Coluna

As diferentes comoções em torno de Cuba e Haiti

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em: 19 de julho de 2021

Marcelo Mariano*

Segundo o Google Trends, Cuba chamou mais a atenção dos brasileiros do que o Haiti | Foto: Reprodução/EPA

Fazia tempo que o Caribe, conhecido pelas suas belas praias, não ocupava as principais manchetes das notícias internacionais com a mesma intensidade das últimas semanas, quando acontecimentos em Cuba e no Haiti estiveram em destaque.

Primeiro, a morte do presidente haitiano, Jovenel Moïse, assassinado dentro de sua própria casa, o que aumentou ainda mais as tensões no país. Depois, os protestos de cubanos por mais liberdade e contra o governo e a crise provocada pela pandemia de Covid-19, cujas restrições afetaram o turismo e provocaram escassez de alimentos e remédios.

No caso do Haiti, trata-se de um país frequentemente classificado como Estado falido devido à instabilidade política e social. Desastres naturais, como furacão e terremoto, também contribuíram para o agravamento da situação.

Ex-colônia francesa que ganhou independência no início do século 19 após uma revolta de escravos, o Haiti é considerado um dos países mais pobres do mundo. Já passou por ditaduras de ferro (1957-1986, com Papa Doc e Baby Doc), tem histórico de golpes de Estado e sofre com gangues armadas, que controlam partes do território.

No caso de Cuba, há uma ditadura desde 1959. Nesse ano, chegaram ao poder os comunistas, que, mesmo após o colapso da União Soviética no início dos anos 1990, conseguiram se manter de pé e seguiram com um governo autoritário que persegue opositores.

Há, ainda, um embargo econômico dos Estados Unidos, amplamente condenado pela comunidade internacional, que em nada ajuda a vida da população e acaba servindo de argumento para a retórica do regime cubano.

(Pequeno parêntese: é perfeitamente possível criticar tanto a ditadura cubana quanto o embargo dos EUA, sem precisar escolher entre um e outro.)

No Google Trends, ferramenta que mede a popularidade de termos pesquisados na internet, uma comparação entre as palavras “Cuba” e “Haiti” mostra que a primeira chamou mais a atenção no Brasil durante as últimas semanas (curiosamente, a nível mundial, é o contrário).

Levando o assunto para a polarização da política brasileira, o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula, cada uma a sua maneira, se manifestaram no Twitter sobre Cuba, mas não escreveram uma linha sobre o Haiti, onde recentemente o Brasil comandou uma missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU).

Com populações praticamente iguais, Haiti e Cuba estão na mesma região. Logo, é no mínimo diferente de comparar atentados na França e na Somália, por exemplo. Vale questionar, então, por que a comoção em torno desses dois países caribenhos não é a mesma.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia, vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori) e autor do livro “Introdução ao Oriente Médio: um guia em dez perguntas sobre uma das regiões mais importantes e complexas do mundo”. Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

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