quarta-feira, 22 de abril de 2026

Avanço da descarbonização deve “sacudir” setor florestal

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 22 de abril de 2026

A onda crescente de descarbonização, no Brasil e no resto do mundo, envolvendo, entre outras rotas, a substituição de combustíveis fósseis pela biomassa da madeira na geração de energia, associada ainda à tendência de mais longo prazo de consolidação de mudanças de hábitos de consumo, especialmente na Ásia, com escolhas mais sustentáveis, deverão sacudir o mercado de produtos florestais de forma muito intensa nos próximos anos, “gerando uso e consumo de grandes proporções”, aposta Adriana Maugeri, presidente da Associação Mineira da Indústria Florestal (Amif). “Nesse horizonte, se os projetos anunciados se concretizarem, ainda deveremos observar o avanço da usinas de etanol de milho, grandes consumidoras de biomassa da madeira”, acrescenta.

Dona da maior área de florestas plantadas no país, somando aproximadamente 2,3 milhões de hectares, participando ainda com quase 23% na composição do valor bruto da produção da silvicultura brasileira, lembra Maugeri, Minas Gerais dispõe de espaço para assegurar a expansão futura do setor. Num mapeamento recente, realizado com base nos passivos ambientais declarados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) pelos produtores do Estado, foram identificados 3,3 milhões de hectares em áreas degradadas aptas à implantação de florestas cultivadas, o que permitiria multiplicar em mais de duas vezes o tamanho do espaço atualmente destinado à produção florestal.

Ainda elaborando cenários para um prazo mais longo, Maugeri contempla uma perspectiva bastante real de que os produtos da indústria florestal venham a desempenhar papel relevante na descarbonização em todo o mundo. “Além da produção de energia, observa-se uma tendência também muito forte relacionada à possibilidade de produção de mais de 5,0 mil bioprodutos a partir da madeira, que poderão ter aplicações, entre outras, na substituição de embalagens, tecidos, armações para óculos e mesmo de carenagem de aeronaves, numa tecnologia já em fase de testes”, registra a executiva. As projeções das Nações Unidas, segundo ela, sugerem que a demanda global por madeira deverá dobrar até 2050.

Origem legal

O crescimento esperado para o consumo deve “fortalecer os plantios e propiciar a recuperação de áreas degradadas, mas para que isso ocorra será preciso comprovar que toda madeira vem de manejos sustentáveis e tem origem legal”, recomenda Maugeri, destacando a importância da certificação e da rastreabilidade nesse processo. Na sua visão, o Estado ocupa posição estratégica, não apenas pelo fato de deter a maior área de plantio do país, mas também porque as florestas plantadas estão presentes em 811 dos 853 municípios mineiros. Ainda na mesma linha, Maugeri afirma que os principais clones do eucalipto cultivado em todo o país foram desenvolvidos pelo setor privado em Minas Gerais, sobretudo pela siderurgia, e “isso significa uma vantagem competitiva importante”.

Balanço

Ainda na avaliação da executiva, os investimentos na indústria florestal mineira ficaram travados até 2024 pelo processo moroso de licenciamento ambiental dos empreendimentos naquela área. Em julho daquele ano, conforme a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG), o governo do Estado e o Ministério Público Estadual firmaram acordo, homologado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, simplificando o licenciamento ambiental de plantios acima de mil hectares.

Além disso, numa medida controversa, o Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) eliminou a exigência de estudo e relatório de impacto ambiental para novos empreendimentos de silvicultura. Os prazos de licenciamento, de acordo com Maugeri, foram reduzidos de seis ou 10 anos para até seis meses. “Com a solução dessa parte normativa e um trabalho interessante nas estradas mineiras, o Estado está pronto para voltar a atrair investimentos no setor”, avalia. Antes, pondera, “será preciso que a poeira do cenário macroeconômico e geopolítico se assente um pouco mais para que o setor consiga enxergar além do curtíssimo prazo”.

Única fabricante de aço inoxidável na América Latina e produtora ainda de aços elétricos para transformadores e motores, entre outras aplicações, a Aperam mantêm em hibernação seus projetos de investimentos, afirma o CEO da siderúrgica, Rodrigo Vilela. Segundo ele, o momento atual não tem favorecido a siderurgia, que enfrentou no ano passado a imposição de tarifas pelos Estados Unidos, destino de metade de suas exportações, e ainda importações recordes, na faixa de 6,4 milhões de toneladas, num salto de 170,6% desde 2019.

O movimento mais recente da empresa, realizado entre 2022 e 2024, resultou num investimento de R$ 588,0 milhões na aquisição de 30,0 mil hectares de área florestal, na troca de laminador a quente, destinada a melhorar a qualidade e acrescentar novas opções de produtos na usina instalada em Timóteo, na região conhecida como Vale do Aço.

A área de florestas aproxima-se de 150,0 mil hectares no Vale do Jequitinhonha, dos quais 90,0 mil destinados à produção, base para a produção anual de 440 mil toneladas de carvão vegetal que movimentam integralmente os dois altos fornos da Aperam, desde 2011. Com capacidade para 630 mil a 650 mil toneladas de produtos siderúrgicos acabados, a indústria registra uma pegada de carbono equivalente a 340 quilos por tonelada de placa de aço produzida, quase 60% abaixo da média do mercado mundial, na faixa de 800 quilos por tonelada de aço, graças ao uso do carvão vegetal.

Resultado de tecnologias desenvolvidas internamente, a Aperam produz ainda o biochar, finos de carvão aplicados nas áreas de floresta por sua capacidade de retenção de água e de incremento da fertilidade das árvores. Desenvolvido pela Aperam BioEnergia, maior produtora de carvão vegetal no mundo, instalada no Vale do Jequitinhonha, a siderúrgica iniciou a produção há dois ou três anos do bio-óleo a partir da condensação de gases gerados durante o processo de transformação do eucalipto em carvão, evitando emissões de carbono.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos canais de comunicação do O Hoje para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.