Coluna

“Avanço” da economia, desemprego e degradação do mercado de trabalho

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 03 de dezembro de 2019

A
economia finalmente conseguiu retomar níveis semelhantes àqueles observados no
terceiro trimestre de 2012. Uma “façanha” de fato, alcançada 11 trimestres
depois de decretado o fim da mais recente recessão. Apenas para ser mais claro,
o Produto Interno Bruto (PIB), que vem a ser o indicador que tenta aferir o
tamanho da riqueza das nações, de uma forma bastante imprecisa afinal, atingiu
agora o mesmo “tamanho” registrado há sete anos, o que significa dizer que não
avançou um milímetro a mais no período, enquanto a população cresceu e o
desemprego avançou (e resiste na alta), deixando milhões de brasileiros
alijados das benesses supostamente trazidas pelo crescimento em marcha neste
momento.

A
imprensa mais alinhada aos mercados e, como não poderia deixar de ser, aquela
porção ínfima da população que habita o Planalto Central e, por uma dessas
combinações esdrúxulas da história, decide os destinos do País, celebram os
números do PIB no terceiro trimestre deste ano. Mas o que comemoram, afinal? Há
motivos para tanto? E, mais relevante, pode-se esperar que a onda atual
prossiga ou mesmo que se confirme uma aceleração duradoura da reação (tímida,
modesta, econômica, para ser redundante) daqui para frente?

Comemoram
uma variação de 0,6% do PIB entre o terceiro e o segundo trimestres, quando
havia sido observado um avanço portentoso de 0,5% na comparação com o primeiro
trimestre (que registrou, por sua vez, variação nula para o PIB). E, vejam só,
o número veio ligeiramente acima da taxa de 0,4% projetada pelos mercados. Na
comparação com o terceiro trimestre de 2018, a economia avançou 1,0% – mesma
taxa acumulada em 12 meses, o que apenas confirma o “novo normal” para a
economia brasileira, na descrição do Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Dois
setores, no entanto, continuam quase como excluídos da recuperação em curso,
ainda que a uma velocidade irritantemente baixa. A saber, a indústria de
transformação – responsável pela produção de “bens mais complexos e intensos em
tecnologia”, estabelecendo“grande número de vínculos com outras atividades
econômicas”, na análise do Iedi – e o trabalhador não foram convidados para a
“festa”.

Os excluídos

O
PIB da indústria de transformação sofreu baixa de 1,0% entre o segundo e o
terceiro trimestres deste ano, caiu 0,5% frente ao trimestre julho-setembro de
2018 e acumula redução também de 0,5% nos 12 meses terminados em setembro deste
ano, comparados aos 12 meses imediatamente anteriores. Resumindo, não houve
crescimento nesta área. No mercado de trabalho, o aumento no total de pessoas
ocupadas tem sido impulsionado pela busca das famílias por uma colocação –
qualquer uma – de forma a compensar a perda de renda sofrida em função do
desemprego, que ainda atinge 12,4 milhões de pessoas. O número de ocupados saiu
de 92,619 milhões no trimestre encerrado em outubro do ano passado para 94,055
milhões em igual período deste ano, com a contratação de 1,436 milhão de
pessoas a mais (mais 1,55%). Praticamente 62,5% dessas novas ocupações foram
preenchidas por trabalhadores sem carteira assinada e sem registro no Cadastro
Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). O número de “sem carteira e sem CNPJ”
avançou de 38,394 milhões (41,45% do total de ocupados) para 39,291 milhões
(41,77%), num acréscimo de 897,0 mil (2,34% a mais).

Balanço

·  
A
baixa inflação, os cortes nas taxas de juros, a liberação de recursos do Fundo
de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a melhora relativa na oferta de
crédito operam para criar condições para que a economia continue a apresentar
taxas positivas no curto prazo.

·  
Os
mercados esperam que a economia cresça 2,2% em 2020, depois de avançar um pouco
mais do que 1,0% neste ano. Até aqui, como visto, os números têm sido muito
modestos para estimular as empresas a retomarem as contratações, sobretudo no
mercado formal, a um ritmo que possa vir a dar sustentação a taxas mais
alentadas de crescimento para a atividade econômica como um todo a prazos mais
longos.

·  
O
Iedi avalia que o fato de a economia ter conseguido avançar numa velocidade
mais próxima daquela observada no final de 2018 significa que a esperada
“aceleração de fato não veio”. Ressalvando os sinais de atenção emitidos pela
indústria de transformação, que enfrenta sua recessão particular, prossegue o
instituto, não se deve desprezar os dois mais recentes resultados apresentados
pelo PIB, com “altas razoáveis para o padrão atual de crescimento”.

·  
O
consumo das famílias, que havia desacelerado seu ritmo de crescimento para 0,2%
no segundo trimestre (em relação aos três meses imediatamente anteriores),
apresentou incremento de 0,8% no terceiro trimestre. Na comparação com os três
meses terminados em setembro de 2018, as famílias consumiram 1,9% a mais,
diante de variação de 1,8% no segundo trimestre deste ano.

As flutuações parecem guardar certa relação com
o movimento registrado pela massa salarial expandida e disponível, medida pelo
Banco Central (BC), com base em dados do IBGE. No primeiro semestre, quando o
consumo das famílias teve variações ainda mais modestas, a massa salarial
chegou a encolher 9,9% na comparação entre o trimestre finalizado em janeiro e
igual intervalo concluído em junho deste ano. Dali até o trimestre móvel
encerrado em outubro, a massa apresentou recuperação de 6,9% (mas ainda se
mantinha 3,65% abaixo dos números de janeiro). 

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