quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Agropecuária fornece 45% da energia consumida na indústria

Lauro Veiga Filhopor em
Agropecuária fornece 45% da energia consumida na indústria
Cana-de-açúcar - Foto: Elza Fiúza ABr

“A análise da matriz energética brasileira entre 1970 e 2025 evidencia que a bioenergia vinculada ao agronegócio deixou de ocupar uma posição complementar para assumir papel estrutural na oferta e no uso de energia no País”, aponta o estudo “Oferta de energia renovável pelo agronegócio”, realizado pelos pesquisadores Luciano Rodrigues, José Guilherme Belon e Sabrina de Matos Carlos, do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Bioeconomia).

Além de observar certa diversificação nas fontes de geração de bioenergia, principalmente com a entrada do etanol de milho, segundo os pesquisadores, a destinação daquela energia “revela uma inserção ampla na economia brasileira, com predominância da indústria, seguida pelos transportes e pelo setor energético”. O estudo registra, na ponta do consumo, que a energia gerada pela agropecuária, incluindo o segmento florestal, passou a responder por 55% do consumo no setor energético em 2025 e ainda por 45% do consumo de energia na indústria como um todo, “percentual substancialmente superior aos aproximadamente 26% observados nos transportes”. Aquele foi ainda o percentual mais alto observado para o setor industrial em todo o período analisado.

De acordo com a classificação adotada pelo estudo, aquele resultado “significa que quase metade da energia utilizada pela indústria brasileira naquele ano estava associada a fontes de bioenergia originadas do agronegócio”. Para além daquela constatação, prosseguem os pesquisadores, o mesmo resultado sugere uma “dimensão menos evidente da contribuição energética do agro: embora sua associação com biocombustíveis seja mais facilmente reconhecida, sua presença na indústria brasileira é ainda mais significativa em termos relativos”.

 

Para além do agro

Os mesmos dados indicam uma inserção da bioenergia na matriz energética e na estrutura da economia brasileira mais ampla do que se supunha e mostram ainda que “a energia produzida pelas cadeias agropecuárias, agroindustriais e florestais não permanece restrita ao próprio agronegócio, mas é incorporada ao suprimento energético de diferentes atividades econômicas”. Adicionalmente, no interior da indústria, “essa participação apresenta duas características distintas”, anotam os pesquisadores. “De um lado, a bioenergia alcança níveis particularmente elevados em atividades diretamente integradas às cadeias agroindustriais, como alimentos e bebidas e papel e celulose. De outro, e de forma menos intuitiva, também ocupa parcela relevante da matriz energética de segmentos industriais externos ao agronegócio”.

 

Balanço

No ano passado, algo em torno de 43% da energia consumida pela indústria de ferro-ligas e 41% da energia utilizada pelo setor de cerâmica “tiveram origem em fontes classificadas neste estudo como bioenergia vinculada ao agronegócio”, com presença ainda nas indústrias de cimento, mineração, química, têxtil, ferro-gusa e aço e pelotização, entre outras.

“Esse conjunto de evidências amplia a interpretação sobre o papel do agronegócio na estrutura energética brasileira. O setor não apenas produz alimentos, fibras e matérias-primas e tampouco se limita a fornecer biocombustíveis ao setor de transportes. As cadeias do agronegócio produzem energia em escala suficiente para influenciar a composição da matriz energética nacional e abastecer segmentos econômicos que se estendem para além dos próprios sistemas agroindustriais”, avaliam os pesquisadores da FGV Bioeconomia.

Ainda de acordo com o trabalho, para muitos países ao redor do globo, as estratégias de descarbonização “depende predominantemente da substituição de fontes fósseis por eletricidade renovável”.

No caso brasileiro, embora as fontes eólica e solar tenham avançado e assegurado relevância crescente, a bioenergia assegura um diferencial, diante de sua “capacidade de atender demandas energéticas que envolvem combustíveis líquidos e gasosos, calor de processo e eletricidade, alcançando atividades agrícolas, industriais e de transporte para as quais a eletrificação direta não representa, em grande medida, uma alternativa técnica ou economicamente imediata”.

Ao longo de cinco décadas e meia, iniciadas em 1970 e concluídas em 2025, retoma o estudo, a oferta de energia associada ao agronegócio saltou pouco mais de 15 vezes, saindo de 6,5 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep) para 97,8 milhões, o mais alto em toda a série histórica. A participação da bioenergia vinculada à agropecuária e ao setor florestal na oferta interna de energia avançou de apenas 9,7% em 1970 para 29,8% no ano passado.

A bioenergia do agronegócio foi responsável pouco mais de 60% da energia renovável gerada no País em 2025, num total de 162,3 milhões de tep (em torno de 49,4% da oferta interna). Comparado a 2021, quando a oferta de energia renovável havia alcançado 136,7 milhões de tep, registrou-se um incremento de 18,7%, diante de um crescimento de 16,1% no caso da bioenergia associada ao agronegócio.

Numa nota à parte, apenas como registro, um empresário e acadêmico ligado a projetos ambientais e ao setor de produção de alimentos saudáveis e sustentáveis, na descrição do próprio, anota uma mudança de humor entre fundos e investidores, especialmente estrangeiros, interessados em projetos na mesma área.

Já na segunda-feira, dia seguinte ao segundo turno, o empresário em questão passou a receber convites para reuniões e almoços de negócio com aqueles investidores, diante das possibilidades abertas pela perspectiva de manutenção da agenda ambiental do governo. Estas conversações estiveram travadas, na expressão escolhida pelo empresário, durante todo o período eleitoral, com investidores à espera de uma definição das urnas antes de tomarem qualquer decisão, o que sinaliza qual poderia ter sido o cenário no caso de uma vitória da extrema direita no País.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.