sexta-feira, 17 de julho de 2026

Com novo “tarifaço”, EUA apertam cerco a nações que considera “rebeldes”

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 17 de julho de 2026 às 10:28

Embora tenha ampliado a lista de exceções, o novíssimo “tarifaço” anunciado na quarta-feira, 15, pelo governo dos Estados Unidos deixa muito evidente o cerco imposto a nações que decidiram não sucumbir às pressões trumpistas, recusando uma agenda que significaria a submissão dos interesses maiores da nação a uma potência estrangeira. O mapa desenhado pelo Global Trade Alert, iniciativa independente para monitoramento de políticas comerciais ao redor do planeta, considera que a entrada em vigor daquelas barreiras colocaria o Brasil como o segundo mercado mais tarifado, atrás sintomaticamente apenas da China.

Em estudo recente, mencionado por nota técnica distribuída ontem à imprensa pela Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), a iniciativa global, coordenada pelo St. Gallen Endowment for the Prosperity Through Trade, fundação suíça sem fins lucrativos lançada em 2020 pela Universidade de St. Gallen, estima que a tarifa ponderada imposta pelos EUA a importações brasileira, considerando a participação dos itens afetados no comércio entre os dois países, deverá subir de 11,7% para 18,2% a partir de 22 de julho. Mas deverá se estabilizar em 14,4% com o fim da sobretaxa adicional atualmente aplicada e que vigora até 25 de julho. De acordo com o Global Trade Alert, “a medida final representa meio ponto percentual a menos do que os 14,9% previstos na proposta de junho”. Mas seria ainda um incremento de 2,7 pontos percentuais considerando a tarifa média ponderada em vigor até aqui.

A imposição de tarifas unilaterais ao País responde a motivações de ordem mais geopolítica do que técnica, reafirmando o interesse estadunidense de interferir econômica e politicamente na vida nacional, seguindo a agenda fundamentalista dos principais assessores do governo dos EUA e os destemperos de seu líder. O ponto é que, por trás da intempestividade, há método e planejamento, atropelando dados e fatos para impor os interesses de uma (ainda) superpotência ao resto do globo. Ao incluir numa discussão que deveria ser exclusivamente comercial temas como o PIX brasileiro, o desmatamento (que vem desabando num período mais recente) e os interesses dos magnatas estadunidenses da tecnologia, entre outros pontos igualmente sensíveis, a administração Trump demonstra com clareza que seus objetivos nunca estiveram circunscritos à esfera comercial.

 

Outros dados

Os números mostram uma realidade discrepante em relação aos “argumentos” apresentados pelo USTR (United States Trade Representative, a agência que representa os EUA em assuntos de comércio). Os desequilíbrios nas relações comerciais beneficiam o “grande irmão do Norte” pelo menos desde 2009, na série iniciada em 2000. Entre 2000 e 2008, de fato, a balança comercial chegou a favorecer o Brasil, que acumulou um superávit de US$ 49,588 bilhões com os Estados Unidos no período. Mas entre 2009 e 2025, o País realizou um déficit de US$ 96,102 bilhões. Entre 2024 e 2025, ano do primeiro “tarifaço”, o déficit brasileiro em relação ao mercado estadunidense disparou de US$ 283,484 milhões para quase US$ 7,460 bilhões, um salto de praticamente 26,3 vezes. O resto é conversa para atrair sabujos de todos os calibres, espécimes que vicejam por aqui.

 

Balanço

Os dados da edição mais recente da pesquisa mensal do comércio, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a maio ainda, sugerem uma estabilização na baixa observada em abril para o volume de vendas do comércio varejista e, em direção oposta, a continuidade das perdas no varejo em seu conceito ampliado, que inclui concessionárias de veículos e moto, lojas de autopeças e materiais de construção e o atacarejo de alimentos, bebidas e fumo.

No primeiro segmento, que havia anotado baixa de 1,6% na saída de março para abril, na série dessazonalizada (quer dizer, com exclusão de eventos e fatores que sempre ocorrem nas mesmas épocas todos os anos), experimentou variação de 0,1% em maio frente ao mês imediatamente anterior. Desde março deste ano, quando os volumes vendidos no varejo convencional haviam alcançado seu maior nível na série histórica, o setor apresentou baixa de 1,5%.

Em Goiás, o mesmo setor chegou ao segundo mês de queda, acumulando uma redução de 6,0% na comparação entre maio e março deste ano. Os volumes de venda no varejo restrito já haviam baixado 3,3% em abril (depois da alta de 1,3% em março) e caíram mais 2,8% em maio, sempre em relação ao mês imediatamente anterior.

No País como um todo, o desempenho do varejo tradicional foi ditado por quedas de 1,5% nas vendas de hipermercados e supermercados, alimentos, bebidas e fumo e de 1,7% para as lojas de equipamentos e materiais para escritórios, informática e comunicação. A compensação, ainda que parcial, veio das altas de 3,1% nas vendas de tecidos, vestuário e calçados, de 2,7% nas lojas de móveis e eletrodomésticos e de 1,4% para as vendas de medicamentos, cosméticos e artigos médicos.

O varejo ampliado sofreu baixas de 0,1% em março, de 0,7% em abril e de 0,2% em maio, com perda acumulada de 1,0% entre fevereiro e maio. Em Goiás, ainda no dado dessazonalizado, o resultado de maio praticamente devolveu a alta de 4,0% registrada em abril, numa queda de 3,9% (terceiro pior resultado entre os Estados acompanhados pelo IBGE).

A comparação com igual período do ano passado mostra novamente alguma discrepância entre os dados do varejo convencional e do comércio varejista ampliado na média de todo o País e também em Goiás. No Brasil, o varejo tradicional avançou 0,4% – um desempenho mais moderado do que a alta de 1,0% observada em abril, o que reduziu a elevação acumulada no ano de 2,4% no primeiro trimestre para 1,7% até maio.

Já as vendas no varejo ampliado recuaram 0,6% em maio, depois de altas de 6,5% e de 1,4% respectivamente em março e abril. A principal influência negativa veio do tombo de 7,7% nas vendas do atacarejo de alimentos, bebidas e fumo, embora o setor de materiais de construção tenha recuado 1,8%.

Os dados da pesquisa em Goiás mostram queda de 1,7% em maio para o varejo restrito, com baixa de 1,6% nas vendas de supermercados, hipermercados, alimentos, bebidas e fumo, além de tombos de 9,4% nas lojas de roupas e tecidos, de 4,3% para farmácias e lojas de artigos médicos, de 10,7% para as vendas de materiais de escritório, computadores e celulares.

O varejo ampliado, ainda em Goiás, havia crescido 13,0% em abril e tirou o pé do acelerador em maio, subindo 6,0%. As redes de motos e veículos e peças, que chegaram a saltar 38,0% em abril, mantiveram os dois dígitos em maio, mas numa alta de 22,4%. Houve altas ainda de 6,7% para vendas de materiais de construção e de 1,1% no atacado especializado em alimentos, bebidas e fumo.

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