Apesar de avanços mais recentes, digitalização engatinha no campo
As pesquisas mais recentes sugerem um longo caminho ainda a ser trilhado pelo agronegócio rumo à transformação digital, envolvendo a adoção de tecnologias da informação, sistemas de gestão, sensores e outras ferramentas inteligentes no campo. Máquinas com sensores de telemetria estão em apenas 3,0% das propriedades e somente 8,0% delas utilizam drones para aplicação direcionada de insumos e manejo de lavouras e de plantéis, enquanto plataformas e sistemas de gestão digitais estão presentes em menos de 10% das fazendas, constata o pesquisador Stanley Oliveira, da Embrapa Agricultura Digital.
Os dados foram apurados, segundo ele, pela Embrapa, pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), utilizando-se ainda estudos de mercado para referendar suas anotações. Em torno de 30% dos produtores adotam agricultura de precisão com o objetivo de reduzir perdas, otimizar a compra e aplicação de insumos, racionalizar o uso de água com sistemas inteligentes de irrigação e melhorar seu planejamento, afirma ainda.
Oliveira observa que, embora 73% dos estabelecimentos rurais estejam conectados, “apenas 35% usam essa conexão para gestão agrícola de fato”. Parte desse cenário está relacionado ao baixo percentual de produtores que receberam treinamento ou algum tipo de capacitação em tecnologias da informação, estimado pelo pesquisador em 22%, além da falta de recursos para ampla maioria de pequenos produtores.
Para aferir o retorno das aplicações tecnológicas no campo, a Totvs desenvolveu o Índice de Produtividade Tecnológica (IPT), que apura o nível de internalização de sistemas de gestão e ganhos de desempenho do negócio e da operação com adoção daquelas tecnologias. Na primeira avaliação cobrindo o agronegócio, realizada em 2024, foram ouvidos 350 participantes de diversos segmentos, com faturamento acima de R$ 200,0 milhões, detalha Fabrício Orrigo, diretor de produtos agro da Totvs. O IPT do setor alcançou 0,58 numa escala que vai de zero a um, ficando atrás apenas do setor de manufatura, com índice de 0,71.
Inescapável
De toda forma, ressalta Oliveira, a digitalização é um caminho inevitável, principalmente pelos resultados que tende a proporcionar. Orrigo lembra, num exemplo, que uma grande trading de café decidiu investir em uma solução digital para o setor de compra e venda, substituindo processos antes realizados manualmente. Com o sistema já implantado e plenamente operacional, o resultado foi um aumento de 30% nos volumes negociados, com menor número de pessoas envolvidas no processo.
Balanço
- Produtora de soja e milho em Lucas do Rio Verde (MT), o grupo GGF investiu num sistema de gestão agrícola – o Totvs Agro Multicultivo – integrado ao centro operacional das máquinas fornecidas pela John Deere, alcançando melhora de 60% na largada das operações agrícolas, já que o operador da máquina passou a ter acesso aos dados em tempo real diretamente no display da colheitadeira ou do trator, com ganho ainda de 30% no tempo de manobra nos talhões, economia no uso das máquinas e menor consumo de combustíveis.
- Rodrigo Capella, diretor geral da Ação Estratégica, projeta que a adoção da inteligência artificial (IA) pelo agronegócio deve experimentar um boom nos próximos três anos, com sua aplicação alcançando 80% do setor, atingindo 100% nos dois anos seguintes.
- O cenário atual, aferido por pesquisa realizada pela empresa de assessoria entre fevereiro e abril do ano passado, mostra que 56% das empresas do setor, incluindo agroindústrias, cooperativas e propriedades rurais, ainda não aderiram a plataformas de IA. Entre 197 profissionais entrevistados, 32% confirmaram a adesão à tecnologia e 12% disseram não saber se a empesa a adota ou não.
- Desde 2020, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) opera no desenvolvimento de projetos inovadores baseados em tecnologias digitais para o agronegócio, conforme seu superintendente de Inovação para Cadeias Agroindustriais e Defesa, Rodrigo Secioso. Naquele ano, 49 projetos naquela área receberam o apoio da estatal, com subvenção de R$ 89,3 milhões. Entre 2023 e 2025, aponta ele, houve aumento nas propostas de inovação bases em TI para o agro, com a contratação de R$ 1,4 bilhão para 29 projetos. Incluindo inovações relacionadas a tecnologias digitais para a indústria de alimentos, aqueles números saltam para R$ 3,1 bilhões, num total de 59 contratos.
- Estudos sobre a pulverização guiada por sensores, comenta Secioso, registraram redução nos volumes aplicados e custos aproximadamente 2,3 vezes mais baixos em certas operações, quando comparadas com a pulverização convencional, poupando recursos e reduzindo impactos ambientais, com gestão mais eficiente dos recursos naturais.
- Com investimentos anuais de US$ 2,0 bilhões em todo o mundo na pesquisa de soluções inovadoras para o agronegócio, a Syngenta, líder global em defensivos e sementes, mais recentemente intensificou o uso de inteligência artificial “especialmente no desenvolvimento de novas moléculas”, assim como na exploração de novos híbridos, com melhora exponencial na qualidade e na velocidade das informações, registra Gustavo Almeida, Head de TI e Digital da multinacional no Brasil. Nos testes a campo, envolvendo novas variedades de sementes, o uso de IA permite antever resultados e acelerar o processo com base em múltiplas variáveis geográficas, climáticas e de tipo de solo.
- Resultado da fusão em 2022 entre a goiana Siagri e a paranaense Datacoper, a Aliare tornou-se uma das maiores plataformas de tecnologia para o agronegócio no país e pretende quase triplicar seu faturamento em cinco anos, saindo de R$ 180,0 milhões esperados para 2025, em torno de 20% acima do resultado de 2024, para algo próximo de R$ 500,0 milhões em 2030, anuncia Carlos Barbosa, CEO da companhia.
- Atualmente com 970 funcionários, em torno de 5,0 mil clientes e 70 mil usuários, a Aliare entrega 14 linhas de produtos para gestão e integração de sistemas e máquinas nos principais polos de produção agrícola, cobrindo uma área equivalente a 3,0 milhões, acrescenta Cicilio Camargo Manfroi, arquiteto de soluções da empresa.
- Os softwares desenvolvidos pela Aliare atendem aos mercados de revendas de insumos e de máquinas agrícolas, cooperativas e propriedades rurais – neste último caso, a partir das plataformas Siagri Agrimanager e MyFarm, solução mais recente e moderna, com interface simplificada, que permite visualizar de forma integrada todos os processos dentro da fazenda, talhão a talhão, eliminando o retrabalho no lançamento de dados para alimentar o sistema.