Consumo das famílias e investimentos param de crescer e seguram economia
O avanço de 2,3% registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado certamente veio um pouco melhor do que as projeções antecipadas pelo setor financeiro e seus economistas na virada de 2024 para 2025, com as apostas sugerindo uma variação abaixo de 2,0%. A diferença não foi tão ampla assim, como mostram os resultados divulgados ontem, dia 3, pelo instituto, exatamente porque a política macroeconômica em vigor tratou de jogar água fria na atividade econômica, desacelerando fortemente seu ritmo a partir do segundo trimestre do ano passado.
O desaquecimento da economia em seu conjunto refletiu substancialmente a estagnação virtual das despesas de consumo das famílias no segundo semestre e o recuo dos investimentos, com perdas sequenciais para a indústria de transformação, que fechou o ano novamente no vermelho, num recuo de 0,2%. Ao longo dos últimos 15 anos, atingida por políticas macroeconômicas muito hostis, com juros sempre nas alturas e câmbio depreciado, o PIB da indústria de transformação registrou oito quedas anuais, quatro das quais apenas entre 2019 e 2025 (sem incluir o período de pandemia, quando o setor chegou a despencar 4,7%). Vale dizer, a atividade industrial apresentou maus resultados em praticamente 60% dos anos no período analisado.
O crescimento mais contido da renda nacional bruta disponível das famílias, associado a um comprometimento maior dos ganhos familiares com o pagamento de juros e amortizações de dívidas relacionadas a empréstimos e financiamentos, pode ter influenciado no comportamento das despesas de consumo nesta área, produzindo dois trimestres de resultados ruins. Na série dessazonalizada, o consumo das famílias havia crescido 0,7% e 0,5% respectivamente no primeiro e segundo trimestres do ano passado, na comparação com os trimestres imediatamente anteriores. Nos trimestres seguintes, numa reversão, houve leve recuo de 0,1% na passagem do segundo para o terceiro trimestre e estagnação no seguinte, com o último trimestre literalmente repetindo os volumes consumidos pelas famílias nos três meses imediatamente anteriores.
Guerra e a economia
As perspectivas para 2026, que sugeriam ainda algum desaquecimento para a atividade, com variação projetada em algo em torno de 1,80% pelos mercados, tornam-se obviamente mais nebulosas desde o início da guerra detonada contra o Irã por Estados Unidos e Israel, num esforço conjunto para perpetuar os conflitos e desestabilizar toda a região. O agravamento e ampliação dos confrontos, na sequência do já esperado fechamento do estreito Ormuz, por onde trafegavam perto de 20% de toda a produção mundial de petróleo e gás natural, fizeram disparar os preços do barril, que passaram a acumular altas entre 12% e quase 15% desde 26 de fevereiro, quinta-feira passada. Neste momento, as bolsas reagem de forma negativa, enquanto o dólar registra alguma elevação, nada dramática ainda. Os desdobramentos da guerra, como parece evidente, tenderão a determinar os rumos para a economia nos próximos meses e, a depender de sua duração, provavelmente ao longo de todo o ano.
Balanço
A manutenção da taxa básica de juros na faixa de 15,0% ao ano ajudou a escalar os juros cobrados das famílias de algo ao redor de 33,1% para 37,6% entre dezembro de 2024 e o mesmo mês do ano passado. O resultado foi que as famílias passaram a comprometer 29,2% de sua renda apenas com o pagamento de juros e amortizações, um nível recorde na série histórica do BC. No acumulado do ano, as despesas de consumo das famílias saíram de alta de 5,1% em 2024 para uma variação de 1,3% no ano passado.
Ao colocar os juros reais muito próximos de 10,7% ao ano, considerando a inflação de 3,91% projetada pelo setor financeiro para este ano, o Banco Central (BC) reforçou sua contribuição para o esfriamento da demanda doméstica, desta vez, causando a desativação de investimentos já programados ao estimular o engavetamento de projetos pelas empresas e ainda frear aqueles em fase ainda inicial.
No acumulado do ano, o investimento avançou 2,9% em 2025, o que se compara com uma taxa bem mais robusta em 2024, quando a variação apresentou um salto de 6,9% em relação ao ano anterior. O dado, de qualquer maneira, não reflete toda a trajetória do investimento ao longo dos últimos trimestres.
Na série dessazonalizada, que exclui eventos e outros fatores que sempre ocorrem na mesma época ano após ano, o investimento chegou a crescer 3,1% no primeiro trimestre de 2025, na comparação com o trimestre final de 2024. Mas passou a registrar baixa de 2,5% no segundo trimestre, variação muito próxima de zero no trimestre seguinte (na verdade, houve ligeira elevação de 0,1%, em estabilidade virtual) e um tombo de 3,5% no quarto trimestre.
Na comparação com o mesmo trimestre de 2024, o investimento chegou a apresentar um salto de 9,0% nos primeiros três meses do ano passado, desacelerando para 4,1% no segundo trimestre e daí para 2,3% no terceiro. O trimestre final de 2025 trouxe uma queda de 3,1%.
Considerando ainda o desempenho acumulado em 12 meses, a perda de fôlego dos investimentos foi influenciada pela forte desaceleração dos setores de construção e de máquinas e equipamentos no ano passado. No primeiro caso, o crescimento de 4,3% em 2024 cedeu espaço para um avanço de apenas 0,5% em 2025, enquanto os volumes produzidos pela indústria de máquinas e equipamentos apontaram elevação de 2,0% no ano passado, o que se compara com o salto de 9,7% um ano antes. A participação da construção no investimento total recuou de 45,4% em 2023 para 43,2% em 2025.
O terceiro componente da conta de investimentos, que agrega a produção de softwares, entre outros itens, já havia crescido 7,3% em 2024 e apresentou incremento de 11,4% no ano passado. A taxa de investimento oscilou para menos, recuando ligeiramente de 16,9% para 16,8% no mesmo intervalo.
Com participação de 69,48% no valor adicionado, o setor de serviços acompanhou a tendência geral, saindo de um crescimento de 3,8% em 2024 para 1,8% um ano depois, o que parece sugerir que a inflação mais persistente neste setor talvez tenha outas causas para além de pressões da demanda.
A contribuição mais positiva, desta vez, veio da agropecuária, que saltou 11,7% no ano passado, compensando com larga folga a redução de 3,7% observada em 2024. O setor sozinho respondeu por 32,8% para o crescimento do valor adicionado, embora tenha participação de 7,1% no PIB calculado a preços básicos. A contribuição do setor externo foi positiva desta vez, já que as exportações de bens e serviços cresceram 6,2% e superaram o avanço de 4,5% acumulado pelas importações. O saldo externo de bens e serviços, deste forma, saltou 29,3% em valores nominais.