A indústria está “bombando”, ministro? Mas a produção sofre baixas há 3 meses

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 06 de outubro de 2021

A indústria brasileira parou de “bombar” há alguns meses, desconsiderando o otimismo exacerbado do ministro que preferiu deixar parte milionária de seu patrimônio em paraísos fiscais, em busca de proteção contra a turbulenta economia brasileira. A produção industrial sofreu a terceira queda mensal consecutiva em agosto, na comparação com os meses imediatamente anteriores, e sequer conseguiu superar os níveis já achatados do ano passado. Mais do que isto, a tal retomada em “V”, alardeada pelo Ministério da Economia, não se confirma aqui. A produção da indústria em geral continua abaixo daquela realizada em fevereiro do ano passado, antes da pandemia, com 19 entre os 26 setores de atividade acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrando números inferiores ao segundo mês de 2020.

Há problemas nítidos na cadeia de suprimento de setores muito importantes para o setor, a exemplo, entre outros, das montadoras de veículos e fabricantes de equipamentos eletroeletrônicos, mas persistem dificuldades no lado da demanda igualmente, amarrando o desempenho de toda a economia. Na análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), “recuperação industrial está sem pulso e, ao menos por enquanto, a produção não está crescendo em 2021”. De fato, sempre na comparação com o mês antecedente, foram seis quedas nos primeiros oito meses deste ano, sem contar um mês de virtual estagnação – em janeiro, havia sido verificado variação de apenas 0,2% frente a dezembro de 2020, segundo dados “dessazonalizados”, quer dizer, com a exclusão de fatores específicos de cada mês do ano (como festas e feriados, por exemplo) para permitir uma comparação adequada e com menores distorções.

Fábricas paradas

Ainda na visão do Iedi, os problemas são de duas ordens, com “gargalos na obtenção de insumos (um problema global, de fato) e pressões de custos” atingindo a oferta, e a inflação mais elevada corroendo o “poder de compra da população em um quadro de elevado desemprego”, pelo lado da demanda. “Além disso, o ambiente de incerteza se mantém, renovando suas causas sob os riscos da crise hídrica e da tensão política”, acrescenta o instituto. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), um total de 11 fábricas sofreram paralisação total ou parcial durante agosto por falta de semicondutores. Ainda assim, a produção no mês praticamente repetiu o número de julho, com ligeiro avanço de 0,3%, atingindo 164,03 mil unidades, num tombo, de qualquer forma, de 21,9% em relação a agosto de 2020 (quando a produção já havia despencado perto de 22% frente a agosto de 2019).

Balanço

  • No acumulado entre janeiro e agosto deste ano, as montadoras produziram 33,0% a mais do que em igual intervalo de 2020, somando a montagem de 1,476 milhão de veículos diante de pouco menos do que 1,110 milhão de unidades no ano passado. A paralisação virtual da produção entre abril e junho de 2020 está por trás do salto aparente neste ano. Mas, se comparada ao número de veículos montados nos oito meses iniciais de 2019, o setor registra queda de 26,6%.
  • A base de comparação baixa tem ajudado alguns setores a exibirem números vistosos neste ano, mas nem mesmo essa assimetria tem sido suficiente para assegurar ao conjunto da indústria uma recuperação digna do nome. Os indicadores dessazonalizados da produção mostram que a produção de toda a indústria encolheu 6,2% entre janeiro e agosto deste ano, enquanto a indústria de transformação afundou num tombo de praticamente 8,0% quando se compara dezembro de 2020 e agosto deste ano.
  • Em relação a fevereiro do ano passado, a indústria geral apresenta redução de 2,9% nos volumes produzidos, com baixa de 2,7% para o setor de transformação. As perdas mais severas, tomando ainda o mês anterior à chegada do Sars-CoV-02 no Brasil, foram registradas pelas indústrias de veículos, fumo, confecções, móveis e produtos farmoquímicos e farmacêuticos, com quedas, pela ordem, de 20,9%, de 16,9%, de 15,1%, de 8,9% e de 8,6%.
  • Na ponta oposta, de um total de sete setores que conseguiram superar os níveis imediatamente anteriores à pandemia, destacam-se os fabricantes de máquinas e equipamentos (mais 16,9%), o setor de metalurgia (mais 12,8%) e a produção de minerais não metálicos (alta de 11,8%), aqui sob influência da construção civil.
  • Os problemas de demanda surgem com maior nitidez na indústria de alimentos, que chegou a crescer 2,1% na passagem de julho para agosto, com produziu 7,4% menos do que em agosto do ano passado. Entre janeiro e agosto deste ano, a produção de bens alimentícios recuou 2,7% e encolheu 5,5% na comparação entre agosto de 2021 e fevereiro de 2020.
  • A comparação com o mês imediatamente anterior mostra quedas de 0,5%, de 1,2% e de 0,7% para a indústria em geral em junho, julho e agosto (e baixas, na mesma ordem, de 0,7%, 1,3% e 0,7% novamente para o setor de transformação). Na avaliação do Iedi, o cenário atual mostra “um quadro de estagnação na entrada da segunda metade do ano, à medida em que as bases de comparação vão deixando de ser tão baixas.E vale observar que esta falta de dinamismo industrial não está restrita a um ou outro ramo, mas se mostra bastante difundida”, lembrando que quase 54% dos segmentos apresentaram números negativos em relação a agosto do ano passado e que 73% dos setores não conseguiram produzir mais do que em fevereiro de 2020.
  • No acumulado do ano, a produção avançou 9,2% se comparada aos mesmos oito meses de 2020, quando a produção havia registrado um tombo de 8,6%. Ainda assim, em torno de 79,5% do crescimento observado deveu-se ao desempenho de meia dúzia de setores (quer dizer, 23,1% do total), incluindo veículos, máquinas e equipamentos, metalurgia, minerais não metálicos, borracha e plástico (puxados pela indústria de veículos) e produtos de metal.
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