sexta-feira, 24 de abril de 2026

Biocombustíveis passam a abastecer frotas de veículos também no campo

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 24 de abril de 2026

As inciativas para descarbonização de frotas no campo e nas estradas têm mobilizado as indústrias de máquinas agrícolas e de equipamentos rodoviários, usinas de cana, provedores de soluções para o setor de biocombustíveis e pelo menos uma startup. A E-OXY, instalada em Lençóis Paulistas, no interior de São Paulo, desenvolveu tecnologia que permite uma “reengenharia controlada do motor a diesel” – troca de itens como velas de ignição e bicos injetores e inclusão de uma central eletrônica com software próprio –, o que proporciona aumento de até 25% na potência e de 10% a 15% em torque, permitindo uma operação eficiente e segura, resume Murillo Galli, sócio fundador da startup. A vantagem estratégica, lembra ele, será a redução da dependência histórica do País em relação ao diesel.

O trabalho de pesquisa e desenvolvimento foi iniciado ainda em 2022, mas a E-OXY já havia observado, lá atrás, o “desalinhamento” que persiste até hoje no setor, na observação de Galli. “O Brasil domina a produção de etanol, tem escala, logística, num setor que ganhou ainda maior relevância com o etanol de milho, mas continua extremamente dependente do diesel justamente nas operações mais intensivas, inclusive dentro da própria cadeia de produção do etanol”, afirma. A reengenharia de motores a diesel envolveu o desenvolvimento de sistemas de gestão eletrônica dedicada e de injeção adequadas ao etanol, com aplicação ainda de materiais, peças e componentes apropriados a esse tipo de operação. “A solução da E-OXY não é uma simples conversão, ela é um retrofit, uma reengenharia controlada do motor para que ele passe a operar com etanol de forma eficiente e segura”, afirma ainda.

 

Ajustes

Segundo Galli, a tecnologia consegue assegurar aos motores um “ganho consistente de desempenho”, com aumento entre 20% a 25% na potência e de 10% a 15% no torque, “operando em menor rotação do que o motor a diesel original”, o que faz pressupor menor desgaste e vida útil potencialmente mais longa do equipamento a etanol. Ainda na comparação com a versão a diesel, observou-se redução de 98% nas emissões de dióxido de carbono equivalente, eliminação de compostos de enxofre nas emissões e “redução significativa de material particulado visível e de óxidos de nitrogênio”, aponta ainda.

 

Balanço

“A instabilidade geopolítica e a volatilidade dos preços do petróleo tendem a acelerar a busca por soluções mais previsíveis e sustentáveis, favorecendo tecnologias como a transformação de veículos e equipamentos especialmente em setores de consumo mais intensivos de combustíveis, a exemplo do transporte pesado, agronegócio e operações industriais”, avalia Durval Garça, gerente comercial de energia e descarbonização da Tupy.

Por meio de sua subsidiária MWM Motores e Geradores, a Tupy desenvolveu tecnologia que permite a substituição completa de motores a diesel por versões mais dedicadas e desenhadas especificamente para operar com biometano, gás natural ou etanol, “garantindo mais eficiência, confiabilidade e melhor desempenho”.

No caso dos motores a biometano e gás natural, a MWM utiliza a base tecnológica fornecida pela chinesa Yuchai, uma das maiores fabricantes de motores do mundo, numa parceria firmada no ano passado, mas todo o desenvolvimento da aplicação, sua integração e validação foram realizadas pela engenharia da companhia brasileira. “Já os motores a etanol são baseados em uma plataforma da MWM com tecnologia 100% brasileira”, destaca Garça.

Os projetos já em operação, sustenta Garça, sinalizam uma redução de até 30% nos custos com combustível, além de ganhos ambientais, entre outras vantagens. A tecnologia desenvolvida pela MWM já é aplicada a caminhões e ônibus, máquinas agrícolas e tratores de roda, motobombas para irrigação, nos geradores produzidos pela própria Tupy, entre outros motores estacionários.

AGCO e CNH, duas gigantes da indústria de máquinas e implementos agrícolas, também se movimentam para oferecer ao mercado unidades com motorização a biocombustíveis em substituição ao diesel. Na edição deste ano da Agrishow, a ser realizada em Ribeirão Preto (SP) entre 27 de abril e 1º de maio, a Valtra, do grupo AGCO, vai apresentar sua linha de motores a etanol e biometano, segundo Fábio Dotto, diretor de marketing de produto Valtra e Fendt.

A CNH antecipou-se e apresentou no Brasil seu trator New Holland a biometano em 2020. Com 152 cv, o trator multipropósito tem sido destinado principalmente para usinas de cana, esmagadoras de cítricos, indústrias de celulose e papel, além de granjas de suínos e produtores de leite.

Na Agrishow do ano passado, a CNH apresentou uma colhedora de cana e o trator Puma, de 230 cv, movidos a etanol, sob a marca Case. Unidades daqueles dois produtos estão em fase de testes na usina da São Martinho, em Pradópolis (SP). Além disso, a Case vai apresentar a pá carregadeira modelo 721E, movida a etanol, na Agrishow deste ano, fechando um circuito de máquinas e equipamentos inteiramente movidos a biocombustível produzido localmente, o que tende a interromper o “passeio do diesel”, especialmente no Centro-Oeste, reduzindo custos operacionais no setor.

Com capacidade para produzir 3,3 bilhões de litros de etanol por safra e 750 mil toneladas de açúcar VHP, além de cogerar perto de 4,2 mil gigawatts/hora de energia, a Atvos investe R$ 350 milhões na construção de sua primeira planta de biometano em Nova Alvorada do Sul (MS), com capacidade anual para 28,0 milhões de metros cúbicos.

A previsão é de que a unidade Santa Luiza, nome da usina de biometano, inicie sua operação até o final deste ano, adianta Alexandre Maganhato, vice-presidente de tecnologia e engenharia da empresa. Produzido a partir da vinhaça e da torta de filtro, resíduos do processamento da cana, o biometano deverá abastecer sua frota de veículos pesados, numa parceria com a Scania, reduzindo em até 90% as emissões de poluentes, conforme o executivo.

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