O Hoje, O Melhor Conteúdo Online e Impresso, Notícias, Goiânia, Goiás Brasil e do Mundo - Skip to main content

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Déficit externo cai em janeiro (mas especulação atrai US$ 9 bi)

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 25 de fevereiro de 2026

As contas externas do País mantiveram no primeiro mês do ano a tendência de recuperação já desenhada a partir da segunda metade de 2025, se diferenciando pela queda mais intensa do déficit na conta de transações correntes e, num indicador mais preocupante, pela forte entrada de dólares destinados a investimentos meramente especulativos, com destaque para aplicações em títulos de dívida emitidos pelo setor público, mas também por empresas privadas. O déficit externo encolheu 14,77% em relação a janeiro do ano passado, baixando de US$ 9,809 bilhões para US$ 8,360 bilhões, numa redução de US$ 1,449 bilhão.

Desta vez, ao contrário do que ocorreu ao longo do ano passado, a contribuição da balança comercial de bens foi muito positiva, com o superávit entre exportações e importações saltando nada menos do que 151,86% na mesma comparação. O superávit comercial, um dos componentes da conta de transações correntes, cresceu de US$ 1,396 bilhão para US$ 3,516 bilhões, num ganho de US$ 2,120 bilhões. Os dados do Banco Central (BC) mostram ainda uma alta vigorosa do investimento estrangeiro direto no País, que subiu 21,77% ao avançar de US$ 6,708 bilhões para US$ 8,168 bilhões, ou seja, em torno de US$ 1,460 bilhão a mais.

Trata-se apenas do primeiro mês do ano e nada assegura que os bons resultados venham a ser reafirmados pelos dados nos próximos meses (assim como nada sugere que o cenário adiante possa trazer um agravamento na situação das contas externas, ampliando desequilíbrios nesta área). De toda forma, ao contrário do que ocorreu em janeiro do ano passado, a economia passou a atrair muito mais dólares, especialmente para investimentos de caráter mais especulativo, caracterizados internacionalmente como “capitais andorinha”, que tendem a literalmente “bater asas” para fora do País a qualquer sinal de mudança de ventos na economia.

Virada de sinais

Os números do BC mostram um incremento vigoroso na entrada de dólares destinados a “investimentos em carteira”, incluindo os mercados de ações, de títulos públicos e privados, fundos de investimento, derivativos e outros formatos criados pelo mercado financeiro para embalar a especulação, atiçada pelos juros estapafúrdios praticados no Brasil. Apenas em janeiro, portanto, aqueles mercados anotaram o desembarque de US$ 8,989 bilhões, maior valor para o mês desde janeiro de 2018, quando os registros do BC mostram a entrada de US$ 11,919 bilhões. Para comparação ainda, em janeiro do ano passado, a autoridade monetária havia informado uma saída de US$ 4,821 bilhões, significando que os números do primeiro mês de 2026 correspondem a uma “virada” de US$ 13,810 bilhões.

Balanço

 Os investimentos em ações pouco mais do que dobraram entre janeiro do ano passado e igual mês deste ano, avançando de pouco menos de US$ 1,841 bilhão para US$ 3,752 bilhões, um ganho de quase US$ 1,912 bilhões, em alta de 103,87%. Os fundos de investimentos continuaram a perder dólares, com saída líquida moeda forte disparando de US$ 188,530 milhões para US$ 1,824 bilhão, quer dizer, quase 10 vezes mais.

 As aplicações em títulos de dívida lideraram a reviravolta dos investimentos em carteira, já que aqueles instrumentos haviam registrado a saída de US$ 6,473 bilhões em janeiro de 2025 e passaram a anotar uma entrada líquida de recursos estrangeiros da ordem de US$ 7,061 bilhões. Entre um mês e o outro, observou-se uma “virada” de US$ 13,534 bilhões.

 De volta à conta de transações correntes, a melhora na balança comercial não veio exatamente das exportações, que chegaram a recuar 1,21% em janeiro deste ano, saindo de US$ 25,592 bilhões para US$ 25,282 bilhões no mesmo mês deste ano, significando uma diminuição de US$ 310,646 milhões.

 As importações de bens deram uma contribuição mais decisiva para a melhora no saldo comercial ao sofrerem baixa de 10,04% no primeiro mês do ano, baixando de US$ 24,196 bilhões para US$ 21,766 bilhões.

 Abrindo um parêntese, como já se sabe, a conta de transações correntes inclui, além da diferença entre exportações e importações de mercadorias, despesas com serviços no exterior, líquidas de receitas na mesma área, a exemplo dos gastos com viagens internacionais, fretes, aluguel de equipamentos importados, além de pagamentos de royalties, juros e remessas de lucros e dividendos para fora do País. Fecha parêntese.

 A conta de serviços igualmente pressionou menos o déficit em transações correntes. Os gastos líquidos com serviços, descontadas receitas eventuais, caíram 12,76%, para US$ 3,972 bilhões diante de US$ 4,553 bilhões em janeiro do ano passado, correspondendo a uma redução de US$ 580,877 milhões nas remessas para cobrir esse tipo de despesa.

 Na área de serviços ainda, a contribuição mais positiva veio da conta de transportes, com as despesas líquidas naquela área despencando 68,72% entre janeiro do ano passado e o primeiro mês deste ano. Ainda seria muito precipitado definir tendências com base em dados de um único mês, mas, de toda forma, o gasto com transporte caiu de US$ 1,443 bilhão para US$ 451,453 milhões, trazendo um impacto de US$ 991,748 milhões para a conta de serviços.

 A pressão maior veio das viagens internacionais, com as remessas de dólares subindo de US$ 978,916 milhões para US$ 1,453 bilhão, quer dizer, US$ 474,083 milhões a mais, expressando um salto de 48,43%. Enquanto os gastos com aluguel de equipamentos importados subiram 21,75% no período, de US$ 944,335 milhões para US$ 1,150 bilhão. Para contrabalançar, as despesas com serviços de telecomunicação, computação e informações baixou 11,94%, saindo de US$ 997,652 milhões para US$ 878,492 milhões.

 As remessas na conta renda primária cresceram 18,73% em igual intervalo, avançando de US$ 7,001 bilhões para US$ 8,312 bilhões, puxadas por altas de 18,3% nos pagamentos de juros (para US$ 3,661 bilhões) e de 16,77% nas remessas de lucros e dividendos (somando US$ 4,654 bilhões).

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos canais de comunicação do O Hoje para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.