Quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Complexo soja respondeu por 74% do aumento das exportações em dois anos

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 24 de janeiro de 2023

Exportações, importações e o saldo comercial do Estado alcançaram níveis historicamente recordes no ano passado, conforme já divulgado. Mas a balança comercial de Goiás manteve dependência excessiva em relação a um grupo muito reduzido de produtos e, muito especialmente, a um único mercado de destino de suas vendas externas. Essa dependência carrega um risco mais ou menos evidente, já que deixa o setor externo sujeito a oscilações em um mercado específico, no caso, o mercado da soja e de seus derivados (mas sobretudo da soja em grão), e a mudanças de rumos na economia chinesa, que concentrou no ano passado pouco mais de 46,0% de tudo o que o Estado vendeu ao exterior.

Trata-se, como já se sabe, da segunda maior economia global e, por essa razão, haveria até mesmo uma tendência “natural” de concentração nos fluxos de comércio entre Goiás e China. Essa situação torna a relação comercial desfavorável ao Estado e tem gerado problemas para a economia goiana. Entre outras questões, o assim chamado “complexo soja”, que inclui soja em grão, farelo e óleo de soja, respondeu, em 2020, por 85,94% de tudo o que foi exportado por Goiás para o mercado chinês. Uma única commodity, a soja em grão, sozinha, teve participação de nada menos do que 77,26%.

As importações da China, de outro lado, estão concentradas em produtos de maior valor agregado e, em geral, bens industrializados, sob liderança de veículos, suas partes e acessórios, que responderam por 20,88% de todas as compras realizadas por Goiás naquele mercado no ano passado. Ainda em 2022, adubos e fertilizantes somaram 18,79% daquelas importações, com produtos químicos orgânicos surgindo em seguida (16,11%). Máquinas, aparelhos e instrumentos elétricos e caldeiras, máquinas e aparelhos mecânicos, respectivamente, participaram com 11,08% e 8,51%. Apenas cinco itens, portanto, concentraram 75,4% das compras goianas em território chinês.

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Mais do que o dobro

Na comparação entre 2022 e 2020, as exportações totais do Estado apresentaram crescimento acumulado de nada menos do que 73,38%, saltando de quase US$ 8,134 bilhões para US$ 14,103 bilhões em valores aproximados, atingindo novo recorde, numa variação absoluta de US$ 5,969 bilhões. As vendas externas do “complexo soja” mais do que dobraram no mesmo intervalo, crescendo 134,06% e avançando de US$ 3,296 bilhões para US$ 7,714 bilhões, passando a responder por 54,70% de toda a exportação – o que se compara com uma participação de 40,52% em 2020. As vendas externas nesta área registraram acréscimo de US$ 4,418 bilhões, o que correspondeu a 74,02% do crescimento observado para o total das exportações goianas naquele período, tornando mais clara a dependência nesta área.

Balanço

  • Impulsionadas pela soja em grão, principalmente, as vendas externas de Goiás para a China aumentaram 82,10% entre 2020 e 2022, saindo de US$ 3,565 bilhões para US$ 6,492 bilhões, ou seja, US$ 2,927 bilhões a mais (o que representou 49,03% do incremento registrado pelas exportações totais do Estado no mesmo período). Com valores muito mais baixos, as importações subiram de forma mais acelerada, variando 140,12% desde 2020, somando pouco menos de US$ 1,130 bilhão em 2022 (frente a US$ 470,469 milhões dois anos antes).
  • O saldo comercial com a China experimentou avanço de 73,27% de 2020 para 2022, passando de US$ 3,095 bilhões para US$ 5,362 bilhões. Isso significa que o mercado chinês, sozinho, passou a responder por 66,12% do superávit goiano, diante de 64,28% em 2020. Em 2021, de toda forma, essa participação havia sido ainda mais elevada, chegando a 81,16%, como resultado da redução experimentada pelo saldo comercial como um todo em relação ao ano anterior. Mais precisamente, o superávit com os chineses havia recuado 3,42% diante de um tombo de 23,52% no saldo total.
  • Nitidamente, o ciclo de alta das commodities agrícolas e minerais, iniciado em 2021, teve papel central no aumento não somente das exportações, mas também das importações. Os volumes exportados e importados pelo Estado na comparação entre 2020 e 2022, pela ordem, cresceram 16,26% e 6,19%. Mas os valores exportados aumentaram 73,38%, enquanto a importação cresceu ainda mais, variando 80,55%.
  • No caso das compras externas, os valores subiram de US$ 3,319 bilhões para US$ 5,992 bilhões de 2002 para o ano passado. Essa variação foi mais fortemente influenciada pelo aumento de 70,0% nos preços médios dos produtos importados. Os preços médios dos bens exportados pelo Estado, embora tenham crescido fortemente, apresentaram variação proporcionalmente mais modesta do que as importações, aumentando 49,13%.
  • O encarecimento proporcionalmente mais vigoroso dos bens e mercadorias comprados lá fora pioraram a chamada relação de troca. Em 2020, por exemplo, o custo médio das importações havia sido 77,4% mais elevado do que o valor médio recebido a cada tonelada de produto exportado. No ano passado, os bens importados, na média, chegaram a custar duas vezes mais do que cada unidade exportada por Goiás. Na verdade, foi a pior relação desde 2000.
  • Essa deterioração obrigou a economia estadual a realizar um esforço adicional para conseguir manter em crescimento as receitas de exportação, com as empresas passando a gastar ainda mais na importação, em termos proporcionais. Na prática, isso significa que o Estado passou a transferir renda para fora do País em escala maior, já que tem pago muito mais para importar bens necessários ao funcionamento de sua indústria do que aquilo que recebe por unidade exportada.
  • Os dados oficiais sugerem, no entanto, um certo refreamento na tendência de aumento nos preços médios de exportações e importações. Na passagem de 2020 para 2021, os preços médios dos produtos exportados haviam crescido 39,48% frente ao aumento de 47,19% na ponta das importações. No ano passado, na comparação com 2021, a variação passou a ser de 6,92% na exportação e de 15,51% na importação.