Clima e meio ambiente assumem papel central para futuro do agronegócio

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 26 de agosto de 2021

Os eventos climáticos adversos assumiram frequência mais rotineira ao longo das últimas décadas, tornando cada vez mais comuns episódios de quebra de safra, em geral por falta de chuvas, observa Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). “Problemas assim ocorriam a cada 10 anos, passaram a se repetir de cinco em cinco anos, depois de três em três anos, numa sequência que preocupa o setor e vem se encurtando, numa comprovação dos efeitos das mudanças climáticas”, afirma ele. Clima e meio ambiente assumiram posição central no debate sobre o futuro do agronegócio, assim como a questão da segurança alimentar, ressurgida com maior fôlego durante a pandemia, acrescenta o ex-ministro da Agricultura e coordenador do FGV Agro, Roberto Rodrigues.

Brito considera que o País deveria dedicar maior atenção ao combate ao desmatamento ilegal, adotando políticas mais efetivas nesta área. “Ou acabamos com o desmatamento ilegal ou o desmatamento ilegal vai acabar com a imagem do Brasil no exterior”, dispara, lembrando que as grandes empresas do setor têm compromissos globais e tiveram que se enquadrar a um nível de exigência mais elevado nas áreas ambiental e sanitária, especialmente depois da pandemia. “A questão ambiental veio para ficar e quem não acompanhar vai ficar fora do mercado”, avisa o presidente da Abag. Thomas Raad, CEO da RaadInternational Trading, sustenta que a política externa brasileira deveria ser, por isso mesmo, mais amigável, especialmente em relação à China, destino de quase 39,0% das exportações do agronegócio brasileiro no primeiro semestre.

Rodriguescoloca a questão climática como um dos grandes pontos de interrogação no caminho do agronegócio, não apenas no longo prazo, mas já nesta segunda metade do ano, juntamente com o câmbio, que passou a oscilar para baixo a partir de abril, e agora volta a escalar ao sabor de cada turbulência gerada pela insanidade que domina o Planalto. “O Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária cresceu 5,7% no primeiro trimestre deste ano e ajudou a sustentar a atividade econômica, mas não acredito que o setor cresça tudo isso até o final do ano”, pondera.

Incertezas no semestre

Rodrigues antevê um período de incertezas para o setor neste segundo semestre, num momento de queda na colheita de cana, reduzindo a produção de açúcar e etanol, quebra ainda na produção de laranja, uma retração mais severa na produção de café do que sugere a bianualidade da cultura, e perdas também para o milho. A menor oferta de milho, continua o ex-ministro, pressiona os custos das carnes e traz de volta a ameaça de uma recaída inflacionária no setor de alimentação, num cenário de “desemprego gigante” e perda de renda para as famílias. Nos 12 meses encerrados na segunda quinzena de agosto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o custo da alimentação no domicílio dos brasileiros experimentou salto de 16,05%, diante de uma inflação na faixa de 9,30% em igual período.

Balanço

  • Bruno Lucchi, diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), antecipa igualmente um “cenário desafiador” no semestre em curso, com a alta nos custos de produção gerando impacto maior sobre as cadeias de produtos destinados mais ao consumo doméstico, a exemplo de leite, ovos, hortaliças e de algumas frutas. Aqueles setores, conforme Lucchi, têm acumulado alta de custos, enquanto as receitas “não crescem na velocidade desejada”, já que o consumo não está propriamente aquecido e continua sendo castigado pelo desemprego elevado.
  • As restrições impostas pelo volume reduzido de chuvas desde o começo do plantio da safra 2020/21 ajudam a reforçar uma visão mais cautelosa sobre o futuro imediato no setor e tem levado algumas consultorias a antecipar tendência à estabilidade para o PIB da agropecuária no encerramento do ano diante da redução nos volumes produzidos em segmentos importantes do setor, embora este não seja um diagnóstico unânime.
  • O atraso das chuvas no ano passado obrigou os produtores a postergar o início do plantio da safra de verão, o que impediu a semeadura da segunda safra de milho no período recomendado pela pesquisa. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) havia estimado, em julho, quebra de 10,8% na colheita do grão, com a produção da segunda safra baixando de 75,053 milhões no ciclo 2019/20 para 66,971 milhões de toneladas. A produção total de milho no ano agrícola encerrado em junho passado, na previsão da Conab, tenderia a cair para 86,650 milhões de toneladas, em torno de 15,9 milhões a menos do que na safra 2019/20.
  • A safra de grãos colhida neste ano, de qualquer forma, será a segunda maior até aqui, somando em torno de 253,98 milhões de toneladas, perto de 3,03 milhões a menos do que no ciclo anterior, numa redução de 1,2%.
  • Nas últimas 10 safras, a produção de grãos cresceu 56,9%, puxada pelo crescimento de 35,2% na área destinada ao cultivo e pela variação de 16,0% na produtividade média, castigada por intempéries climáticas ao longo do período, já que o investimento em tecnologia não parece ter sido interrompido diante dos bons resultados no bolso dos produtores em anos mais recentes. Ainda conforme os dados da Conab, no decênio anterior, a alta de 68,2% na produção havia sido influenciada muito mais pelo avanço de 35,6% no rendimento médio das lavouras, enquanto a área cresceu 24,0% entre as safras 2001/02 e 2010/11. Nessa comparação, os produtores haviam acrescentado em torno de 6,85 toneladas à produção de grãos a cada hectare agregado à área de plantio. Nos 10 anos seguintes, a ocupação de um hectare adicional pela agricultura gerou 5,28 toneladas de grãos a mais.
  • Os níveis de tecnologia aplicados ao campo têm avançado, como mostram, por exemplo, o consumo de fertilizantes, que vem batendo recordes sucessivos desde 2016 e deve alcançar perto de 43,0 milhões de toneladas neste ano, crescendo praticamente 6,0% em relação a 2020, segundo projeta Guilherme Bellotti, gerente de consultoria agro do Itaú BBA. O grande volume previsto, no entanto, poderá trazer problemas para os produtores que deixaram para fechar compras mais tarde, alerta Bellotti, diante do risco de gargalos na distribuição do insumo, o que poderá retardar a chegada do fertilizante ao campo.
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