a solução passa por três pilares: educação contínua, fiscalização permanente e punições efetivamente aplicadas.
“Quando a sociedade percebe que crimes de trânsito não ficam impunes, cria-se um efeito pedagógico. A lei precisa servir de exemplo. Só assim conseguiremos reduzir a repetição dessas tragédias”, conclui Marcos Rothen.
Diante do aumento dos acidentes, o Governo de Goiás também intensificou medidas de prevenção nas rodovias estaduais. Por meio da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra), novos radares começaram a ser instalados na GO-020, entre Goiânia e Bela Vista de Goiás.
Os equipamentos ampliam o alcance da fiscalização e integram um plano de modernização do monitoramento eletrônico em trechos considerados estratégicos, definidos com base em estudos técnicos e índices de acidentes.
Enquanto isso, o alerta permanece nas estradas: respeitar limites de velocidade, evitar ultrapassagens arriscadas e jamais misturar álcool e direção continuam sendo atitudes fundamentais para preservar vidas.
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