Coluna

China “troca” a soja em grão pela importação de carne suína e de frango

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 08 de novembro de 2019

Em
meio ao conflito comercial ainda não debelado envolvendo as duas maiores
potências do globo e a incidência igualmente ainda não contida da febre suína
africana nos mercados da região asiática, com impactos mais devastadores sobre
o rebanho suíno chinês, há uma janela de oportunidades aberta para o Brasil
neste momento, especialmente no setor de carnes, conforme sugere o especialista
em planejamento estratégico do agronegócio Marcos Fava Neves.

Segundo
dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), os
chineses reduziram fortemente as compras de soja em grão do Brasil, tendência
não limitada ao mercado brasileiro, embora a redução venha ocorrendo em menor
escala para o restante do mundo. Em troca, vêm ampliando as importações de
carnes, destacadamente no caso de suínos e aves. A mudança no perfil das
exportações do agronegócio brasileiro para a China, ainda que determinada por
questões conjunturais, favorece de certa forma o setor, quando analisado de
forma agregada, já que as compras chinesas passam a privilegiar produtos com
valor agregado mais alto do que a soja em grão (que, no entanto, continua a
predominar na pauta das exportações brasileiras para o país asiático).

A
commodity respondeu por 70,4% de tudo o que o agronegócio brasileiro vendeu
para os chineses nos primeiros nove meses deste ano, o que se compara com uma
fatia de 79,4% no acumulado entre janeiro e setembro do ano passado. A China
foi o destino de pouco menos de um terço (31,9%) das vendas externas do setor,
diante de uma participação de 36,2% em 2018, sempre no acumulado até setembro. A
queda nos embarques para os portos chineses, por sinal, foi o fator principal
por trás do recuo experimentado pelas exportações totais do agronegócio neste
ano.

A
peste suína reduziu o plantel chinês em 41%, adianta Fava Neves, com base em
dados do Mapa. Relatório publicado em outubro pela Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aponta ainda, estima que 6,692
milhões de suínos já teriam sido sacrificados nos países asiáticos,
contaminados pela peste. O Rabobank projeta para este ano uma retração de 25%
na produção de carne suína na China, onde os preços nos supermercados teriam
experimentado alta de 84% em 12 meses.

“Isto
criará inflação de preços e problemas a outros importadores de carnes no mundo,
e para o Brasil uma oportunidade, traduzida em aumento do número de plantas
brasileiras habilitadas, que pulou de 64 para quase 90, e nos volumes e preços
de exportações. Temos de aproveitar e tomar medidas drásticas para que o
problema não contamine a produção brasileira, que é o maior risco”, sustenta
Fava Neves.

Em baixa

Nos
nove meses encerrados em setembro passado, o setor exportou US$ 71,979 bilhões,
respondendo por 43,0% das exportações brasileiras totais, mas em baixa de 5,7%
em relação aos US$ 76,319 bilhões exportados em igual período de 2018 (num
recuo de US$ 4,340 bilhões). As vendas para a China caíram de US$ 27,619
bilhões para US$ 22,932 bilhões, num tombo de praticamente 17,0% (quer dizer,
encolheram US$ 4,687 bilhões). Os embarques de soja em grão despencaram 26,4%,
saindo de US$ 21,941 bilhões para US$ 16,142 bilhões (ou seja, US$ 5,799
bilhões a menos), despenho afetado ainda pela redução de quase 12,0% nos preços
médios de venda. Em volume, as exportações da soja brasileira para a China
baixaram 16,4%, de pouco mais de 55,0 milhões para 46,0 milhões de toneladas
(ou sejam 9,0 milhões de toneladas a menos). Em compensação, as compras de
carnes pelos chineses cresceram muito acima da média observada nas vendas do
setor para o restante do mercado mundial.

Balanço

·  
As
importações de carnes produzidas no Brasil pela China aumentaram em torno de
30% em valor e quase 20% em volume, nas estatísticas do Mapa. Sempre
considerando os nove meses iniciais de cada ano, o País havia exportado aos
chineses 676,12 mil toneladas de carnes em 2018, alcançando uma receita de US$
1,892 bilhão.

·  
Neste
ano, o volume avançou para 810,04 mil toneladas, enquanto o valor exportado
atingiu US$ 2,461 bilhões, representando em torno de 21,4% das exportações
totais do setor (e 16,1% em volume). Os números indicam que os preços médios
das carnes no mercado chinês foram quase um terço mais elevados do que média
alcançada pelas exportações do setor em todo o mundo.

·  
Em
valor, as vendas brasileiras de carne de frango aumentaram 38,4% neste ano,
pulando de US$ 604,06 milhões para US$ 835,97 milhões (16,3% do valor total
exportado pelo setor). Em volume, o avanço foi de 21,3% (de 329,20 mil para
399,25 mil toneladas, o que correspondeu a 13,1% das vendas externas totais da
indústria brasileira de frango).

·  
Neste
ano (sempre considerando o acumulado até setembro), a China passou a ser o
destino de 30,4% de toda a carne suína embarcada pelo Brasil rumo ao mercado
internacional, respondendo por 157,51 mil toneladas (significando alta de 33,1%
frente a 118,36 mil toneladas exportadas no mesmo período de 2018, quando a
participação havia sido de 25,7%).

·  
Os
embarques da carne suína brasileira para a China foram o grande destaque também
quando analisados pelo tamanho da receita gerada. As exportações saltaram
56,3%, de US$ 231,51 milhões para US$ 361,77 milhões, passando a representar
33,6% das receitas totais.

Fava Neves, que também é professor da USP em
Ribeirão Preto e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, destaca o
aumento de 76% nas importações chinesas de suínos apenas em setembro, atingindo
no total 166,0 mil toneladas (com o Brasil respondendo por 13,9% daquele
volume). No mesmo mês, comparado a igual período de 2018, as compras chinesas
de carne bovina cresceram 50% (para 150,0 mil toneladas) enquanto as
importações de soja em grão caíram 13,5%. Entre janeiro e setembro, a China
reduziu as compras de soja em 8%, para 64,5 milhões de toneladas de soja. 

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