Coluna

A “grande” melhora. Analistas agora esperam queda de “apenas” 8,8%

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 19 de agosto de 2020

Acreditar
que a economia teria apresentado melhoria já no segundo
trimestre do ano, porque as previsões de queda frente ao trimestre imediatamente
anterior passaram a rondar a casa dos 9,0% e não mais de 10,0% a 11,0%, parece
um preciosismo. Pode gerar manchetes e animar os mercados, de alguma forma. Mas
não passa disso mesmo: um excesso de preciosismo na análise dos dados e das
perspectivas em cena a esta altura para todo o conjunto da economia, ainda
bastante sacrificada pela crise sanitária e, além do mais, sob o risco não
debelado de novas recaídas no total de casos de contágio e de mortes.

As
projeções do Instituto Fiscal Independente (IFI) e da Fundação Getúlio Vargas
(FGV) sugerem retração respectivamente de 8,8% e 8,7% para o Produto Interno
Bruto (PIB) na passagem do primeiro para o segundo trimestre. Na leitura da
FGV, com base em seu Monitor do PIB, o resultado foi o pior registrado pelo
País desde 1980. Em relação ao segundo trimestre de 2019, o tombo foi de 10,5%
na estimativa da FGV. As duas instituições acreditam que o pior momento teria
ocorrido em abril. “Embora as taxas interanuais de maio e junho ainda estejam
muito negativas, já houve melhora dos resultados nestes meses na comparação
dessazonalizada. Estes resultados mostram que, embora a economia esteja no
segundo trimestre em situação pior em comparação ao anterior, no curto prazo já
se observa uma melhora da atividade”,aponta o economista Claudio Considera, que
coordena o Monitor do PIB-FGV.

A
Pesquisa Pulso Empresa, realizada em caráter experimental pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) durante a pandemia, mostra que os
impactos negativos da pandemia sobre o lado real da economia persistiam até a
primeira quinzena de julho, com alguma melhora frente à quinzena anterior.
Entre 2,814 milhões de empresas em funcionamento, em torno de 44,8% anotaram
algum tipo de efeito negativo (44,9% entre as pequenas empresas com até 49
empregados), com taxas mais elevadas nos setores que prestam serviços para as
famílias (55,5%) e no comércio de veículos, motos e peças (52,4%). Na pesquisa
anterior, o percentual de empresas atingidas negativamente havia sido de 62,4%
e de 62,7% entre as empresas com até 49 funcionários. Entre as empresas que
prestam serviços às famílias e da área de veículos, os percentuais variavam de
86,7% a 74,9%.

Por região

Entre
as regiões, o Centro-Oeste apresenta o maior percentual de empresas afetadas,
com 51,0% das empresas afetadas negativamente nos 15 dias finais do mês passado
(62,9% na quinzena inicial de julho). No outro extremo, foi a região com o
percentual mais baixo de empresas que perceberam efeito positivo na crise
sanitária (19,3% diante de 27,0% na média geral em todo o País). Na primeira
quinzena de julho, 15,1% chegaram a anotar um efeito positivo. As vendas
sofreram baixa para 46,8% das empresas acompanhadas na segunda quinzena do mês
(diante de 50,7% na primeira), enquanto 26,1% registraram avanço, ligeiramente
acima dos 21,4% observados na quinzena anterior.

Balanço

·  
A
reabertura econômica trouxe maior fluxo de pessoas, como esperado, mas o
mercado de trabalho continuou piorando, com fechamento de empregos formais,
maior informalidade e alta no desemprego, conforme mostram os dados da mais
recente versão especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (chamada
de PNAD Covid-19).

·  
O
total de pessoas ocupadas recuou de 81,760 milhões para 81,156 milhões de
pessoas entre as semanas de 12 a 18 e de 19 a 25 de julho, correspondendo ao
fechamento de 604,0 mil vagas. Em nove semanas, considerando como referência a
semana entre os dias 17 a 23 de maio, perto de 3,621 milhões de pessoas
perderam o emprego, numa redução de 4,3%.

·  
O
total de desempregados, que havia alcançado 10,037 milhões na semana de 17 a 23
de maio, atingiu 12,902 milhões na semana de 19 a 25 de julho, num salto de
28,5% (2,865 milhões a mais). Esse número ainda crescia “na margem”, como
gostam os economistas. Quer dizer, se comparado à semana imediatamente
anterior, o total de pessoas sem qualquer ocupação registrou elevação de 4,5%
(550,0 mil a mais, já que a pesquisa registrava 12,352 milhões desocupados
entre 12 e 18 de julho). A taxa de desemprego avançou no período de 13,1% para
13,7% (frente a 10,6% na semana de 17 a 23 de maio).

·  
Os
números do desemprego têm sido, de certa forma, “camuflados” pelo número de
pessoas fora da força de trabalho, especialmente aquelas que deixaram de
procurar emprego, mas gostariam de trabalhar. Na versão mais recente da PNAD
Covid-19, referente ao período entre 19 e 25 de julho, esse número chegava a
28,027 milhões, diante de 27,982 milhões na semana de 12 a 18 de julho,
indicando estabilidade. Mas são quase 2,0 milhões a mais do que entre 17 a 23
de maio (26,070 milhões).

·  
O
total de pessoas na força de trabalho, que soma todos os ocupados e os
desempregados que ainda buscavam uma colocação no mercado, passou a representar
55,3% do número de pessoas em idade de trabalhar, um percentual baixo, que se
compara com algo em torno de 62,1% em junho de 2019, considerando a PNAD
Contínua, a versão convencional da pesquisa realizada pelo IBGE. Mantida a
mesma taxa de participação, o número de desempregados saltaria para quase 24,5
milhões (quer dizer, quase 90% a mais), elevando a taxa de desemprego para algo
acima de 23,0%.

·  
A
IFI, subordinada ao Senado, fez a mesma estimativa, mas considerando
exclusivamente os dados da PNAD Contínua. No trimestre encerrado em junho deste
ano, caso a força de trabalho tivesse mantido a mesma participação entre as
pessoas com 14 anos ou mais registrada no segundo trimestre de 2019 (aqueles
62,1%), a taxa de desemprego subiria de 13,3% para 22,8% (ou seja, muito
próxima daquela estimada pela coluna).

 

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