BC desmente o ministro e mostra economia anêmica

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 16 de outubro de 2021

O ministro dos mercados e paraísos fiscais mente dia sim e outro também. Como se sabe, mentiras em geral têm vida curta, dito que o desgoverno de Brasília tenta desbancar a todo custo. Pois as mentiras mentidas pelo senhor ministro mal conseguiram atravessar a Esplanada dos Ministérios, na capital federal, e esbarraram no prédio do Banco Central (BC), logo ali pertinho, no comecinho da Asa Sul. Em seu desvario diário, Paulo Guedes tenta convencer corações e mentes da Faria Lima e, agora, de Wall Street que o Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil navega num mar de tranquilidade. Mais do que isto, vem crescendo mais e em velocidade mais acentuada do que todo o resto do mundo, a despeito de tudo e todos que “jogam contra” o ministro e sua turma.

Na sexta-feira, o BC divulgou a edição mais recente de seu Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que pretende antecipar o comportamento da atividade econômica como um todo com base em uma série de indicadores já conhecidos (dados da produção industrial, das vendas no varejo, do setor de serviços, exportações, importações, mercado de trabalho e outros). Em geral, segundo a equipe técnica do BC, o IBC-Br costuma apresentar o que os economistas chamam de “aderência” em relação ao comportamento efetivamente verificado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) para o conjunto da economia. Mais claramente, na versão da autoridade monetária, os dois indicadores – IBC-Br e o PIB real – tendem a caminhar na mesma direção no médio prazo, embora nem sempre com a mesma intensidade.

O indicador do BC, contrariando o ministro, sugere que a economia parou de mover desde abril e chegou a recuar 1,4% entre fevereiro e agosto deste ano, na série dessazonalizada (quer dizer, expurgada de fatores típicos de cada período do ano e que poderiam distorcer a comparação mês a mês). Na saída de julho para agosto, sempre levando em consideração os dados consolidados pela autoridade monetária, o IBC-Br recuou 0,15% – parece modesto, mas sugere um padrão de reduzida capacidade de reação. Na comparação com fevereiro do ano passado, antes da pandemia, o indicador do BC para a atividade econômica sugere uma estagnação virtual, com leve recuo de 0,19%. Mas, como a economia foi literalmente achatada nos meses seguintes, as comparações com o ano passado continuam a mostrar o que parece ser uma recuperação vigorosa, o suficiente para o ministro sediado nas Ilhas Virgens Britânicas atiçar sua sanha delirante, recorrendo a dados reais para manipular a realidade.

Baixo dinamismo

Comparado a agosto do ano passado, o IBC-Br apresentou elevação de 4,74% e acumulou no ano alta de 6,41%. Mas, mesmo nesse tipo de comparação, o indicador mostra evidente desaceleração. Em maio, junho e julho, sempre em relação a meses idênticos de 2020, o indicador havia apresentado variações de 14,05%, 8,45% e de 5,44% respectivamente. Numa obviedade ululante, o desaquecimento está diretamente relacionado à “despiora” da atividade nos meses seguintes ao início da pandemia, quando as medidas mais duras de distanciamento social começaram a ser afrouxadas. Isso mostra, sob certo aspecto, que a tal retomada não tem tido fôlego nem sugere que terá a duração necessária para que a economia consiga romper o círculo de baixo dinamismo observado desde o final da recessão de 2014/16.

Balanço

  • Num balanço mais geral sobre o nível da atividade, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi)avalia que os “sinais de enfraquecimento” são “cada vez mais evidentes, já que as bases de comparação não estão mais tão deprimidas”, o que reforça as observações feitas neste espaço. Os números iniciais deste segundo semestre permitem observar uma economia ainda em frangalhos e com dificuldades nítidas para voltar a crescer na intensidade necessária para permitir uma retomada mais firme do emprego, com redução mais acelerada do desemprego, o que traria impactos relevantes para a renda e a demanda de forma mais ampla.
  • Dois entre os três grandes setores econômicos, reforça o instituto, “ficaram no vermelho em agosto”, cabendo ao comércio “a maior perda” e à indústria “a pior trajetória”. No seu conceito mais amplo, incluindo concessionárias de motos e veículos, lojas de autopeças e de materiais de construção, como já registrado aqui, as vendas do varejo caíram 2,5% em agosto frente a julho, enquanto a produção industrial recuou 0,7% na mesma comparação. Em oito meses, desde janeiro deste ano, a indústria registrou seis meses de perda, o que dá uma dimensão do tamanho do problema.
  • Mesmo em comparação com o ano passado, tanto as vendas quanto a produção industrial “não conseguiram crescer”. Para o Iedi, “além do elevado desemprego e das incertezas ainda presentes – muitas com origem na esfera política –, contribuem para este quadro a persistente elevação da inflação (preço de commodities, câmbio, crise hídrica etc.) e os desequilíbrios nas cadeias produtivas. A convergência de trajetórias da indústria e comércio pode não ser casual, já que o varejo é um importante canal de escoamento da produção industrial”.
  • Ainda no comércio, onde os maus resultados foram registrados por 70,0% dos ramos varejistas, o Iedi identifica “dois padrões adversos”. Num primeiro eixo, o instituto inclui os setores que têm experimentado estabilidade, quer dizer, com taxas muito próximas de zero – supermercados, alimentos, bebidas e fumo; veículos e autopeças; produtos farmacêuticos e de perfumaria.
  • No segundo grupo, estão os segmentos que passaram a apresentar quedas sucessivas, “após um período de resultados erráticos” – material de construção; combustíveis e lubrificantes; equipamentos de escritório, informática e comunicação; móveis e eletrodomésticos; livros, jornais e papelaria.Na indústria, prossegue o Iedi, as perdas têm sido espalhadas, atingindo 58% dos ramos industriais e 47% dos Estados.
  • Até mesmo o setor de serviços registrou certa acomodação ou desaceleração, após um período de números fortemente negativos até recentemente. Em relação ao mês imediatamente anterior, a atividade no setor avançou apenas 0,5% em agosto, depois de avanços de 1,8% e de 1,1% em junho e julho. Frente ao mesmo mês de 2020, o nível da atividade dos serviços, que chegou a crescer 23,3% e 21,1% em maio e junho, variou 16,7% em agosto (sobre um mês em que a queda havia sido de 10,0% em 2020).
  • Em relação a fevereiro do ano passado, o setor apresentou em agosto deste ano elevação de 4,6%, mas os serviços prestados às famílias ainda apresentavam retração de 17,4%. Na comparação com novembro de 2014, quando registrou seu melhor resultado na série histórica, persiste um tombo de 7,1%. Para se ter uma visão do estrago no setor, em maio do ano passado, essa distância chegou a ser de 27,7%.
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