Alta no serviço da dívida consome 67% do ganho de renda das famílias
Os números mais recentes do Banco Central (BC) mostram que o tamanho da renda das famílias comprometido com o pagamento do serviço de dívidas, na soma de juros e amortizações (as “prestações” cobradas pelos bancos), fechou o ano passado no nível mais elevado desde que esse tipo de estatística passou a ser divulgado, em março de 2005. Em dezembro passado, as famílias dispenderam algo próximo a 29,19% de seus ganhos apenas para fazer frente às despesas financeiras geradas por uma dívida que se aproximava de R$ 4,439 trilhões, considerando apenas empréstimos e financiamentos contratados no sistema financeiro, correspondendo a 92,6% da dívida ampliada das famílias, então na faixa de R$ 4,783 trilhões.
A dívida bancária cresceu 11,69% na comparação com dezembro de 2024, quando havia somado pouco menos de R$ 3,966 trilhões, correspondendo a uma variação de R$ 463,443 bilhões em 12 meses, o que ajudou a incrementar os custos do serviço dessa dívida (quer dizer, o pagamento de juros e amortizações), pressionados ainda pela escalada das taxas de juros para as pessoas físicas, que saltaram 4,5 pontos percentuais, saindo de 33,1% em dezembro de 2024 para 37,6% no encerramento do ano passado.
A parcela da renda comprometida com juros e amortizações, ao mesmo tempo, avançou de 27,39% no trimestre encerrado em dezembro de 2024 para aqueles 29,19% já anotados acima. As estatísticas do BC não trazem os valores efetivamente pagos pelas famílias para fazer frente ao custo das dívidas contratadas, mas os dados permitem realizar algumas aproximações.
Para calcular o índice de comprometimento da renda, a autoridade monetária compara os valores gastos com juros e amortizações com a renda disponível bruta trimestral, em valores “deflacionados” (quer dizer, descontada a inflação) e ajustados sazonalmente, o que significa desconsiderar feriados e outros eventos que ocorrem na mesma época todos os anos. Utilizando os mesmos dados, a coluna estimou o tamanho daqueles gastos de caráter financeiro nos trimestrais finais de cada ano a partir de 2019, como forma de “eliminar” os efeitos mais dramáticos gerados pela pandemia e todas as suas distorções.
Discrepâncias
A renda nacional bruta disponível das famílias, no cálculo trimestral feito pelo BC e publicado regularmente, apresentou variação real de 5,11% na comparação entre o trimestre final de 2024 e igual intervalo de 2025, saindo de R$ 749,349 bilhões para R$ 787,653 bilhões, o que correspondeu a um ganho de R$ 38,304 bilhões. A aplicação da taxa de comprometimento da renda com o pagamento de juros e amortizações permite estimar uma despesa em torno de R$ 229,916 bilhões no último trimestre do ano passado, o que se compara com algo próximo de R$ 205,247 bilhões nos três meses finais de 2024. A comparação entre os dois valores sugere uma elevação de 12,02% em termos reais (acima da inflação, portanto), num incremento duas vezes mais acelerado do que a variação da renda (ou pouco mais de duas vezes, para ser mais preciso).
Balanço
Mais relevante ainda, o aumento nas despesas financeiras das famílias significou uma transferência adicional de renda das famílias para o sistema financeiro muito próxima de R$ 24,669 bilhões. Em outro tipo de correlação possível, pode-se inferir que perto de 67% do ganho de renda anotado pelas famílias foram consumidos pelo aumento nas despesas com o serviço da dívida.
Abrindo um rápido parêntese, o conceito de renda nacional disponível desenvolvido pelo BC inclui os salários pagos aos trabalhadores, dividendos e outras rendas recebidas por donos de empresas, rendimentos de aluguéis, juros e demais rendimentos de aplicações financeiras, aposentadorias, pensões e benefícios do sistema nacional de assistência social, como os benefícios de prestação continuada, renda mensal vitalícia e Bolsa Família, além de transferências eventuais de renda, a exemplo do auxílio emergencial pago em 2020 e em parte de 2021.
Depois de somar todos aqueles valores, o BC desconta os valores pagos pelas famílias a título de imposto de renda e impostos sobre o patrimônio (como IPTU e ITR), as contribuições para a Previdência e transferências de renda feitas pelas famílias para outras instituições e para fora do Brasil. Fecha parêntese.
Desde o quarto trimestre de 2019, registrou-se uma elevação de 21,68% para a renda bruta disponível, sempre na medição trimestral a valores atualizados com base na inflação e ajustados a fatores sazonais. Naquele trimestre, as famílias havia recebido aproximadamente R$ 647,312 bilhões, montante que anotou um acréscimo de R$ 140,341 bilhões até o quarto trimestre do ano passado.
Naquele trimestre de 2019, a parcela da renda comprometida com o pagamento de juros e amortizações havia alcançado 23,03% (o que significa dizer que ela cresceu 6,16 pontos percentuais em sete anos). Diante dessa relação, pode-se estimar uma despesa financeira na faixa de R$ 149,076 bilhões. Desde lá, portanto, houve um crescimento real de 54,23%, refletindo uma alta nominal de 119,58% observado para o saldo das operações de crédito contratado pelas pessoas físicas.
Em termos reais, considerando a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), aquela dívida saltou 56,0%. Ampliando as pressões, os juros médios para pessoas físicas aumentaram 9,3 pontos percentuais naquele período, escalando de 28,3% para 37,6% ao ano. Essa combinação resultou em um incremento de R$ 80,840 bilhões para os gastos com o serviço da dívida, equivalentes a 57,60% do ganho de renda obtido pelas famílias. Vale dizer, o gasto financeiro ampliado “esterilizou” mais da metade do aumento na renda, reduzindo, obviamente, a capacidade de consumo das famílias.
Esse tipo de pressão tende a ser mantida neste ano, diante da perspectiva de manutenção ou de redução muito gradual da taxa básica de juros, atualmente em 15,0% ao ano. No trimestre entre novembro do ano passado e janeiro deste ano, as concessões de crédito para as famílias, a valores ajustados à inflação e dessazonalizados, somou quase R$ 1,135 trilhão, crescendo 11,21% na comparação com os mesmos três meses terminados em janeiro do ano passado, quando haviam alcançado ao redor de R$ 1,020 trilhão.