Abate de matrizes responde por quase 90% do aumento na produção de carne
O descarte de matrizes bovinas ao longo do ano passado e a produção de carne, assim como o total de animais abatidos, atingiram números recordes na série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 1997. Na soma geral, o País registrou o abate de 42,935 milhões de animais no ano passado, num avanço 8,18% em relação a 39,689 milhões de abates realizados em 2024. A produção de carne bovina cresceu num ritmo levemente mais moderado, refletindo o ligeiro recuo observado na produção por animal abatido. Ainda assim, nos registros do instituto, o volume produzido alcançou a marca histórica de quase 11,1 milhões de toneladas, variando 7,18% na comparação com pouco menos de 10,356 milhões de toneladas um ano antes.
Em números absolutos, os abates anotaram um acréscimo de 3,246 milhões de animais, com a produção apontando um “ganho” de 743,830 mil toneladas. O abate de fêmeas respondeu por 95,3% do crescimento observado para a matança total de bovinos, apontando participação ainda de 89,75% no aumento da produção de carne, como mostram os números do IBGE. No ano passado, foram abatidas 20,109 milhões de vacas e novilhas, gerando 4,322 milhões de toneladas em peso de carcaça, o que se compara com 17,016 milhões de fêmeas levadas a abate em 2024, correspondendo à produção de pouco menos do que 3,655 milhões de toneladas.
Na comparação entre os dois períodos, os abates de vacas e novilhas cresceram 18,18%, numa alta equivalente a 3,093 milhões de cabeças, ao mesmo tempo em que se observou alta de 18,27% na produção de carne, com as matrizes ajudando a engordar a oferta em quase 667,683 mil toneladas. O salto no descarte de matrizes parece marcar o que tem sido considerado como um ponto de virada no chamado ciclo pecuário, com a participação de fêmeas no total abatido saindo de 42,87% em 2024 para 46,83% no ano passado, níveis considerados igualmente recordes e que tenderiam a ceder a partir deste ano, diante do encarecimento dos animais de reposição. A produção de carne a partir do abate de fêmeas, que havia representado 26,92% do total em 1997, chegou a alcançar 35,24% em 2024 e foi elevada para 38,94% no ano passado.
Vitalidade
A pecuária brasileira, destaca a equipe do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, tem demonstrado vitalidade nos últimos anos, conseguindo “renovar recordes de produção e de exportações”. No ano passado, anota o Cepea, “a menor oferta global de carne [associada aos problemas enfrentados pela Austrália, pelos Estados Unidos e pela Argentina naquele setor], os custos competitivos no Brasil e o câmbio elevado impulsionaram a produção (doméstica) e as vendas externas”. A despeito do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, “pela primeira vez, o País exportou mais de 3,0 milhões de toneladas de carne bovina”, o que parece demonstrar que o setor conseguiu driblar impactos eventualmente gerados pela escalada tarifária.
Balanço
- A partir de 2019, numa avaliação mais de médio prazo, as exportações de carne bovina fresca e congelada experimentou um salto de 153,7% em valor, com alta de 96,87% em volume. No ano passado, as receitas alcançadas nas transações do setor com o resto do mundo atingiram US$ 16,608 bilhões frente a US$ 6,546 bilhões em 2019. As estatísticas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que os volumes embarcados subiram de quase 1,570 milhão para 3,090 milhões de toneladas (aproximadamente 27,8% da produção doméstica, diante de 19,1% em 2019), com as receitas cambiais reforçadas pela valorização de 28,87% acumulado pelos preços médios de exportação.
- A China respondeu por 75,66% do crescimento dos volumes despachados para fora do Brasil no mesmo intervalo, já que os embarques direcionados para aquele mercado aumentaram em mais de três vezes, saltando de 497,782 mil para 1,648 milhão de toneladas (num cálculo mais preciso, um aumento de 231,13%). A participação chinesa nas exportações brasileiras de carne bovina passou de 31,71% para 53,34%.
- Medidas em dólares, as vendas de carne bovina para aquele país asiático subiram de alguma coisa acima de US$ 2,685 bilhões para pouco menos de US$ 8,843 bilhões, correspondendo a uma elevação de 229,28%. A cada US$ 1,0 mil exportados a mais pela pecuária brasileira, em torno de US$ 612 tiveram a China como destino final.
- Além de fatores conjunturais, o setor tem experimentado uma espécie de revolução, coincidindo com a maior demanda chinesa e ainda com as exigências daquele mercado, que demanda animais com até 30 meses, conforme Maurício Palma Nogueira, diretor da consultoria Athenagro. Registrou-se uma espécie de corrida para melhorar a genética e a fertilidade das fêmeas, ampliar os índices de reprodução do rebanho e reduzir o tempo para terminação dos animais, observa o consultor, resultando num ciclo pecuário mais curto e numa mudança do perfil dos abates.
- Em sua avaliação, “a pecuária apresenta hoje uma capacidade muito superior para substituição de fêmeas, com o aumento da produtividade diluindo a sua retenção pelos pecuaristas”. No curto prazo, o peso médio dos animais abatidos anotou alguma redução, refletindo a maior proporção de fêmeas, num recuo de 0,92% na passagem de 2024 para 2025, nos dados do IBGE. Mas entre 2015 e 2025, o rendimento de carcaça apresentou crescimento de 8,23% no caso de bois e novilhos, avançando 8,75% para vacas e novilhas.
- Na média, retoma Nogueira, o peso médio das carcaças havia crescido 10,2% de 2014 para 2024, com o rebanho crescendo 14% mesmo com redução de quase 7% na área destinada a pastagens. A taxa de ocupação, em igual período, aumentou 57% ao sair de 0,77 para 1,21 unidades animais por hectare – cada unidade corresponde a um bovino adulto com peso vivo de 450 quilos.
- Os avanços na genética do rebanho, assim como melhorias na área de nutrição, igualmente têm ajudado a dar maior resiliência ao setor. Nos dados mais recentes da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), as vendas de sêmen ao cliente final, considerando apenas a pecuária de corte, cresceram 7,95% no ano passado, avançando de 17,536 milhões para 18,931 milhões de doses. Na comparação com 2019, quando a associação havia contabilizado vendas de 11,809 milhões de doses, houve um aumento de 60,31%.