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sábado, 31 de janeiro de 2026

Compras de ouro respondem por 46% da alta nas reservas externas do País

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 27 de janeiro de 2026
ouro
Foto: Bloomberg

Ao longo do ano passado, em uma decisão estratégica, as compras de ouro no mercado internacional realizadas pelo Banco Central (BC) cresceram pouco mais de 33%, com avanço ainda mais expressivo em valores, impulsionado pela valorização do metal no exterior. A medida contribuiu para o reforço das reservas internacionais do país. Entre dezembro de 2024 e o fim de 2025, após oscilações ao longo do período, as reservas passaram de US$ 329,730 bilhões para US$ 358,234 bilhões, o equivalente a cerca de 15,71% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado em dólares pelo BC.

Houve uma recuperação relevante na posição das reservas quando se considera que a intensa especulação com o dólar no último trimestre de 2024 obrigou o BC a liquidar aproximadamente US$ 42,286 bilhões entre outubro e dezembro daquele ano. Nos 12 meses seguintes, foram incorporados cerca de US$ 28,504 bilhões às reservas, o que recompôs aproximadamente 67,4% das perdas registradas no fim de 2024.

As compras de ouro responderam por 45,75% desse aumento, com a entrada de US$ 13,042 bilhões em “novas reservas”. A posição em ouro, convertida em dólares, praticamente dobrou, saltando de US$ 10,874 bilhões no fechamento de 2024 para US$ 23,916 bilhões em dezembro de 2025. A participação do metal no total das reservas, ainda considerada modesta, também dobrou, passando de 3,30% para 6,68%.

Parte desse crescimento foi resultado da escalada dos preços internacionais da onça troy do ouro — equivalente a 31,1 gramas — que acumulou alta de 67,54% ao longo do ano, na comparação com dezembro de 2024. Outra parcela, no entanto, decorreu de decisões da autoridade monetária voltadas à diversificação das reservas, em meio a um cenário de incertezas no mercado internacional e de forte turbulência geopolítica. Esse movimento tem levado diversos países, sobretudo os alinhados ao chamado Sul Global, a adotar medidas para reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais.

Nesse contexto, o volume de ouro alocado às reservas externas brasileiras aumentou de 129,64 toneladas em dezembro de 2024 para cerca de 172,44 toneladas no mesmo mês de 2025, o que representa a aquisição aproximada de 42,8 toneladas.

Déficit despenca

Divulgadas nesta quinta-feira (26), as estatísticas sobre as contas externas do país indicaram melhora significativa no quarto trimestre do ano passado, contrariando previsões que apontavam o risco de uma crise externa provocada pelo avanço do déficit em transações correntes. Em dezembro, o déficit recuou 67,15% em relação ao mesmo mês de 2024, caindo de US$ 10,237 bilhões para US$ 3,363 bilhões — uma redução de US$ 6,874 bilhões.

O resultado foi impulsionado principalmente pelo crescimento de 113,84% no saldo da balança comercial de bens, segundo os critérios adotados pelo Banco Central para o cálculo do balanço de pagamentos, que diferem das estatísticas tradicionalmente divulgadas pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Pela série da Secex, por exemplo, o superávit comercial brasileiro cresceu 107,79% na mesma comparação, passando de US$ 4,636 bilhões para US$ 9,633 bilhões.

Nos dados do BC, o saldo comercial saltou de US$ 4,122 bilhões para US$ 8,814 bilhões, gerando um ganho de US$ 4,692 bilhões, o que explica 68,26% da melhora registrada na conta de transações correntes. Essa conta inclui exportações e importações de bens, despesas com serviços no exterior — como viagens internacionais, fretes e aluguel de equipamentos — além de pagamentos de royalties, juros e remessas de lucros e dividendos.

Na comparação entre o quarto trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, o déficit em transações correntes caiu de US$ 22,042 bilhões para US$ 13,744 bilhões, uma redução de 37,65%, equivalente a US$ 8,298 bilhões. No mesmo intervalo, a balança comercial apresentou superávit de US$ 19,771 bilhões, cerca de 48,05% acima do saldo positivo de US$ 13,354 bilhões registrado no trimestre final de 2024.

Os dados do BC indicam um ganho de US$ 6,417 bilhões na balança comercial nesse período, que respondeu por 77,33% da redução do déficit em transações correntes. A trajetória trimestral mostra recuperação das exportações, que haviam recuado 1,19% no primeiro trimestre do ano passado e avançaram 5,33% no quarto trimestre, sempre na comparação com os mesmos períodos do ano anterior.

Em sentido oposto, refletindo a desaceleração da demanda doméstica, as importações, que chegaram a crescer 12,68% no primeiro trimestre do ano passado, passaram a avançar a uma taxa anual de 3,18% nos últimos três meses do ano.

No acumulado de 12 meses, o déficit em transações correntes ainda registrou crescimento de 3,96%, passando de US$ 66,168 bilhões para US$ 68,791 bilhões — um aumento de US$ 2,623 bilhões. Em relação ao PIB, no entanto, o indicador permaneceu praticamente estável, oscilando de 3,03% para 3,02%.

O desempenho negativo da balança comercial explica integralmente esse aumento anual do déficit, já que o superávit comercial de bens e mercadorias recuou 8,95%, passando de US$ 65,842 bilhões para US$ 59,952 bilhões, uma perda de US$ 5,890 bilhões.

Como compensação parcial, o déficit na conta de serviços — que inclui gastos com transportes, viagens internacionais, tecnologia e outros — caiu 23,24% em dezembro e acumulou retração de 4,06% no ano, ajudando a amenizar a perda de receitas da balança comercial. Apenas em dezembro, o rombo nos serviços diminuiu de US$ 4,971 bilhões para US$ 3,816 bilhões, uma redução de US$ 1,155 bilhão.

Nesse caso, a principal contribuição veio das receitas obtidas com a exportação de serviços de engenharia, arquitetura, pesquisa e desenvolvimento, serviços jurídicos e publicidade, agrupados em “outros serviços de negócio”. O país registrou entrada líquida de US$ 1,212 bilhão em dezembro, contra US$ 283,723 milhões no mesmo mês de 2024, um ganho de US$ 928,590 milhões.

Ao longo de 2025, a conta de serviços permaneceu deficitária em US$ 52,940 bilhões, uma redução de US$ 2,242 bilhões em relação aos US$ 55,182 bilhões registrados em 2024. Além da queda nas despesas, os ganhos de receitas com serviços financeiros tiveram papel decisivo, com crescimento de 7,4 vezes, de US$ 144,596 milhões para US$ 1,211 bilhão — um acréscimo de quase US$ 1,067 bilhão, responsável por 47,6% da redução do déficit em serviços.

A segunda maior contribuição veio de “outros serviços de negócio”, que geraram receitas líquidas de US$ 6,938 bilhões em 2025, frente a US$ 6,154 bilhões no ano anterior, alta de 12,74%, com injeção adicional de US$ 783,898 milhões na conta de serviços.

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