Como artistas driblaram a censura na ditadura
Durante a ditadura militar, censurar uma obra nem sempre significava impedir que ela chegasse ao público. Em “Chame o Ladrão”, o cineasta Miguel de Almeida reúne histórias em que artistas responderam à repressão com improviso, humor e brechas encontradas dentro do próprio sistema.
A pesquisa, feita ao longo de três anos, parte de personagens como Antônio Romero Lago, chefe do Serviço de Censura e Diversões Públicas que escondia a identidade de Hermelindo Ramírez Godoy, foragido após matar duas pessoas em 1944. O contraste ajuda a revelar as contradições de uma estrutura que decidia o que brasileiros poderiam ouvir, assistir ou ler.
Entre os casos recuperados estão Chico Buarque, que criou o fictício Julinho da Adelaide para escapar da vigilância dos censores, e Odair José, que reapresentava canções proibidas com alterações para tentar nova avaliação. O livro também passa por “Pra Frente, Brasil”, financiado pela Embrafilme e posteriormente proibido, e por escritores que viajavam pelo país levando, além de literatura, informações censuradas nos jornais.
A narrativa avança até 1986, quando José Sarney proibiu “Je Vous Salue, Marie”, de Jean-Luc Godard. Mais do que reunir episódios de repressão, “Chame o Ladrão” mostra como a criação artística transformou a arbitrariedade da censura em terreno para invenção e desobediência.
O autor
Miguel de Almeida é escritor, editor e cineasta. Colunista de O Globo, é autor de Do pré-tropicalismo aos sertões incandescentes e Trilha nos Trópicos, entre outros títulos, do argumento da série Manhãs de Setembro e diretor dos filmes Tunga, o esquecimento das paixões, Não estávamos ali para fazer amigos e das séries Primavera nos dentes, 22+100, Deu bola e São florestas.
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.