terça-feira, 25 de agosto de 2026

Bets drenam renda, reduzem PIB e agravam injustiças e o déficit público

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em
Bets drenam renda, reduzem PIB e agravam injustiças e o déficit público
Foto: ABr

O avanço incontido das bets, as plataformas de apostas virtuais que passaram a dominar vários aspectos da vida nacional, incluindo a publicidade em praticamente todas as áreas, tem contribuído para agravar distorções, com efeitos perniciosos sobre toda a economia, como mostra estudo publicado ontem e realizado pelo economista Guilherme Klein Martins, pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP).

Nas estimativas do economista, apenas no ano passado as apostas teriam retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica, “em razão da redução do consumo, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB)”. Para reforçar sua dimensão, Klein mostra que as perdas corresponderam “a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro”. O quadro praticamente não se altera se considerados os quase 15,5 mil empregos gerados pelas plataformas, “cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia”, conforme estimativa da LCA Consultores.

Como norma geral, anota Klein, o avanço daquelas plataformas tem despertado preocupações em relação a “riscos de vício e seus impactos sobre a saúde”, assim como efeitos sobre o “endividamento e a situação financeira das famílias”, considerando que parte dos rendimentos familiares termina alimentando, todos os meses, a ciranda das apostas e, portanto, afetando a capacidade de pagamento da população.

“Há, porém, uma dimensão menos explorada desse fenômeno. Quando uma parcela relevante da renda das famílias é transferida para as casas de apostas, os efeitos dessa transferência ultrapassam o orçamento doméstico”, registra Klein. No exercício divulgado agora, o economista busca então “dimensionar esses impactos sobre o consumo, o PIB, a arrecadação e a distribuição de renda” – justificando o título do trabalho – “O custo econômico das bets: efeitos sobre PIB, arrecadação e desigualdade”.

 

Perda de receitas

Entre outras conclusões, como parcialmente detalhado acima, o estudo sugere que as bets, ao drenarem o rendimento das famílias, reduzindo seu consumo e piorando o cenário de endividamento já experimentado nesta área, afetam negativamente a geração de riquezas, geram redução na arrecadação e pioraram a concentração da renda. No caso da arrecadação, o trabalho considera, “em linha com diferentes estimativas”, que uma redução de um ponto percentual no PIB vem acompanhada de baixa entre 0,8% e 1,2% na arrecadação. “Como a carga tributária bruta do Governo Geral foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica estimada acima implicaria uma perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões”, registra ele. Mas é preciso descontar quase R$ 9,0 bilhões arrecadados diretamente com a cobrança de impostos sobre as plataformas de apostas, que deixaria um “efeito líquido negativo sobre as contas públicas” de pelo menos R$ 22,0 bilhões, com possibilidade de alcançar até R$ 46,0 bilhões a depender dos fatores considerados.

 

Balanço

O total da arrecadação perdida corresponde a algo entre 10% e 20%, respectivamente, de todo o orçamento destacado para a saúde pública na Lei Orçamentária Anual de 2025. Em resumo, reforça Klein, “embora as bets gerem arrecadação direta, a perda de atividade econômica que provocam mais do que compensa essa receita”.

Numa dimensão não explorada pelo economista, mas igualmente relevante, a queda na arrecadação ditada pelo menor consumo representou qualquer coisa entre 40% e 83,6% do déficit primário acumulado no ano passado pelo setor público, próximo de R$ 55,021 bilhões ou em torno de 0,43% do PIB. Sem aquela perda, portanto, o déficit poderia ter flutuado entre R$ 33,0 bilhões e R$ 9,02 bilhões, 40,0% a 83,6% mais baixo, variando entre 0,26% a 0,07% do PIB, quer dizer, quase zerando a conta. Como se percebe, a frustração de receitas no setor público termina elevando o déficit nesta área, com impactos ainda que marginais também sobre a dívida pública consolidada.

Em outra hipótese considerada pelo trabalho, caso se considere que toda a transferência líquida de renda para as bets fosse financiada pela contratação de novos empréstimos, “uma hipótese extrema”, segundo o economista – o endividamento das famílias teria aumentado em 14%.

Em outro efeito perverso, numa “primeira aproximação”, as apostas teriam ampliado a concentração da renda entre o 1% mais rico em 0,5% a 2,1% – “um efeito significativo em um País em que a concentração de renda já é extremamente elevada”

Entre outros dados, o trabalho considera que, no ano passado, segundo estudo divulgado recentemente pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, as famílias transferiram liquidamente para as plataformas de apostas qualquer coisa ao redor de R$ 62,5 bilhões, o que correspondeu a 0,68% da renda nacional bruta disponível das famílias, que atingiu R$ 9,177 trilhões nos cálculos do Banco Central (BC). A transferência líquida, no caso, conforme detalha Klein, corresponde à diferença entre os valores apostados e aqueles recebidos de volta a título de premiação.

“Esse é um montante expressivo e pode acarretar uma série de problemas, como cortes em despesas essenciais, dificuldades para honrar compromissos financeiros e aumento do endividamento”, registra Klein. Mas os impactos, adianta ele, não se resumem à economia doméstica, desdobrando-se pelo restante do setor econômico.

Sob um ponto de vista mais macro, observa Klein, “o fato de que apenas parte do dinheiro gasto com apostas retorna às mãos das famílias implica uma redução do consumo, afetando negativamente o crescimento do PIB e a própria arrecadação do governo”.

O trabalho, prossegue Klein, considera estimativas sobre a “propensão marginal a consumir” de acordo com faixas de renda diferentes, incluindo previsões sobre quais os valores destinados às apostas em cada faixa de rendimentos. Essa “propensão marginal” mostra qual o percentual da renda adicional recebida pelas famílias “acaba se transformando em consumo” e tende a ser maior quanto menor a renda familiar.

No caso das famílias de renda mais baixa, “como uma parcela maior de suas necessidades ainda precisa ser atendida, um aumento de renda costuma se transformar mais diretamente em gastos com alimentação, moradia, vestuário, por exemplo”. Entre as famílias de renda mais alta, o comportamento tende a ser inverso, já que “uma parcela maior da renda adicional pode ser poupada”. Desta forma, aponta Klein, “quanto mais concentrada nas famílias mais pobres for essa perda de renda para as bets, maior será o efeito sobre o consumo agregado” (que dizer, sobre o consumo total na economia).

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