segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Cecília, a médica que não gosta de crianças

Luana Avelarpor Luana Avelar em 3 de agosto de 2026 às 08:58
Cecília, a médica que não gosta de crianças
Em romance de humor ácido, Andréa del Fuego constrói uma anti-heroína fria e contraditória, desafiada pelo primeiro vínculo afetivo de sua vida

Cecília é pediatra, mas não gosta de crianças. Escolheu a medicina não por vocação, mas pela comodidade de ter um pai médico com consultório no mesmo andar. Trata os pacientes com distância calculada, evita criar laços e conduz a carreira com a mesma frieza com que enfrenta um casamento sem sentido e um marido em depressão. É a protagonista de “A Pediatra”, romance que apresenta uma das vilãs mais improváveis e cativantes da ficção brasileira recente.

A história começa com esse retrato preciso de uma mulher de humor vil e inteligência afiada. Cecília se envolve com um homem casado cuja esposa está grávida e, na sequência irônica que a narrativa constrói, acaba sendo a responsável pelo parto dessa criança. É justamente esse bebê que vai despertar nela os primeiros lampejos de carinho, colocando em xeque toda a armadura emocional que construiu ao longo da vida.

A escrita dá o tom logo nas primeiras páginas. “Marido infeliz mina até um jequitibá. Eu jogava na cara dele a rigidez das minhas articulações, uma fibromialgia se instalava por sua culpa. Ele estava havia meses de folga da construtora da família, os tratamentos para depressão surtiam efeito no início. No começo eu me animava, quando ele voltava ao lodo, eu me alongava na rua, do consultório ia para o supermercado comprar congelado e planta, chegava com ele já dopado no quarto”, revela o trecho da página 2, que já estabelece o ritmo seco e cortante da narrativa.

A vida profissional também entra em ebulição com a chegada de um novo colega, médico humanista que trabalha com doulas e partos naturais e começa a conquistar as pacientes que antes eram fiéis a Cecília. O embate entre os dois métodos opostos vai tirando a protagonista da zona de conforto e forçando-a a questionar a barreira emocional que sempre a separou dos pacientes.

O resultado é um romance que faz o leitor torcer por uma personagem que, em tese, não merece simpatia. A construção de Cecília é precisa justamente porque não a redime fácil nem a condena sem julgamento. Ela permanece singular, sagaz e contraditória até o desfecho, tornando difícil qualquer pausa na leitura.

A autora

ANDRÉA DEL FUEGO nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e mestre em Filosofia pela USP, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Nego tudo (Fina Flor, 2005), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e As miniaturas (Companhia das Letras, 2013), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), ganhou o Prêmio Saramago de literatura.

 

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