Coluna

A notícia que vem da África e pode afetar o agronegócio em Goiás

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em: 31 de maio de 2021

Marcelo Mariano*

Pela primeira vez, soja da Tanzânia chega à China, e isso preocupa Goiás | Crédito: Reprodução/Twitter

No final de outubro de 2020, uma reportagem do jornal South China Morning Post, com sede em Hong Kong e de propriedade do Grupo Alibaba, me chamou a atenção. Diz a manchete, em tradução livre: “Em busca de novos fornecedores, China deve começar a comprar soja da Tanzânia”.

Segundo analistas ouvidos pela reportagem, o objetivo é reduzir a dependência chinesa da soja dos Estados Unidos e do Brasil. Aquele momento era o auge das recentes turbulências diplomáticas, no contexto da pandemia de Covid-19, dos governos americano e brasileiro com a China.

Mas por que uma notícia do ano passado merece destaque agora? É porque, após sete meses, mais de 120 toneladas de soja da Tanzânia chegaram à China pela primeira vez, conforme anunciou a embaixada chinesa no país africano.

Isso preocupa o Brasil, e mais especificamente Goiás. O complexo soja (soja in natura, bagaços, farinhas e óleo de soja) domina as exportações goianas, representando mais de 35%, de acordo com dados da balança comercial de 2020. Para efeito de comparação, as carnes (de todos os tipos), que aparecem em segundo, não chegam a 20%.

E qual é o principal país de destino das exportações de Goiás? A China, com quase 44% (sem contar Hong Kong e Taiwan). Para que se tenha noção do peso dos chineses nas nossas exportações, o segundo colocado é a Espanha, com apenas 4,41%. Países Baixos (3,37%), EUA (3,35%) e Coreia do Sul (2,8%) completam o ranking dos cinco primeiros.

Quanto às importações, a China também aparece como o principal parceiro. Ao todo, 14,17% do que Goiás importa vem da China, mas, nesse caso, a diferença para os outros países é menor: EUA (11,82%), Alemanha (11,46%), Suíça (6,18%) e Argentina (4,98%).

No plano nacional, a dependência do Brasil na China se repete. O Observatório de Complexidade Econômica, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), mostra que, em 2019, a China foi o principal país de destino das exportações brasileiras (27,6%) e também o principal país de origem das nossas importações (20,5%).

Que fique claro: isso está longe de ser algo positivo. Independentemente de nossa dependência ser com a China ou não, o ideal é ter uma balança comercial diversificada e equilibrada em relação tanto aos produtos quanto aos países.

E a China, ao contrário do que muitos imaginam, não depende do Brasil – pelo menos não na mesma proporção que nós dependemos deles. O Brasil representa apenas 1,41% das exportações e 4,03% das importações chinesas.

Apesar disso, é claro que, atualmente, somos um parceiro importante para a China, mas o problema é que também somos, a médio e longo prazo – e os chineses não costumam ter uma mentalidade imediatista –, um parceiro substituível, já que nossos produtos exportados não têm muito valor agregado e podem ser encontrados em outros mercados.

A última frase do anúncio da embaixada chinesa não me deixa mentir: “A Tanzânia é incentivada a promover suas exportações de soja para a China”. E a tendência é que outros países do continente africano, onde os chineses exercem cada vez mais influência, entrem na jogada.

Não acredito que se curvar à China seja a melhor estratégia. O Brasil, definitivamente, não precisa disso. Por outro lado, evitar conflitos desnecessários já seria um passo importante para não prejudicar setores importantes da nossa economia, como o agronegócio.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia, vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori) e autor do livro “Introdução ao Oriente Médio: um guia em dez perguntas sobre uma das regiões mais importantes e complexas do mundo”. Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

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