Coluna

As lições do escritor Amós Oz sobre o conflito entre Israel e Palestina

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em: 17 de maio de 2021
Segundo Amós Oz, israelenses e palestinos são filhos de um mesmo opressor e veem um no outro a imagem do pai cruel | Crédito: reprodução

Marcelo Mariano*

Morto em 2018, o escritor israelense Amós Oz foi um dos maiores de sua geração, e não ter vencido o Prêmio Nobel de Literatura é apenas um detalhe em sua trajetória de sucesso.

À parte do trabalho como romancista, Oz, que lutou na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e na Guerra do Yom Kippur, em 1973, foi um dos mais conhecidos ativistas pela paz no conflito entre Israel e Palestina. Ele era defensor da solução de dois Estados.

O lado ativista, para a sorte de seus leitores, também ficou registrado em livros. Na semana em que a escalada de tensões na região não saiu do noticiário, vale destacar duas lições deixadas pelo escritor israelense que podem ajudar a entender o momento atual.

No livro “Como curar um fanático: Israel e Palestina: entre o certo e o certo”, Oz diz que “os palestinos estão na Palestina porque a Palestina é a única pátria e a única terra do povo palestino”.

Ao mesmo tempo, de acordo com ele, “os judeus israelenses estão em Israel porque não existe outro país no mundo onde os judeus, como um povo, uma nação, jamais poderiam chamar de lar”.

Em outras palavras, na visão de Oz, trata-se de um conflito “entre o certo e o certo”, ou seja, os dois lados têm o direito de reivindicar o que reivindicam. Essa é a primeira lição.

A segunda, de certa forma, atribui uma culpa pelos problemas entre esses dois povos. Segundo o escritor, “o conflito israelo-palestino acontece entre duas vítimas do mesmo opressor”, que, no caso, são os europeus.

A Europa, argumenta Oz, “colonizou o mundo árabe, o explorou, o humilhou, tripudiou sobre sua cultura, o controlou e usou como um playground imperialista [e] discriminou os judeus, os perseguiu, os atormentou e por fim os assassinou em massa num crime de genocídio sem precedentes”.

No entanto, em uma relação familiar, “dois filhos do mesmo pai cruel não necessariamente amam um ao outro” e muitas vezes “enxergam um ao outro na imagem exata do pai cruel”.

No caso de Israel e Palestina, a analogia nos permite concluir que alguns israelenses veem nos palestinos o antissemitismo, enquanto alguns palestinos, por sua vez, veem nos israelenses o colonizador.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia e vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori). Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

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