Coluna

A degradação da qualidade do emprego, queda da exportação e da produtividade

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 08 de janeiro de 2020

Alguns
indicadores têm sido fonte de preocupação e vêm alimentando o debate econômico
sobre o futuro imediato e de longo prazo do País. Ainda que fundamental, essa
discussão, no entanto, parece ocorrer longe das trincheiras firmadas pelo
ultraliberalismo a partir de Brasília e à margem da política econômica adotada
pelos atuais mandatários. Ao que sugerem análises e trabalhos recentes, parece
haver estreita correlação entre a crise na indústria, gerada pelo ritmo
aceleradoda desindustrialização, com consequente retração da participação do
Brasil no mercado global de bens manufaturados; a deterioração do emprego e a
tendência de queda na produtividade do trabalho, gerando um quadro de perda de
substância e de dinamismo para a economia como um todo e uma incapacidade
notória de atingir novos estágios de desenvolvimento, com maior sofisticação
produtiva e incorporação de setores mais intensivos em tecnologia.

Nesta
semana, utilizando dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), o Instituto
de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostrou que a fatia do
Brasil nas exportações de manufaturas em todo o mundo encolheu de 0,81% para
0,62% entre 2008 e 2018 (e deve ter caído um pouco mais em 2019 diante da queda
de 11,1% registrada pelas vendas externas de bens manufaturados). O Brasil
perdeu posições no setor porque suas exportações cresceram menos do que as de
outras economias emergentes.

Enquanto
China, Índia e México experimentaram taxas anuais de crescimento das
exportações de manufaturados de 5,6%, 5,3% e 4,5%, pela ordem, as vendas
externas brasileiras nesta área avançaram a um ritmo de anual de 1,9% ao ano
entre 2008 e 2018. Problemas de competitividade e de produtividade, avalia o
Iedi, estariam por trás desse retrocesso (assim como os anos de valorização do
real frente ao dólar, tornando muito mais difícil para as empresas brasileiras
competirem lá fora). A participação dos manufaturados na pauta brasileira de
exportações, que havia sido de 44% em 2008, baixou para 34% em 2018 (e não
parece ter saído do lugar no ano passado).

Incertezas

Na
Carta do Ibre publicada na edição deste mês da revista Conjuntura Econômica, Luiz
Guilherme Schymura, diretor doInstituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getúlio Vargas(Ibre/FGV), sugere uma correlação entre informalidade,
produtividade e o clima de incerteza política ainda em cena. A incerteza, no
caso, tornaria o cenário econômico mais turvo, retardando as decisões de
investimento das empresas e refreando as contratações formais, com carteira
assinada e direitos assegurados, na visão do economista. Nesse processo,
registra-se um adiamento no retorno da formalização do emprego para além do que
sugerem as médias históricas. Em geral, a informalização do emprego veio sempre
associada ao aumento do desemprego. Neste momento, o que se verifica é uma
retomada modesta do emprego, mas movida pelas contratações informais, afetando
negativamente a produtividade do trabalho (notoriamente mais reduzida no setor
informal da economia, onde as ocupações não oferecem maiores possibilidades de
crescimento para as famílias, de forma mais restrita, e dificultam uma retomada
mais vigorosa, numa visão mais ampla).

Balanço

·  
Schymura
recorre a dados dos colegas de Ibre, Fernando Veloso e Silvia Matos, que
comandam o Observatório de Produtividade, que mostram queda de 5% para a
produtividade na indústria entre 1995 e 2018, com avanço de apenas 6% no setor
de serviços ao longo de 23 anos e um salto de 358% para a agropecuária (o dado
compara a evolução das horas trabalhadas e do volume produzido por trabalhador
em cada setor de atividade).

·  
Em
2019, a produtividade do trabalho sofreu baixas de 1,0%, 1,6% e de 0,7% no
primeiro, segundo e terceiro trimestres, respectivamente, sinalizando outro ano
de resultados negativos.

·  
Na
série mais recente, o setor de serviços, que concentra, de acordo com Schymura,
70% das horas trabalhadas no País, passou a registrar números negativos desde
2014. Considerando seu peso na economia, os serviços constituem “o principal
fator na péssima trajetória da produtividade brasileira desde 1995”, ressalta
ele, com destaque (negativo) para os segmentos de transportes e “outros
serviços”, que respondem por quase 52% das horas trabalhadas no setor.

·  
A
menor produtividade, nos dados frios, explica-se pelo fato de o emprego estar
crescendo mais do que a economia como um todo, aponta Schymura. Ele cita o
economista Fernando Veloso neste ponto: “a geração de emprego na economia
brasileira já está próxima do período anterior à recessão de 2014-16, mas as
horas a mais trabalhadas não se converteram em aumento
expressivo da produção”.

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Para
Schymura, aquele comportamento explica-se pelo fato de “que os empregos que
estão sendo criados situam-se, na média, em setores e atividades muito pouco
produtivos”, na maioria localizados no lado informal da economia, onde os “empregos
em média (são) quatro vezes menos produtivos do que os do setor formal”.

·  
Não
se trata, aqui, de um demérito para o trabalhador: simplesmente, os setores que
têm permitido alguma forma de ocupação não poderiam ser mais produtivos do que
já são. Mesmo se quisessem e se o momento econômico permitisse, seria muito
complicado encontrar empregos “mais produtivos” – a forma como a economia
brasileira tem se estruturado nas últimas décadas vem excluindo crescentemente
setores com maior sofisticação produtiva, maior uso de tecnologias (que
poderiam acelerar a produtividade) e maior diversificação.

 

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