Médicos protestam na Câmara de Goiânia contra corte de até 35% nos salários e alertam para risco na rede municipal
Categoria denuncia precarização nas unidades, insegurança contratual e ameaça à continuidade de tratamentos enquanto vereadores cobram explicações da Prefeitura
Médicos da rede municipal de saúde de Goiânia realizaram, nesta quarta-feira (25), uma manifestação na Câmara Municipal contra as novas atualizações contratuais implementadas pela Prefeitura. A mobilização reuniu profissionais da saúde, representantes do Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), pacientes e vereadores da Capital.
Com cartazes e discursos direcionados aos parlamentares, os médicos pediram providências urgentes diante do que classificam como retrocessos nas condições de trabalho e risco à continuidade da assistência prestada à população.
A manifestação ocorre em meio a um calendário de ações definido pela categoria e marca o início de uma série de mobilizações públicas para pressionar o Executivo municipal.
Redução salarial e insegurança contratual
Um dos principais pontos criticados pelos profissionais é o novo Edital de Chamamento Público no 003/2025, que prevê alterações nos vínculos de trabalho e, segundo a categoria, redução salarial significativa.
A médica clínica do Centros de Atenção Psicossocial (Caps) Noroeste, Jessica Ribeiro Matos, relatou que há casos de redução de até 35% nos valores pagos aos profissionais. Questionada sobre as principais dificuldades enfrentadas com a mudança contratual, ela explicou que o problema do edital de credenciamento 003/2025 é justamente a redução salarial dos médicos.
Além disso, segundo ela, há aumento de responsabilidades com a Prefeitura em relação a assuntos administrativos, estrutura e cumprimento de metas. Também foram impostas jornadas de 24 horas seguidas, exigência de presença em reuniões e até penalidades com multa diretamente no salário. “São essas coisas que a gente pediu para a Prefeitura corrigir e eles não atenderam”, afirmou.
De acordo com a médica, foi publicada a portaria 37/2016, que determinava a demissão dos médicos credenciados no dia 28 de fevereiro. A medida, porém, foi suspensa por uma liminar na última sexta-feira (20).
“A gente ficou sabendo na segunda-feira, ficamos felizes demais. A liminar segura os médicos que têm vínculos e contratos antigos, que estão há muito tempo atuando nas unidades de saúde. Eu tenho 10 anos na mesma equipe, estou há três anos no meu Caps”, relatou. Ela destacou que a categoria não queria migrar para o novo edital e que segue lutando na Justiça para reverter a situação, já que poderia perder o emprego até o dia 28 de fevereiro.
Sobre as condições estruturais, Jessica afirmou que os profissionais enfrentam falta de exames e demora prolongada na fila para realização de procedimentos. Segundo ela, consultas liberadas para especialistas não estão sendo comunicadas aos pacientes, que deixam de comparecer por falta de aviso. “Pacientes precisam fotografar o raio-X com o próprio celular para mostrar ao médico. Isso compromete o diagnóstico, porque a qualidade da foto não é a mesma qualidade do sistema de imagem”, afirmou.
Pacientes temem interrupção de tratamento
Pacientes que acompanham tratamentos contínuos também participaram da manifestação. A preocupação principal é a possível troca de médicos responsáveis por casos psiquiátricos e psicológicos, especialmente nos Caps.
Mariana Alexandra, paciente do Caps Noroeste há três anos, afirmou que a substituição de profissionais pode causar prejuízos significativos. “A retirada da minha médica prejudica todo o meu tratamento. Ela conhece meu histórico, sabe como meu organismo reage à medicação. Hoje eu estou estabilizada, consigo trabalhar e manter minha rotina. Ter que começar do zero com outro profissional seria um abalo psicológico muito grande”, relatou.
Ela também destacou que muitos pacientes dependem exclusivamente do atendimento público. “Não temos condições financeiras de pagar atendimento particular. A saúde mental é uma doença silenciosa. A continuidade do cuidado é fundamental.”
Oposição critica gestão e questiona gastos com pesquisa de satisfação
A vereadora Aava Santiago (PSDB) criticou a condução da administração municipal e questionou decisões recentes da Prefeitura de Goiânia. Segundo ela, “não tem lógica trocar um contrato com as organizações sociais que estão atrasando o trabalho dos trabalhadores das três maternidades. Não tem lógica”.
A parlamentar afirmou que há cortes de médicos, atraso nos serviços e problemas para quem estava fazendo a regência dos hospitais. Ao mesmo tempo, criticou a contratação de uma empresa para medir a satisfação dos usuários da saúde ao custo de quase um milhão de reais. “Está contratando uma empresa para medir a satisfação do usuário com a saúde ao custo de quase R$ 1 milhão, por um serviço que vai avaliar se o cidadão está achando a saúde boa. É só ir no Paço. É só chegar lá e ver que não tem água. Não tem raio-X. Não tem insumo. Não precisa pagar R$ 1 milhão sem licitação para saber a situação do cidadão em relação à saúde”, declarou.
O vereador Fabrício Rosa (PT) também fez críticas contundentes à situação da rede municipal. “A saúde está um caos. Faltam equipamentos de raio-X, leitos, insumos básicos e servidores. Desde o início da gestão, há ataques aos servidores públicos”, disse.
Ele ainda questionou a redução salarial prevista no novo edital. “Foi publicado um edital com salário inferior ao que os médicos recebiam. Além disso, há ameaça de substituição de profissionais por outros com remuneração menor. A Constituição proíbe redução salarial. Não é aceitável substituir médicos por outros com remuneração inferior. Isso desvaloriza os profissionais e compromete o atendimento”, manifestou.
O vereador afirmou ser contrário à redução de salários, destacando que a medida não é comum nem no serviço público nem na iniciativa privada. “Eu não gostaria de um salário reduzido. Você não gostaria de seu salário reduzido”, disse, ao defender que a diminuição de vencimentos não é justificável.
Ele argumentou que a posição contrária se baseia na valorização dos profissionais da saúde. Segundo o parlamentar, médicos e demais trabalhadores do setor “merecem respeito” e “dignidade”, o que, na avaliação dele, não tem ocorrido.
Fabrício também criticou as condições das unidades de saúde do município, citando cadeiras velhas, portas danificadas, falta de banheiros e de profissionais. Para ele, apesar das promessas de campanha, o prefeito “não está entregando nada” na área da saúde.
O Simego acompanhou a mobilização e declarou apoio às reivindicações. A entidade defende estabilidade contratual, condições adequadas de trabalho e manutenção da qualidade da assistência à população.
O sindicato afirmou que permanece aberto ao diálogo com o Executivo municipal, mas reforçou que as mudanças precisam ser revistas. A categoria não descarta novas mobilizações caso não haja avanço nas negociações.