Compras de ouro respondem por 46% da alta nas reservas externas do País
Ao longo do ano passado, em uma decisão estratégica, as compras de ouro no mercado internacional realizadas pelo Banco Central (BC) cresceram pouco mais de 33%, com avanço ainda mais expressivo em valores, impulsionado pela valorização do metal no exterior. A medida contribuiu para o reforço das reservas internacionais do país. Entre dezembro de 2024 e o fim de 2025, após oscilações ao longo do período, as reservas passaram de US$ 329,730 bilhões para US$ 358,234 bilhões, o equivalente a cerca de 15,71% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado em dólares pelo BC.
Houve uma recuperação relevante na posição das reservas quando se considera que a intensa especulação com o dólar no último trimestre de 2024 obrigou o BC a liquidar aproximadamente US$ 42,286 bilhões entre outubro e dezembro daquele ano. Nos 12 meses seguintes, foram incorporados cerca de US$ 28,504 bilhões às reservas, o que recompôs aproximadamente 67,4% das perdas registradas no fim de 2024.
As compras de ouro responderam por 45,75% desse aumento, com a entrada de US$ 13,042 bilhões em “novas reservas”. A posição em ouro, convertida em dólares, praticamente dobrou, saltando de US$ 10,874 bilhões no fechamento de 2024 para US$ 23,916 bilhões em dezembro de 2025. A participação do metal no total das reservas, ainda considerada modesta, também dobrou, passando de 3,30% para 6,68%.
Parte desse crescimento foi resultado da escalada dos preços internacionais da onça troy do ouro — equivalente a 31,1 gramas — que acumulou alta de 67,54% ao longo do ano, na comparação com dezembro de 2024. Outra parcela, no entanto, decorreu de decisões da autoridade monetária voltadas à diversificação das reservas, em meio a um cenário de incertezas no mercado internacional e de forte turbulência geopolítica. Esse movimento tem levado diversos países, sobretudo os alinhados ao chamado Sul Global, a adotar medidas para reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais.
Nesse contexto, o volume de ouro alocado às reservas externas brasileiras aumentou de 129,64 toneladas em dezembro de 2024 para cerca de 172,44 toneladas no mesmo mês de 2025, o que representa a aquisição aproximada de 42,8 toneladas.
Déficit despenca
Divulgadas nesta quinta-feira (26), as estatísticas sobre as contas externas do país indicaram melhora significativa no quarto trimestre do ano passado, contrariando previsões que apontavam o risco de uma crise externa provocada pelo avanço do déficit em transações correntes. Em dezembro, o déficit recuou 67,15% em relação ao mesmo mês de 2024, caindo de US$ 10,237 bilhões para US$ 3,363 bilhões — uma redução de US$ 6,874 bilhões.
O resultado foi impulsionado principalmente pelo crescimento de 113,84% no saldo da balança comercial de bens, segundo os critérios adotados pelo Banco Central para o cálculo do balanço de pagamentos, que diferem das estatísticas tradicionalmente divulgadas pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Pela série da Secex, por exemplo, o superávit comercial brasileiro cresceu 107,79% na mesma comparação, passando de US$ 4,636 bilhões para US$ 9,633 bilhões.
Nos dados do BC, o saldo comercial saltou de US$ 4,122 bilhões para US$ 8,814 bilhões, gerando um ganho de US$ 4,692 bilhões, o que explica 68,26% da melhora registrada na conta de transações correntes. Essa conta inclui exportações e importações de bens, despesas com serviços no exterior — como viagens internacionais, fretes e aluguel de equipamentos — além de pagamentos de royalties, juros e remessas de lucros e dividendos.
Na comparação entre o quarto trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, o déficit em transações correntes caiu de US$ 22,042 bilhões para US$ 13,744 bilhões, uma redução de 37,65%, equivalente a US$ 8,298 bilhões. No mesmo intervalo, a balança comercial apresentou superávit de US$ 19,771 bilhões, cerca de 48,05% acima do saldo positivo de US$ 13,354 bilhões registrado no trimestre final de 2024.
Os dados do BC indicam um ganho de US$ 6,417 bilhões na balança comercial nesse período, que respondeu por 77,33% da redução do déficit em transações correntes. A trajetória trimestral mostra recuperação das exportações, que haviam recuado 1,19% no primeiro trimestre do ano passado e avançaram 5,33% no quarto trimestre, sempre na comparação com os mesmos períodos do ano anterior.
Em sentido oposto, refletindo a desaceleração da demanda doméstica, as importações, que chegaram a crescer 12,68% no primeiro trimestre do ano passado, passaram a avançar a uma taxa anual de 3,18% nos últimos três meses do ano.
No acumulado de 12 meses, o déficit em transações correntes ainda registrou crescimento de 3,96%, passando de US$ 66,168 bilhões para US$ 68,791 bilhões — um aumento de US$ 2,623 bilhões. Em relação ao PIB, no entanto, o indicador permaneceu praticamente estável, oscilando de 3,03% para 3,02%.
O desempenho negativo da balança comercial explica integralmente esse aumento anual do déficit, já que o superávit comercial de bens e mercadorias recuou 8,95%, passando de US$ 65,842 bilhões para US$ 59,952 bilhões, uma perda de US$ 5,890 bilhões.
Como compensação parcial, o déficit na conta de serviços — que inclui gastos com transportes, viagens internacionais, tecnologia e outros — caiu 23,24% em dezembro e acumulou retração de 4,06% no ano, ajudando a amenizar a perda de receitas da balança comercial. Apenas em dezembro, o rombo nos serviços diminuiu de US$ 4,971 bilhões para US$ 3,816 bilhões, uma redução de US$ 1,155 bilhão.
Nesse caso, a principal contribuição veio das receitas obtidas com a exportação de serviços de engenharia, arquitetura, pesquisa e desenvolvimento, serviços jurídicos e publicidade, agrupados em “outros serviços de negócio”. O país registrou entrada líquida de US$ 1,212 bilhão em dezembro, contra US$ 283,723 milhões no mesmo mês de 2024, um ganho de US$ 928,590 milhões.
Ao longo de 2025, a conta de serviços permaneceu deficitária em US$ 52,940 bilhões, uma redução de US$ 2,242 bilhões em relação aos US$ 55,182 bilhões registrados em 2024. Além da queda nas despesas, os ganhos de receitas com serviços financeiros tiveram papel decisivo, com crescimento de 7,4 vezes, de US$ 144,596 milhões para US$ 1,211 bilhão — um acréscimo de quase US$ 1,067 bilhão, responsável por 47,6% da redução do déficit em serviços.
A segunda maior contribuição veio de “outros serviços de negócio”, que geraram receitas líquidas de US$ 6,938 bilhões em 2025, frente a US$ 6,154 bilhões no ano anterior, alta de 12,74%, com injeção adicional de US$ 783,898 milhões na conta de serviços.