O Hoje, O Melhor Conteúdo Online e Impresso, Notícias, Goiânia, Goiás Brasil e do Mundo - Skip to main content

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Estatais registram superávit no 4º trimestre e déficit anual desaba

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 24 de fevereiro de 2026

Os céus pareciam desabar sobre a economia no ano passado a se dar crédito ao tom catastrófico do noticiário sobre as empresas estatais controladas pelo governo federal, excluídas as gigantes Petrobrás e Eletrobrás – esta última, liquidada na “bacia das almas” em 2022. O suposto descontrole de gastos das empresas estatais, muito especialmente na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT), ameaçava detonar uma crise fiscal de dimensões arrasadoras, arrastando de quebra todo o setor público federal. Ainda que, em seu ponto mais elevado ao longo do ano passado, o déficit primário das estatais federais, sem considerar o impacto dos juros sobre suas contas, tenha se limitado a 0,07% do Produto Interno Bruto (PIB) nos 12 meses encerrados em agosto.

Mas o relevante, nesta ofensiva sem trincheiras mobilizada pela “esquadrilha do austericídio”, era criar um ambiente favorável à agenda dos mercados, impondo ao governo medidas de ajuste contrárias aos interesses da sociedade e, muito particularmente, do povão que mais depende do Estado. Os números mais negativos dos últimos três meses de 2024 e dos três primeiros trimestres de 2025 de fato haviam feito disparar o déficit primário das estatais federais.
Em agosto, levando-se em conta os dados acumulados em 12 meses, o déficit primário havia atingido pouco menos de R$ 8,929 bilhões frente a R$ 4,026 bilhões nos 12 meses imediatamente anteriores, quando correspondeu a algo como 0,03% do PIB. Os números do Banco Central (BC) mostram um salto de 121,81% na comparação entre os dois períodos, em valores nominais, quer dizer, sem descontar a inflação.

O número veio bem mais alto, mas seria difícil projetar a partir daqueles dados um cenário fiscal de uma dramaticidade extremada, conforme indicavam manchetes, colunas e análises disseminadas pela grande mídia corporativa. Bastaria mostrar que o rombo estatal, conforme já sublinhado acima, representava uma fração do PIB, alguma coisa na segunda casa depois da vírgula, correspondendo a pouco mais de um quinto do déficit primário de todo o governo federal, que então se aproximava de 0,30% do produto (sempre no acumulado em 12 meses). Mais popularmente, tratava-se do rabo balançando o cachorro.

Virada de sinais
O cenário dali para frente apenas tornou mais evidente a má vontade dos catastrofistas fiscais. No último trimestre do ano passado, dado jamais destacado pelos jornalões e tevês da grande mídia corporativa, as estatais federais passaram a registrar superávit em suas contas, ainda sem considerar os juros, com saldo positivo acumulado de R$ 1,185 bilhão entre outubro e dezembro de 2025, o que se compara com o déficit de R$ 2,555 bilhões registrados nos mesmos três meses de 2024, demonstrando uma reviravolta equivalente a R$ 3,740 bilhões (perto de 0,11% do PIB trimestral).

Balanço
• Alguma leitora ou algum leitor mais antenado observou manchetes anunciando a “sobra” de recursos superior a um bilhão de reais nos cofres das estatais? Dificilmente. Mas pululavam manchetes, análises e colunas alardeando a proximidade do abismo, um desastre completo na área fiscal, com explosão do déficit público por conta principalmente do descalabro nas contas das estatais.
• Quando o cenário mostrava uma reviravolta, os mesmos jornalões, seus colunistas badalados e analistas pró-Faria Lima não viram motivo para revisar opiniões, análises e manchetes. Afinal, se os dados oficiais fossem varridos para debaixo do tapete, não havia motivos para mudar o rumo de comentários, análises e opiniões. O assunto simplesmente desapareceu das primeiras páginas e deixou de ser destaque nas seções especializadas dos jornalões.
• Os dados oficiais do BC mostram que a melhoria nas contas das estatais federais na reta final de 2025 fez despencar o déficit primário, que fechou a exercício em alguma coisa inferior a R$ 5,136 bilhões. Na comparação com o dado de agosto, considerando sempre períodos de 12 meses, o déficit primário encolheu 42,49%. Entre agosto e dezembro do ano passado, o tombo significou R$ 3,794 bilhões a menos no resultado primário.
• Quando comparado ao déficit de R$ 6,734 bilhões registrado pelo BC ao longo de 2024 para o conjunto das estatais federais, equivalente a 0,06% do PIB, houve uma redução de 23,74%. A relação entre déficit e PIB recuou, por sua vez, para perto de 0,04% do PIB no ano passado.
• De forma sistemática, desde 2021, as estatais federais têm registrado ganhos na conta financeira, ao contrário do que se observa para o conjunto do setor público, que amarga perdas bilionárias nesta área (e agora já na casa do trilhão). O pagamento de juros pelo governos quase triplicou entre 2019 e o ano passado, saltando de R$ 367,282 bilhões para quase R$ 1,008 trilhão. Em relação ao PIB, a gastança dos juros disparou de 4,97% para 7,91% em igual intervalo.
• Para o conjunto das estatais federais, no entanto, os juros representaram um ganho de receitas correspondente a praticamente R$ 2,933 bilhões, num aumento de 56,70% em relação a um “superávit financeiro” de pouco menos do que R$ 1,872 bilhão em 2024. Considerando que as receitas com juros superaram as despesas em quase R$ 108,043 milhões nos 12 meses de 2019, em seis anos o “ganho” financeiro das estatais foi multiplicado em 27,14 vezes.
• A redução no déficit primário e o saldo positivo na conta dos juros contribuíram para reduzir o déficit nominal (que inclui os juros) das estatais federais para menos da metade no ano passado, caindo de R$ 4,863 bilhões (0,04% do PIB) para R$ 2,203 bilhões (0,02%), um tombo de 54,69% em termos nominais. Houve, portanto, melhora nas contas das estatais, desmentindo o catastrofismo da grande mídia corporativa e dos porta-vozes do mercado.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos canais de comunicação do O Hoje para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.