Cicatrizes da pandemia alargam a desigualdade entre economias regionais

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 17 de setembro de 2021

A pandemia vai deixar cicatrizes não apenas na saúde, mas também na economia, alargando as diferenças entre as regiões e consolidando desigualdades históricas, conforme observa a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim de Conjuntura do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). O afrouxamento das medidas mais duras de distanciamento social trouxe uma reação da atividade econômica, mas esta veio acompanhada de uma elevação dos custos em toda a economia mundial, puxada pela valorização das commodities, e de desvalorização persistente do câmbio, mais intensa no Brasil. “Quando você tem um choque de commodities e o câmbio se valoriza, todos se beneficiam. Mas isso não aconteceu agora”, constata Sílvia.

O Ibre trabalhava, até o mês passado, com uma projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,2% neste ano e de 1,6% em 2022, previsão que embute um “carregamento” de 0,8% desde 2021 para o ano que vem – o que significa dizer que a economia em 2022 tenderá a avançar meros 0,8%. As turbulências geradas pelo ocupante do Palácio do Planalto interferem nas expectativas, ao produzir incertezas que afugentam investimentos e inibem decisões de consumo das famílias, diante do temor de perda do emprego, avalia ainda Sílvia. A projeção para o PIB no próximo ano, como esta coluna anotou, passou a sofrer revisões para baixo, com bancos e consultorias esperando, agora, variação até mesmo inferior a 1,0%, o que pode ser entendido como uma estagnação virtual diante da “herança” estatística a ser gerada neste ano.

A série mais longa do índice da atividade econômica do Banco Central (BC), com dados dessazonalizados pela equipe do Ibre, detalha a economista, indica que apenas o Centro-Oeste havia experimentado crescimento entre dezembro de 2013 e fevereiro do ano passado, com alta de 8,0%, seguido pela região Norte, com ligeiro avanço de 0,7%. O Nordeste experimentou o pior resultado no mesmo período, caindo 4,2%, com baixas de 3,9% e de 0,9% para as economias do Sudeste e do Sul, respectivamente.Entre maio deste ano, dado mais recente, e fevereiro de 2020, o Nordeste continuou em retrocesso, embora mais moderado, numa baixa de 0,6%, e o Centro-Oeste tropeçou, acumulando recuo também de 0,6%. As regiões Norte, Sudeste e Sul, pela ordem, anotaram recuperação de 1,5%, 3,1% e de 4,9%.

Inflação e crise hídrica

O processo inflacionário, retoma Sílvia Matos, agravou-se ainda pela desorganização das cadeias de suprimento, a exemplo do setor de semicondutores, afetando o abastecimento das indústrias de veículos, eletroeletrônicos e eletrodomésticos, entre outras. “Isso causou um efeito importante e alguns setores são deverão normalizar o suprimento em 2022”, sugere. Em novo complicador, a crise hídrica e elétrica gerada pela combinação de imprevidência e o pior regime hidrológico em 91 anos deixou o País à beira de um racionamento, encarecendo as tarifas de energia. “A falta de chuvas e as geadas de julho afetaram a produção de alimentos e os níveis dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste”, completa Sílvia. “Ao fim do dia”, acrescenta, “isso fará com que os juros básicos subam mais”, em mais um desestímulo à atividade econômica.

Balanço

  • O emprego continua sendo um desafio e sua recuperação integral dependerá do próprio desempenho da atividade econômica daqui para frente, que não prenuncia resultados mais alvissareiros, e ainda do calendário da vacinação contra a pandemia, afirma Rodolfo Tobler, economista e pesquisador do Ibre/FGV. Segundo ele, o mercado de trabalho já enfrentava situação delicada antes mesmo da pandemia, com a taxa de desocupação acima de 11,0%. Nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o mercado de trabalho perdeu quase 12,9 milhões de empregos entre o final de 2019 e o trimestre encerrado em agosto do ano passado.
  • Os programas do governo para tentar reduzir o impacto da crise sobre o mercado de trabalho, incluindo o auxílio emergencial, amorteceram a queda, mas a retomada tem sido muito lenta e regionalmente desigual ao longo deste ano, pondera Tobler. No segundo trimestre deste ano, o número de ocupados havia crescido para 87,791 milhões, com abertura de 6,125 milhões de ocupações, em torno de 47,5% das vagas perdidas desde o final de 2019. Em torno de 74,7% das novas ocupações foram tomadas por informais, ainda conforme a série de dados da PNADC, com o desemprego mantendo-se em 14,1% e 14,444 milhões de desempregados.Tobler projeta taxas ainda elevadas até o final deste ano, algo entre 14% e 13%, e qualquer coisa acima de 10% em 2022.
  • Agravando as desigualdades regionais, outra marca da crise, destaca o economista, as regiões Nordeste e Norte sofrem mais com o desemprego exatamente por dependerem mais da informalidade. O número de desempregados chegou a recuar levemente entre o primeiro e o segundo trimestres deste ano em ambas regiões, mas permanece, respectivamente, entre 25% e 29% mais alto do que no segundo trimestre de 2020, com a taxa de desocupação em 14,0% e 18,2% (a mais alta do país) naquela mesma ordem.
  • No Centro-Oeste, sob influência maior do agronegócio, o desemprego havia recuado de 12,5% para 11,6%, enquanto o Sul ostentava a menor desocupação proporcionalmente, com taxa de 8,2%. A economia mais diversificada no Sudeste trouxe uma reação mais rápida do emprego, embora sustentada em grande parte pela informalidade. O desemprego mantinha-se em níveis altos, próximos de 14,5%. “O grande ‘x’ da questão é se a recuperação terá continuidade”, pondera Tobler.
  • Mais dependente do setor de serviços e particularmente do turismo, a economia nordestina foi atingida diretamente pelas restrições impostas à circulação de pessoas em 2020, o que produziu retração de 12,5% e 14,7% no nível da atividade nesta área em Pernambuco e na Bahia, a despeito do pagamento do auxílio emergencial, analisa Cláudia Bruschi, economista do Itaú Unibanco. A retomada gradual da mobilidade, afirma a economista, fez com que os serviços trocassem o sinal negativo pelo positivo, com altas respectivamente de 19,6% e de 16,3% naqueles dois Estados no acumulado do primeiro semestre deste ano frente a igual período de 2020.
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