Com pandemia e alta de provisões, lucro líquido da Saneago cai 79,6%

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 20 de maio de 2021

Ainda sofrendo os efeitos negativos trazidos pela pandemia de Covid-19 e pressionada pelo salto nas provisões para fazer frente a processos judiciais e a contingências diversas, a Saneamento de Goiás S.A. (Saneago) conseguiu manter no azul a última linha de sua conta de resultados, mas viu seu lucro líquido desabar 79,59% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com os primeiros três meses do ano passado. Segundo as demonstrações financeiras divulgadas nesta semana pela companhia, o resultado final caiu de R$ 48,275 milhões para R$ 9,851 milhões.

As receitas líquidas realizadas ao longo do primeiro trimestre mantiveram-se virtualmente estagnadas, recuando ligeiramente de R$ 570,329 milhões entre janeiro e março de 2020 para R$ 569,331 milhões em igual intervalo deste ano – o que significou perda de R$ 997,929 mil ou redução de 0,18%. Parte desse recuo deveu-se à suspensão do reajuste tarifário previsto para 2020, com influência negativa ainda da queda de receitas observada nos setores público e comercial. A redução naquelas duas áreas foi parcialmente compensada pelo aumento de receitas no setor residencial, traduzindo uma migração do consumo motivada pelo número ainda elevado de trabalhadores e servidores em regime de home-office.

Os custos e despesas totais da companhia, no entanto, cresceram fortemente no primeiro trimestre deste ano, atingindo R$ 549,945 milhões diante de R$ 464,185 milhões em idêntico período de 2020, numa alta de 18,48% (perto de R$ 85,760 milhões a mais). Quase 80,7% desse incremento podem ser explicados pelo salto de 190,34% no valor provisionado pela companhia para enfrentar despesas futuras com processos judiciais nas áreas cível, tributária e trabalhista. A empresa teve que reservar, entre janeiro e março deste ano, perto de R$ 105,531 milhões para aqueles gastos, frente a R$ 36,347 milhões nos três meses iniciais de 2020, quer dizer, perto de R$ 69,184 milhões a mais.

Ações cíveis e trabalhistas

Aqueles valores refletem as provisões efetivadas ao longo do trimestre, descontado o valor de provisões feitas anteriormente que foram revertidas em favor da companhia no mesmo período. Num exemplo, a retomada dos cortes no suprimento de água para clientes inadimplentes, que haviam sido suspensos no ano passado por conta da pandemia, permitiu que a empresa recuperasse algo em torno de R$ 5,0 milhões devido a acertos e renegociações de débitos em atraso. As provisões para contingências tiveram maior peso, saltando de R$ 5,814 milhões para R$ 111,501 milhões (mais 1.817,8%), num acréscimo de R$ 105,687 milhões, envolvendo uma questão ambiental no município de Minaçu e ações trabalhistas. Em março deste ano, o Sindicato dos Trabalhadores Urbanitários do Estado Goiás (Stiueg) ajuizou três ações coletivas para discutir o descanso dos operadores de sistema da companhia entre março de 2016 a fevereiro de 2021. As contingências para ações trabalhistas superaram R$ 100,0 milhões no final do primeiro trimestre.

Balanço

  • As dificuldades impostas pela pandemia, que encareceram os materiais para construção civil e acabaram retardando o início de licitações para a contratação de obras e de serviços no segundo semestre do ano passado, tiveram impacto sobre o total dos investimentos realizados nos três meses iniciais deste ano.
  • Na soma geral, o investimento encolheu 12,88% de acordo com a Saneago, baixando de R$ 43,328 milhões para R$ 37,746 milhões. A queda foi influenciada principalmente pelo tombo de 44,74% nos investimentos em esgoto sanitário, que baixaram de R$ 22,635 milhões para R$ 12,508 milhões. A rede de água recebeu R$ 19,357 milhões em investimentos entre janeiro e março deste ano, em alta de 7,19% diante dos R$ 18,059 milhões investidos em igual período do ano passado.
  • Os demais investimentos mais do que dobraram, saltando de R$ 2,634 milhões para R$ 5,881 milhões (alta de 123,3%). Os recursos foram destinados a programas de melhoria operacional, desenvolvimento empresarial, bens de uso geral, aquisição de bens não destinados a sistemas de água e esgoto,como veículos e computadores, além de construções de áreas administrativas, compra de softwares e reforço do estoque de obras.
  • A classificação de risco da Saneago, de acordo com a Fitch Rating, saltou duas posições, saindo de ‘A-(bra)’ para ‘A+9(bra)’. A mudança, de acordo com a empresa de classificação de risco, “refletiu o desempenho operacional e financeiro da Saneago, que ficou acima das estimativas iniciais da Fitch”.
  • A dívidalíquidada empresa caiu 10,4% entre o primeiro trimestre de 2020 e o mesmo período deste ano, passando de R$ 797,350 milhões para R$ 714,463 milhões neste ano (R$ 82,887 milhões a menos). Num período mais longo, tomando dezembro de 2018 como base, quando a divida estava em R$ 921,711 milhões, a queda chega a 22,49%, correspondendo a um corte de R$ 207,248 milhões.
  • Considerando a geração de caixa, em dados ajustados para 12 meses, a relação entre dívida e os ganhos antes de juros, tributos e depreciação (ou Ebitda, na sigla em inglês) saiu de 2,5 para 1,3 vezes entre 2017 e o fechamento do primeiro trimestre de 2021. Nos três primeiros meses deste ano, a empresa desembolsou R$ 75,781 milhões para fazer frente ao serviço de sua dívida (incluindo juros, correção monetária e amortizações), mas o Ebitda foi duas vezes maior, mostrando que a companhia consegue gerar recursos mais do que suficientes para pagar o que deve.
  • O índice de perdas de água foi reduzido de 28,77% para 26,72% entre o primeiro trimestre de 2020 e igual período deste ano, caindo inclusive abaixo da meta especificada para os primeiros três meses de 2021, que era de 27,49%. A retomada das atividades de cortes de suprimento de água por atraso no pagamento de faturas derrubou a inadimplência de 7,43% para 3,65% entre 2020 e 2021, sempre no primeiro trimestre, uma redução de quase 51,0%.
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