Apesar da crise, maiores do agro mantêm investimento em inovação
A acomodação persistente dos preços no setor, a alta de custos e o crédito mais caro elevaram a dívida consolidada do agronegócio, fazendo disparar os números da inadimplência, que passou a superar os 13% no crédito rural destinado aos produtores, quase três vezes acima dos percentuais registrados há um ano. O cenário mais complicado, de toda forma, não deverá afetar as políticas de investimento das principais empresas do setor em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Na área de tecnologias digitais, num exemplo, o diretor sênior de Marketing, Inovação e Tecnologia da Cargill Nutrição e Saúde Animal no Brasil, Marcelo Dalmagro, destaca a ProSense Feed, solução desenvolvida em parceria com a agtech canadense BinSentry, que combina sensores de alta precisão com inteligência artificial para monitoramento em tempo real dos níveis de ração nos silos, em fase de prova de conceito no Brasil até o ano passado. No final de 2025, a empresa apresentou uma nova tecnologia digital com foco na formulação nutricional de precisão, que permite “capturar variações nos ingredientes e garantir que as dietas estejam sempre dentro dos parâmetros desejados”.
Diariamente, a Corteva tem destinado praticamente US$ 4,0 milhões em todo o mundo em PD&I, diante da necessidade de produzir soluções para enfrentar o aumento da população global, novas pragas e doenças e as mudanças climáticas, define Rodrigo Neves, líder de Pesquisa & Desenvolvimento para Proteção de Cultivos, Proteínas e Biológicos da companhia para a América Latina.
Aqueles recursos têm ajudado a turbinar o desenvolvimento de novos produtos em mais de 120 estações de pesquisa ao redor do planeta, dos quais 11 no Brasil – seis deles voltados para o desenvolvimento de sementes. Nos últimos cinco anos, a empresa investiu perto de US$ 170 milhões em expansão e modernização de seus centros de produção e pesquisa aqui dentro.
Edição genômica
Com 270 profissionais trabalhando diretamente em inovação no Brasil e no Paraguai, a Corteva colabora também com parceiros externos na pesquisa de novas tecnologias por meio de sua plataforma de investimentos Corteva Catalyst, que ajuda a identificar oportunidades nas áreas de edição genômica, produtos biológicos e naturais, plataformas tecnológicas e ciência de decisão, descreve Ana Locatelli, líder de Pesquisa & Desenvolvimento para Sementes da companhia. Lançada em meados de 2024, a Catalyst registrou em junho do ano passado seu primeiro investimento em uma startup brasileira, contemplando a Symbiomics, que desenvolve produtos biológicos para o agronegócio.
Balanço
Inaugurado em abril de 2024, o mais recente laboratório da Corteva no País contribuiu para consolidar sua unidade de Mogi Mirim (SP) como maior centro de pesquisa e desenvolvimento integrado de campo para defensivos e biotecnologia da empresa no mundo. O laboratório desempenhou papel relevante na pesquisa, entre outros, do fixador biológico de nitrogênio Utrisha™ N, com uso aprovado para soja, milho e batata desde a safra passada; do fungicida Aproach® Premium, para combate da ferrugem asiática na soja; dos herbicidas Enlist® Colex-D® e Paxeo®, tecnologias desenvolvidas para controle de plantas daninhas; e do inseticida Expedition®, destinado ao manejo de percevejos nas culturas da soja e do milho.
Conforme Locatelli, a Corteva possui ainda “banco de germoplasma em ação com novos híbridos desenvolvidos especificamente para o mercado brasileiro, incluindo aqueles mais tolerantes ao nanismo do milho e ao estresse hídrico”.
“Inovamos impulsionados pela necessidade de desenvolver soluções sustentáveis para a agricultura”, além de assegurar a continuidade do negócio e sua diferenciação no mercado, resume André Savino, presidente da Syngenta Proteção de Cultivos Brasil. Componente central no planejamento da companhia, a inovação tem recebido globalmente US$ 1,4 bilhão a cada ano.
Aqui dentro, Savino ressalta a construção do Centro de Tecnologia e Engenharia de Produtos (PT&E), em Paulínia (SP), o primeiro da Syngenta na América Latina. Inaugurado em outubro do ano passado, num investimento de R$ 65,0 milhões, a unidade abriga seis laboratórios focados em formulações, química analítica, produtos biológicos, engenharia de processos, embalagens e tecnologia de aplicações. Localizado na maior fábrica de formulação e envase da companhia no mundo, o centro tem capacidade para realizar 50 ensaios e gerar aproximadamente 3,0 mil litros de produtos formulados por ano.
Sem detalhar valores, Savino menciona “um incremento notável nos investimentos” num período mais recente, “impulsionados principalmente pela elevação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Uberlândia (MG) à categoria de Centro de Excelência e Inovação em Sementes para toda a América Latina em outubro de 2023”, com expansão das instalações e de sua capacidade.
A equipe de PD&I agrupa duas centenas de funcionários no país, incluindo cientistas, engenheiros e especialistas e áreas diversas, “com grande proporção de mestres e doutores em biotecnologia, química e agronomia, entre outras especialidades”. Os seis laboratórios instalados no Brasil, prossegue o executivo, asseguram autonomia no desenvolvimento de soluções para a agricultura brasileira, além de reduzirem o tempo entre pesquisa e lançamento de produtos e reforçarem a presença da companhia no mercado brasileiro.
Depois de apresentar a molécula Plinazolin® technology, para manejo mais amplo de pragas como percevejos, ácaros, tripes, lagartas e brocas, a Syngenta lançou em 2025 a Tymirium® Technology, molécula fungicida e nematicida destinada ao tratamento de sementes e aplicação no solo voltada para mais 60 culturas, entre elas soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, café e hortifrúti.